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Número 829,

Economia

Análise/Luiz Gonzaga Belluzzo

A ciranda da felicidade

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 11/12/2014 05h32
Enquanto a ninguenzada paga os impostos, a turma do dolce far niente se empanturra nas festanças da austeridade
Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas
Dinheiro

No esteira da recessão, a moeda brasileira e seu juro básico formam um par atraente para os participantes da corrida global por ativos mais rentáveis

A Firjan e a Fiesp comentaram a decisão do Copom de pregar mais 0,5 ponto na taxa Selic. Em nota oficial, entre resmungos e murmúrios, invocaram a necessidade de cortar gastos públicos para aplacar a inflação e, assim, alcançar a queda dos juros. Este, aparentemente, é o roteiro a ser perseguido pela nova equipe econômica.

Mas, diria um economista inglês, “entre a taça e os lábios, o líquido pode derramar”. Elevação da Selic, valorização do câmbio para enfiar a inflação na meta, ajuste fiscal para buscar o superávit primário, contração do gasto privado, avanço da desindustrialização, déficit em conta corrente, baixo crescimento (?), “afrouxamento” do mercado de trabalho para destronar a “inflação de serviços”, queda da receita fiscal e dinâmica perversa da dívida bruta sob impacto dos juros elevados.

Na esteira da Grande Recessão, a moeda brasileira e seu juro básico formam um par atraente para os participantes da corrida global por ativos mais rentáveis.   A valorização do câmbio foi largamente utilizada na “velha matriz macroeconômica” para manter a inflação sob controle.

Nas pegadas da globalização financeira, o Brasil manteve por 20 anos uma combinação câmbio-juro hostil ao crescimento da indústria manufatureira e amigável à arbitragem sem risco.

Diante de frequentes episódios de aguçamento da instabilidade cambial, as vozes de sempre cuidam de separar as “condições internas” dos ruídos emitidos pelo tropel dos mercados empenhados na produção de instabilidades mundo afora.

Nesse ambiente internacional, os países de moeda não conversível se dilaceram entre o objetivo de manter a inflação sob controle e o propósito de não danar o crescimento ou colocar em risco a estrutura industrial e, consequentemente, o “arcabouço” de geração de renda e emprego.

No crepúsculo de 2014, cabe lembrar gregos e troianos: é perigoso entregar-se ao “otimismo dos mercados” e deixar-se embalar por uma nova rodada de valorização da moeda brasileira.  Se assim for, a curto prazo estaremos todos mortos.

O estudo do Banco de Compensações Internacionais (BIS) – “The transmission of unconventional monetary policy to emerging markets” – admite que há consenso a respeito da predominância dos fatores “externos” sobre os fatores internos na determinação dos fluxos de capitais e dos preços dos ativos denominados em moedas distintas. As condições monetárias nos países desenvolvidos, particularmente nos Estados Unidos, o gestor da moeda reserva, determinam o volume de capitais que buscam os mercados emergentes. Às políticas econômicas “internas” cabe o papel de buscar relações entre câmbio e juros atraentes para os capitais em movimento. Num ambiente internacional de livre movimentação de capitais, os bancos centrais dos países de moeda fraca encontram dificuldades em manter, simultaneamente, boas condições de crescimento da economia e a estabilidade de sua moeda.

Repito o que escrevi no jornal Valor. O Brasil, com suas taxas de juro de agiota, desempenha a honrosa função de tesouraria das empresas transnacionais sediadas no País, travestindo o investimento em renda fixa com a fantasia do investimento direto. (Trata-se, na verdade, de arbitragem com taxas de juro: as subsidiárias agraciadas com os juros do doutor Tombini contraem dívidas junto às matrizes, aborrecidas com os juros da senhora Janet Yellen ou do senhor Draghi).

Essa arbitragem altamente rentável e relativamente segura conta com a participação dos nativos “desanimados”. Juntos, engordam o extraordinário volume de “operações compromissadas”, o giro de curtíssimo prazo dos recursos líquidos de empresas e famílias abastadas.

Aprisionada no rentismo herdado da indexação inflacionária, a grana nervosa “aplaca suas inquietações” – diria Maynard Keynes – no aluguel diário dos títulos públicos remunerados à taxa Selic.

A eutanásia do empreendedor é perpetrada pelos esculápios do rentismo. A indústria e a industriosidade vergam ao peso dos juros elevados e do câmbio sobrevalorizado. A inflação resiste à baixa e sustenta a indexação. As finanças públicas se rendem ao trabuco do superávit primário apontado para o seu peito. Enquanto a ninguenzada paga os impostos, a turma do dolce far niente se empanturra nas festanças da austeridade.

A economia global governada pela finança é um monstrum vel prodigium, fruto do cruzamento da mula sem cabeça com o bicho-preguiça.

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