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Número 829,

Política

Análise/Wálter Maierovitch

Mãos Limpas e Lava Jato

por Wálter Maierovitch publicado 09/12/2014 06h09
Algumas semelhanças e muitas diferenças entre as duas operações. Aviso ao procurador-geral Janot: muito cuidado com as prescrições
Antônio Cruz/Agência Brasil
Janot

O Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pretende abrir inquéritos pós-delações de Alberto Youssef

A política custa muito e os partidos políticos são como máquinas caça-níqueis de comer dinheiro. A lei sobre financiamento público de partidos políticos foi batizada como a lei mais hipócrita feita pelo Parlamento e isso porque todos sabem que os recursos públicos distribuídos aos partidos eram só uma gorjeta.” O trecho acima, em parte já citado em editorial por CartaCapital, consta do interrogatório judicial de um dos 3,2 mil réus, de um universo de 5 mil investigados pela magistratura do Ministério Público de Milão, do processo criminal iniciado pela célebre Operação Mãos Limpas.

Na operação, a resultar em 1.254 condenados e 429 absolvidos, tudo começou num complexo sanitário e por prisão em situação de flagrante esperado. Presidia o estabelecimento o engenheiro Mario Chiesa, vereador com pretensão futura ao cargo de prefeito, filiado ao Partido Socialista e homem de confiança de Bettino Craxi, figura exponencial na liderança do PSI. Chiesa dera apoio à campanha de Bobo Craxi, filho de Bettino. Envolvido posteriormente nas investigações, condenado a oito anos de prisão, fugiu para a Tunísia, onde cumpriu um exílio dourado, até sua morte. A salvo da extradição pela falta de um tratado cooperação entre Itália e Tunísia. Permitiu-se apenas que seu corpo fosse sepultado na terra natal.

Para renovar o contrato de terceirização do serviço de limpeza do Pio Albergo Trivulsio, o presidente Chiesa solicitara 140 milhões em dinheiro, a serem depositados em poucos dias. Aflito, o empresário Luca Magni, chamado ao pagamento,  procurou um policial carabineiro amigo, que o levou ao procurador Antonio di Pietro, em função de Ministério Público em Milão. Pouco antes de ser preso, ao receber o dinheiro, Chiesa tentou livrar-se, via descarga em vaso sanitário, de uma dinheirama de propinas entregues por outros fornecedores. Parte das propinas Chiesa encaminhava ao seu partido e a sobra engordava as suas clandestinas contas bancárias suíças. A Suíça atrai os ricos em geral e os corruptos em particular. Por exemplo, Paulo Roberto Costa, ex-diretor de distribuição da Petrobras e operador confesso do “propinoduto” que desfalcava a empresa.

Segundo as delações de Costa vazadas, parte do embolsado era enviada a “quase todos” os políticos do Partido Progressista. Outros operadores do esquema Petrobras também teriam repassado propinas ao PT e ao PMDB. Para o falecido senador Sérgio Guerra, tucano e ex-presidente do PSDB, uma bolada teria sido entregue, depois de candidamente solicitada, em troca do arquivamento do pedido de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito por desvios na Petrobras.

Quanto às delações, motivos diversos levaram às colaborações de Paulo Roberto Costa, do doleiro Alberto Youssef e do mariuolo Chiesa. O ex-diretor da Petrobras assustou-se com o montante a descontar de uma eventual pena de prisão em regime fechado e ofereceu devolver, além de delações, 23 milhões de dólares em conta suíça. Youssef, já beneficiado com delação em anterior escândalo, contava com informações e registros preciosos para levar qualquer representante do Ministério Público a aceitar pena reduzida e em regime semiaberto.  Chiesa, depois de um mês de silêncio no cárcere milanês de San Vittore, perturbou-se quando sua esposa, em visita, participou-lhe que o filho estava envergonhado do pai e sofria o desprezo dos colegas do curso primário. Craxi, ouvido pelos jornais sobre o escândalo no Pio Albergo, referiu-se a Chiesa como mariuolo, gatuno vulgar.

Nas primeiras declarações, Chiesa, depois de detalhar a tangentopoli, palavra que poderíamos traduzir como propinopólis, arrematou, em 23 de março de 1992: “Tutti rubiamo cosi”, todos roubamos assim.  Do Pio Albergo evoluiu-se para investigações e descobertas de desvios, superfaturamentos e toda sorte de negociatas em obras públicas, na estatal do petróleo, Eni, na construção dos metrôs, a lembrar o escândalo do metrô de São Paulo. Etc. etc.

No Brasil, muito falta a apurar e desengavetar. Rodrigo Janot, procurador-geral, pretende abrir os inquéritos pós-delações do ex-diretor e do doleiro. Importante é não perder de vista um resultado negativo da Mãos Limpas, ou seja, ocorreram 423 prescrições, o que dá um beneficiado em cada quatro denunciados.

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