Você está aqui: Página Inicial / Revista / As 750 obras de Youssef / Missão: salvar vidas
Número 828,

Sociedade

Mediterrânea

Missão: salvar vidas

por Claudio Bernabucci publicado 12/12/2014 05h47
A comandante Catia foi decisiva para o êxito da Operação Mare Nostrum, que resgatou 143 mil migrantes naufragados
Catia Pellegrino

Catia Pellegrino, a primeira italiana a comandar um patrulheiro no Mediterrâneo

No mundo anglo-saxônico já atuam almirantes femininas, mas nos países latinos, onde a emancipação é mais lenta, não é comum que uma mulher escolha a carreira militar. Catia Pellegrino, 38 anos, é uma dessas exceções, primeira italiana nomeada comandante de um sofisticado patrulheiro, o navio Libra, tripulação de 78 marinheiros, todos homens. Sua coragem e os acasos da vida reservaram para ela não só essa primazia, mas um destino especialmente significativo.

Chamada ao mando para uma ordinária ação de vigilância da pesca em águas internacionais, sua missão foi abruptamente modificada em “salvaguarda da vida no mar” e repressão do tráfego ilegal de seres humanos. Era 18 de outubro de 2013, poucos dias depois do horrível acidente de Lampedusa, que matou 386 migrantes clandestinos a poucos metros da costa. O governo italiano, para evitar a repetição de tragédias similares, decidiu lançar uma eficaz ação de socorro em amplas áreas do Mediterrâneo, chamada Operação Mare Nostrum. A comandante Catia deu uma contribuição determinante para o sucesso da empreitada, e seu exemplo deixará uma marca na atormentada história do mar que separa e, ao mesmo tempo, une três continentes.

A missão da comandante italiana como salvadora de vidas humanas antecipou e, também, propiciou a Operação Mare Nostrum. De fato, no dia 11 de outubro de 2013, seus superiores solicitaram que ela se dirigisse a todo vapor ao trecho situado entre as ilhas de Malta e Lampedusa para prestar assistência aos náufragos de um barco clandestino. “Quando chegamos à área indicada, o barco já tinha sido engolido pelo mar. Em poucos metros quadrados, centenas de pessoas entre a vida e a morte, outras já cadáveres. Nosso helicóptero e as duas lanchas soltaram rapidamente todos os salva-vidas disponíveis. Em seguida, recuperamos os náufragos pouco a pouco. No fim do dia, eram 212 as vidas resgatadas ao mar, entre elas muitas crianças. Salvaram-se muitos sírios, que em geral sabem nadar. Poucos os africanos sobreviventes.”

O impacto daquela primeira experiência foi marcante, de todos os pontos de vista: “Quando, na alta noite, acabou nossa operação, começamos a indagar a respeito das causas do naufrágio. As versões dos migrantes eram contrastantes e até hoje permanecem pouco claras. Uma coisa é certa: naquela situação de tensão terrível, só a consciência de ter salvado tantas vidas deu força e equilíbrio para seguir adiante”.

A partir desse episódio, a comandante Catia adquire uma experiência sobre o submundo da migração clandestina que poucos especialistas têm. Seu relato: “Esses desesperados fogem da fome e da miséria ou das guerras de todo tipo. Os destinos deles são sobretudo as costas da Líbia ou do Egito, alcançados depois de semanas de marcha ou périplos inimagináveis pelo Mediterrâneo, autênticas odisseias. Pagam milhares de dólares para ter a proteção de organizações criminosas até embarcar naquelas praias. Na hora de pôr o pé em barcos velhos e podres, muitos se recusam, mas são com frequência ameaçados e obrigados a se amontoar literalmente um em cima do outro. Em barcos de 12 metros, os ‘traficantes de seres humanos’ conseguem empilhar até 400 pessoas: não são barcos, são ataúdes que navegam”.

Catia conta detalhes inéditos. Nem sempre os barcos de clandestinos saem diretamente da costa. Às vezes, barcos maiores carregam milhares de pessoas e pequenas embarcações até as águas internacionais, para depois transferir os clandestinos para embarcações menores, às vezes botes infláveis, abastecidos com combustível apenas suficiente para chegar à Sicília, dispondo de uma bússola, mas sem piloto. Só indicando a rota. Assim, sem experiência alguma, chefes de família encarregam-se de guiar a travessia, do medo e da esperança.

Em alguns casos, os patrulheiros italianos conseguiram surpreender esse tráfego, salvar os clandestinos e levar à Justiça os réus, mas o Mediterrâneo é grande e os meios para detectar a movimentação, bastante aleatórios. Para o sucesso das operações, além da procura metódica, a Marinha procura os sinais de celulares ou rádios, calcula tempo de navegação e rota, e envia socorro. Em barcos tão carregados e lentos, a navegação até a Itália demora dias e é sujeita a qualquer tipo de imprevisto. “Quando tivemos a sorte de detectar barcos ainda navegando, encontramos uma humanidade ferida no corpo e humilhada na alma. Corpos desidratados, crianças famintas e aquele cheiro nauseabundo, que, depois de meses, não consigo tirar das minhas narinas.”

Imigrantes em Lampedusa
Migrantes da Tunísia, após quatro dias no mar, pegam ônibus em Lampedusa que os levaria a um centro de detenção

Ter vivido essas experiências e a consciência de ter salvado 3 mil vidas em um ano de trabalho mudaram para sempre a existência da comandante Catia. “Ainda não tive tempo de elaborar o que aconteceu comigo. Uma coisa é certa: salvar vidas humanas trouxe ainda mais responsabilidade ao meu trabalho. Mudaram as prioridades da minha vida e se fortaleceram certos valores. Estou mais atenta ao conteúdo e cada vez mais detesto a cultura da aparência.”

Graças ao empenho de sete navios, aviões, helicópteros e centenas de marinheiros italianos, a Operação Mare Nostrum salvou 143 mil pessoas. Depois de um ano de atividade, foi oficialmente fechada em 31 de outubro de 2014, para ser substituída por operação aparentemente similar, chamada Triton, sob a bandeira azul-estrelada da União Europeia. Com base nas primeiras informações disponíveis, parece que a União Europeia, no seu conjunto, está disponibilizando um financiamento mensal que é equivalente a um terço do gasto feito pelos italianos com a Mare Nostrum. A comandante Catia deve estar muito preocupada.