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Número 828,

Internacional

Portugal

José Sócrates, ex-premiê português, na cadeia

por Gianni Carta publicado 29/11/2014 09h37
O ex-premier Sócrates, em prisão cautelar por corrupção, declara-se humilhado. Mas...
Francisco Leong / AFP
Mário Soares

Mário Soares ainda aposta nele para as próximas eleições. Surpresa? A direita é ainda pior

Uma humilhação gratuita.” Assim o ex-primeiro-ministro português José Sócrates definiu sua prisão preventiva em carta divulgada pelo diário O Público. Aconteceu na sexta-feira 21, pouco depois das 23 horas, no Aeroporto da Portela, em Lisboa. Acusado de fraude, corrupção e lavagem de dinheiro, o socialista, de 57 anos, premier de 2005 a 2011, continuava atrás das grades quando esta edição foi ao prelo.

Sócrates vinha de Paris, onde tem um apartamento e passa considerável parte do tempo. Sua detenção, precisou o ex-premier na missiva, não passou de um “abuso”, espetáculo “montado”, “infâmia”. A prisão preventiva, ou custódia, como se diz no Brasil, foi decretada pelo juiz Carlos Alexandre, e, na mesma quarta-feira 26 da divulgação da carta de Sócrates, Mário Soares, ex-presidente e fundador do Partido Socialista, visitava o colega no cárcere. Concluía: Não faz sentido a longa prisão preventiva sem julgamento para um “homem digno”. “Diga a esse juiz que é muito estranho, que eu também sou jurista.” Esse tipo de prisão preventiva é revisto ao cabo de três meses.

“Caso político”, segundo Soares. Portugal está a um ano das legislativas e, em entrevista a CartaCapital, o professor de Política António Costa Pinto, da Universidade de Lisboa, afirmou que o escândalo “certamente terá algum efeito” sobre o pleito. O acadêmico acredita, porém, que o prefeito de Lisboa e recém-eleito secretário-geral do PS, António Costa, “saberá desmarcar-se do processo” de Sócrates. Do seu canto, o ex-premier havia repetido as palavras do prefeito socialista: fundamental é não misturar o processo judicial contra ele com o pleito e o PS, agremiação na dianteira nas pesquisas de intenção de voto. No entanto, Soares não está em sintonia com Costa. O lendário ex-presidente socialista prefere colocar a máquina partidária a favor de Sócrates. Na quarta, Soares disse: “Todo o PS está contra essa bandalheira”.

Nunca, desde a queda da ditadura em Portugal, em 1974, um ex-premier havia sido colocado atrás das grades. Suspeitas contra Sócrates não escasseavam. Detestado e amado, para os críticos ele teria uma rede para se enriquecer. Há dúvidas sobre a validade de seu diploma de engenheiro civil. Mesmo assim, sua carreira política foi fulgurante. Ex-secretário-geral do PS, ex-ministro de António Guterres, Sócrates foi também um dos organizadores do campeonato Uefa Euro 2004. No primeiro de seus dois mandatos como premier, explica o professor Costa Pinto, “fez reformas importantes”. Na sua coluna em O Público, João Miguel Tavares fala em clara “obsessão” por Sócrates, mesmo após a derrota do premier no ano de 2011. Interessa, parece, saber que tipo de vida leva em Paris. Mas o ex-premier se recusa a oferecer mais detalhes sobre sua vida privada. Tavares joga luz sobre a sociedade lusa: “Neste respeitoso Portugal insistir em fazer perguntas óbvias passa por má educação”. Acrescenta o colunista: “E a verdade é que ele foi escandalosamente informado e protegido pela Justiça durante anos a fio”.

Entre os aliados de Sócrates, dois estão detidos em Lisboa. Um deles é João Perna, o motorista, que é também empresário e advogado. Teria efetuado várias viagens para levar dinheiro em espécie para Paris. Para o semanário português Expresso, Perna foi pego com uma arma proibida. O outro, segundo O Público, é Carlos Santos Silva, empresário e suposto testa de ferro de Sócrates. E é acusado pelos mesmos crimes do chefe. Nesse sigiloso processo judicial, o juiz investiga a proveniência dos 3 milhões de euros, valor do luxuoso apartamento adquirido por Sócrates em Paris. Bem instalado, no ano passado Sócrates publicou a tese do mestrado obtido no reputado Instituto Sciences Po. Intitulada A Confiança no Mundo, a obra é prefaciada por Luiz Inácio Lula da Silva.

Nascido no seio de uma família endinheirada, José Sócrates não tem complexos por ser rico e de esquerda. Disse ele certa vez ao Le Monde: “Tenho dinheiro, não vou me desculpar”. Certo é que a mescla poder/dinheiro leva certos políticos a práticas ilegais. Artigos no Público a partir de 2003 revelam numerosos casos de corrupção a envolver Sócrates. Diz o professor Costa Pinto: “Ainda não sabemos se a acusação se refere a crimes na gestão da fortuna pessoal ou se se trata de corrupção política”.

A carreira política de Sócrates parecia terminada quando ele pediu demissão em 2011, deixando o país falido nas mãos da chamada Troika – o Banco Central Europeu, o FMI e a Comissão Europeia. Não faltaram críticos a culpar Sócrates como “o grande responsável pela falência do Estado português”, acentua Costa Pinto. “Mas o problema foi mais complexo.” De fato, o governo de centro-direita de Pedro Passos Coelho continuou a implementar programas de austeridade. E isso explica o fato de o PS estar novamente na dianteira nas pesquisas da eleição a se realizar dentro de um ano. E a corrupção não teria arrefecido no governo de centro-direita. Há uma semana apenas, veio à tona o escândalo dos vistos dourados, por meio do qual passaportes são entregues a estrangeiros ricos em troca de altas propinas. Demissão pedida e aceita do ministro do Interior Miguel Macedo, e com isso o PS ganhou pontos na corrida eleitoral.

*Reportagem publicada originalmente na edição 828 de CartaCapital, com o título "Ah, esta vã filosofia"