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Número 828,

Política

Editorial

Uma sombra no bastidor

por Mino Carta publicado 28/11/2014 05h28
Sinto a presença de Antonio Palocci por trás do esforço de recompor o esquema inicial do primeiro governo Lula
NILTON CARDIN/Estadão Conteúdo
Palocci

Essa figura esgueira-se nos meus pensamentos

Pergunto de abrupto aos meus botões: seria Antonio Palocci um saudosista? Se os botões pudessem piscar maliciosamente, assim o fariam. Trafega uma sombra pelos meus pensamentos, a deslizar sorrateira no bastidor da cautelosa gestação do futuro governo da República. Algumas nomeações certamente gozam da aprovação paloccica. Mas não seria a sombra dele mesmo, ministro da Fazenda de Lula no primeiro mandato e chefe da Casa Civil de Dilma por alguns meses? Não se teria abalado, o indomável Palocci, a distribuir um ou outro palpite, um ou outro conselho?

É aí que se revela a saudade alimentada pela personagem, como se o projeto fosse reconstituir os começos do primeiro governo Lula, dirigidas as devidas mesuras à casa-grande, aquietados os terrores de quem gostaria de viver em Dubai, tranquilizados os fiéis do deus mercado. Obra capital da operação sorriso, a “Carta aos Brasileiros”. De autoria de quem mais se não Antonio Palocci? Sinto que o homem está em plena atividade, ainda que se esgueire pelos cantos.

Se valem estas minhas arriscadíssimas... procuro a palavra... sensações? Intuições? Suposições? Fantasias? Pois é, caso tenham alguma relação com a verdade factual, a quais conclusões nos levam? Que o entendimento entre Lula e Dilma é muito mais profundo neste exato instante do que se imagina. O filtro entre Palocci e Dilma só pode ser o ex-presidente, sabidamente intérprete magnífico da Realpolitik.

Inquietos, os botões me puxam pelo paletó. Calma lá, suspiram, mas valeria hoje o mesmo esquema que funcionou há 12 anos? Medito antes de responder, e penso em Severina e Maria das Dores, e em todos os brasileiros que nestes 12 anos melhoraram de vida. São eles que, na reta final do pleito recentíssimo, contra o golpismo do mercado, da mídia nativa, dos brasileiros que gostariam de viver em Dubai, da reação tucana, garantiram a sofrida vitória de Dilma.

Houve avanços nestes 12 anos, sociais e na independência brasileira assentada na política exterior que nos convém. O Brasil atual não é mais aquele. A política do poder, destinada a garantir a chamada governabilidade e a enriquecer ilicitamente várias categorias de graúdos, ainda causa, contudo, estragos e atrasos monumentais em um sistema patrimonialista capaz de bater recordes mundiais em termos de cifras envolvidas.

Mudaram, eles sim, os saídos da miséria mais funda, cidadãos como todos os demais. Os graúdos sabem que não se trata do proletariado de décadas atrás nos países mais progredidos, e, antes ainda, dos sans-culottes da Revolução Francesa, o que, de certa forma, os tranquiliza, até sem se darem conta da situação, aceita como fato natural. Nem por isso as circunstâncias atuais deixam de ser bem diferentes em relação ao momento em que Lula chegou à Presidência. Mesmo porque, a crise econômica mundial só eclodiria em 2008 e seus efeitos alcançariam o País ainda mais tarde.

O que está em jogo, de todo modo,  são as esperanças realizadas e aquelas estimuladas. Creio que mais poderia ter sido feito em proveito da inclusão social, mas animadores passos adiante foram dados, e os beneficiados, ou aspirantes aos benefícios, no momento, e por incrível que soe, não pesam na balança.

Que acontecerá com movimentos sociais importantes como o MST? Que acontecerá com o próprio Partido dos Trabalhadores, aviltado por seus pecados, a exibir sua incapacidade de formar quadros à altura das circunstâncias? Nem me atiro a formular este gênero de perguntas aos meus botões, poupo-os nesta hora de grande perplexidade. De saída, sei que citarão um sábio: quem perde a ideologia, ou, se quiserem, a fé, destina-se inexoravelmente à contemplação. O que, sublinho, o qualifica à condição de súcubo.

Tenho uma última pergunta, a subir ao céu para se dissolver nas alturas nevoentas, como o fogo dos peles-vermelhas ao ameaçar a diligência ousada que singra o território hostil no fundo do vale. Se a opção é crescer ou crescer, qual seria o nexo entre o propósito e sua realização se nos rendermos ao deus mercado? Ou é admissível que os empresários brasileiros, abandonados irresponsavelmente, e de várias maneiras ao seu destino, tornaram-se todos, sem distinção, rentistas?