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Número 828,

Economia

Análise/Paul Krugman

À beira da deflação

por Paul Krugman — publicado 03/12/2014 06h24, última modificação 03/12/2014 07h43
A inflação está baixa em todos os lugares, mas há quem diga que suas evidências têm sido suprimidas
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Dólar

A inflação está baixa em todos os lugares, mas há quem diga que suas evidências têm sido suprimidas

É sério. Bem, mais ou menos. Schiff fez grande sucesso em 2008-2009 ao prever uma inflação em disparada, se não hiperinflação, nos Estados Unidos. Ele foi favorito de Glenn Beck.

Em novo artigo publicado em Reason.com, Schiff expõe a questão analítica de maneira muito clara. “Os economistas da corrente dominante, que têm influência no governo, no mundo corporativo e na academia, argumentavam que enquanto o mercado de trabalho continuasse com folga a inflação não pegaria fogo. Meus colegas economistas austríacos e eu manifestamos em alta voz a opinião da minoria de que imprimir dinheiro é sempre inflacionário. Na verdade, é a própria definição de inflação.”

Ele continua: “A verdade é que altos níveis de desemprego são historicamente relacionados à inflação mais alta e níveis baixos de desemprego à inflação mais baixa. Isso porque uma economia que utiliza mais plenamente os recursos de mão de obra é mais produtiva. Mais produção faz os preços baixarem. Em comparação, uma economia que não empregue plenamente seus cidadãos é menos produtiva e seu governo é mais inclinado a seguir políticas inflacionárias mal orientadas para estimular a economia”.

Está bem, deixe de lado o negócio sobre definir a impressão de dinheiro como inflação, ninguém se importa. Mas o que Schiff escreve muito claramente é que, segundo sua visão de mundo, rodar as prensas deveria causar inflação, pela definição normal, mesmo em uma economia deprimida, e que o alto desemprego deveria na verdade fazer a inflação subir, e não baixar.

Ele acertou exatamente: a discussão central é entre aqueles que consideram as depressões um resultado da demanda inadequada, implicando que a inflação cairá e que imprimir dinheiro não faz nada, a menos que reforce o emprego, e aqueles que consideram as depressões uma consequência da má adaptação dos recursos ou alguma coisa, de qualquer modo, alguma coisa pelo lado da oferta. Esses últimos preveem que rodar as impressoras levará à inflação disparada.

Como se poderiam testar essas visões rivais? Ora, que tal ter uma queda enorme, à qual os bancos centrais respondem com uma expansão monetária agressiva? Esse, é claro, é o teste que acabamos de fazer. E para todo lugar que você olhe a inflação está baixa, beirando a deflação.

Então acabamos de fazer o teste de Schiff – e seu tipo de economia, segundo seus próprios critérios, perde com grande sucesso. E isso vale para praticamente todas as doutrinas anti-keynesianas: chegamos tão perto de um experimento limpo quanto seria possível, e a resposta é não.

Agora, praticamente todo mundo daquele lado insiste que não é verdade, que burocratas sinistros estão roubando as evidências de inflação e enterrando-as em uma área de testes nucleares. Isso diz muito sobre com quem estamos lidando. Mas, pelo menos Schiff expõe a questão claramente, antes de se recusar a admitir o erro.

No início de dezembro deverei falar em uma conferência na Universidade Columbia sobre a desigualdade e suas consequências. Uma questão que terei de abordar é a atual discussão sobre se a crescente desigualdade torna os países mais vulneráveis às crises financeiras, aumenta a dificuldade de recuperação dessas crises ou degrada o desempenho de alguma maneira.

Tenho sido cauteloso com essa linha de discussão em parte, porque ela apela tanto às minhas tendências gerais. A desigualdade me preocupa muito, e seria ótimo se ela também fosse ruim no lado da macroeconomia. Por isso realmente me esforço para não comprar essa proposta com muita facilidade.

E continuo sendo cético, em parte porque tem havido algumas crises muito ruins com péssimas recuperações em países que não têm grande desigualdade. Considere, em particular, a recessão pós-1990 na Suécia, que foi causada por bancos desregulamentados e uma bolha imobiliária (parece familiar?), e que ocorreu em uma sociedade com desigualdade muito baixa. Como isso se compara com a experiência dos EUA após 2007? Na verdade, elas estiveram muito próximas.

Ao comparar o Produto Interno Bruto per capita nos anos após as crises, e incluindo as estimativas de desigualdade do Estudo de Renda de Luxemburgo conforme medidas pelo coeficiente de Gini para o período relevante, a Suécia no início dos anos 1990 tinha uma desigualdade muito baixa, mas de todo modo basicamente fez um ensaio geral para a Grande Recessão e suas consequências.
Apenas uma peça de evidência. Mas ainda estou tendo dificuldades com esta.

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