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Número 827,

Cultura

Exposição

Na Estação Pinacoteca, a luta contra a desigualdade

por Rosane Pavam publicado 28/11/2014 05h28, última modificação 28/11/2014 18h11
Duas centenas de obras do acervo da Pinacoteca mostram a arte dos gravuristas brasileiros contra o país desigual
Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo
Gravura

"Assine o apelo pela paz", por Scliar, de 1952

No pior dos tempos, o melhor dos tempos. Sem lâminas, prensas ou locais de exposição, os brasileiros da primeira metade do século XX armaram-se principalmente de profundo humanismo para concretizar a gravura. Terminada a Primeira Guerra Mundial e orquestrada a revolução comunista, esses artistas decidiram que era hora de entalhar o homem em meio às mudanças sociais, flagrados na sua solidão e no rigor do trabalho. Oswaldo Goeldi começou a grande história. Filho de cientista suíço, nascido no Rio de Janeiro, transferido com a família para Belém e aluno de artes plásticas em Genebra, ele atuava como ilustrador de revistas, nos anos 1920, quando decidiu usar a gravura para disciplinar as divagações de seu desenho. Sua obra ganhou a alma da noite, aqui e ali salpicada de cor. Formado no expressionismo, Goeldi utilizaria o difícil entalhe e a impressão em papel para mostrar, como definiu o poeta Carlos Drummond de Andrade, “a irrealidade no real”.

O assombro da permanente existência deste artista no imaginário brasileiro é um dos temas da exposição Gravura e Modernidade – A gravura brasileira dos anos 1920 aos anos 1960 na Estação Pinacoteca, em São Paulo, até outubro de 2016. Da linhagem de Goeldi, que comparece também com suas ilustrações para Mar Morto, de Jorge Amado, jamais reunidas em livro, mas publicadas seis anos após sua morte, em 1967, surgem artistas que evoluem do figurativismo até o engajamento nacionalista contra a miséria e o abstracionismo nos anos 1960. São 202 obras, de um acervo de 4 mil delas, compostas por 54 gravuristas de estilos divergentes, no entanto unidos pela precariedade dos meios disponíveis à fabricação dessa “música de câmara das artes visuais”, como a definiu a polonesa Fayga Ostrower, densa em estrutura, mas limitada em recursos como a cor.

Até os anos 1960, não pareceria incomum no Brasil que os dois cilindros das máquinas de secar roupas nas lavanderias fossem improvisados para a confecção de prensas para gravação, como conta o curador da Pinacoteca, Carlos Martins. O artista pioneiro Livio Abramo, por exemplo, trabalharia com lâminas quebradas, na década de 1920, até que pudesse adquirir as goivas para o entalhe em madeira. Marcelo Grassmann, expoente do realismo fantástico, usaria a colher de pau adequada à xilogravura para imprimir improvisadamente suas litografias, nos anos 1950. Não raro, eles eram expoentes da arte que começavam como ilustradores nos jornais para expor nos corredores de hotéis e livrarias. Antes que nos anos 1950 as primeiras galerias iniciassem a formação de um mercado para a arte no País, as obras nascidas sob o signo da reprodutibilidade ou da multiplicidade poderiam ser usadas como moedas circulantes, úteis para o pagamento de contas de médico ou dentista.

Livio Abramo é um dos artistas de grande representatividade dentro da exposição. Nascido em Araraquara no ano de 1903, aluno de Enrico Vio no Colégio Dante Alighieri, ele navegou no expressionismo, pela trilha de Goeldi e Lasar Segall (este, um dos raros pintores, como Antonio Henrique Amaral, a enveredar pelo rigor do talhe no Brasil). E, profundo humanista, inconformado com a miséria brasileira, dedicaria seu fulgurante figurativismo a combater pela causa operária, do mesmo modo que, em 1938, confeccionaria a série Espanha, com gravuras contundentes, contrárias ao franquismo. Nos anos finais de vida, Abramo reproduziria a geometria poética do casario ao redor de Assunção, no Paraguai, onde trabalhou como professor até a morte, em 1992. Na exposição, entre outras, estão as gravuras que ilustram Pelo Sertão, uma edição do livro de contos de Afonso Arinos de Mello Franco publicada em 1949 pela Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil.

Carlos Scliar, o gaúcho pintor, roteirista, desenhista e ilustrador, que o sucederia em intento humanista e político, surgiria na cena com suas litografias e linóleos. Ele realizara mais de uma centena de desenhos a nanquim de soldados em descanso enquanto combatente na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Nos anos 1940, Scliar se serviria da capacidade de reprodução da gravura para ampliar o protesto social e desenhar os costumes regionais. Era um antiabstracionista e figurativo, que em 1950 criaria o Clube da Gravura de Porto Alegre com o intuito de reativar a revista Horizonte, organizada pelo Partido Comunista Brasileiro. A iniciativa daria à gravura brasileira uma possibilidade pioneira de realização contínua.

Entre as obras em exposição na Estação Pinacoteca, pode-se vislumbrar a de Axl von Leskoschek, o pintor, ilustrador, desenhista e cenógrafo austríaco que, fugido do nazismo, lecionaria xilogravura para os alunos de desenho de propaganda e de artes gráficas da Fundação Getulio Vargas, naquele Rio de Janeiro onde aportou em 1939. Ele seria o professor de Ostrower, Renina Katz, Ivan Serpa e Edith Behring, entre outros artistas que expandiram os limites da gravura brasileira. Além de realizar xilogravuras e pintar cenas do cotidiano fluminense, Leskoschek ilustraria diversos livros, a maioria deles publicados pela editora José Olympio, como as traduções brasileiras da obra de Dostoievski.

Em um caminho peculiar e original, que contrariava a ideia da gravura como música de câmara nas artes plásticas, como a via Fayga Ostrower, a artista Maria Bonomi intuiria que, não sendo a história brasileira “intimista”, exigiria a amplitude do espaço, seus gestos ousados de virtuose a dialogar com a madeira. Bonomi mudou a dimensão física da gravura, embora nesta exposição, que não inclui a produção posterior a 1960, a obra de sua autoria presente mostre apenas o ensaio de uma invenção poética, aquela que consistiria em flutuar no rosto da gravura, como anotara certa vez o crítico Franco Russoli. Na xilogravura São Paulo, Centro, de 1956, Bonomi não se volta para a gélida perfeição geométrica, nem para o bom gosto, “inútil e hedonista”, como Russoli faz anotar, mas, sendo especialmente uma gravurista, ali explora os espaços, as tensões do meio, é a pulsão da cidade o que se observa na sua arte inicial.

Esta história permanentemente associada à invenção e ao surgimento da Bienal Internacional de Arte de São Paulo, que acolheu em suas edições iniciais o trabalho de Oswaldo Goeldi e de Livio Abramo, por exemplo, não deixaria de incluir as manifestações populares na arte de gravar. Era mais do que natural o aproveitamento da gravura no cordel, raciocina a exposição. A mostra trabalha com este conceito de duas importantes maneiras, a primeira delas, ao demonstrar como a gravura popular influenciaria artistas da importância do pernambucano Samico, morto no ano passado. E, em segundo lugar, ao expor as 14 gravuras de José Costa Leite sobre a Paixão de Cristo. É como se a Pinacoteca evocasse, assim, o início conhecido dessa manifestação artística, naquele século XIV europeu em que gravar a crucificação era uma maneira eficiente de educar e intimidar os fiéis.

*Reportagem publicada originalmente na edição 827 de CartaCapital, com o título "O entalhe humanista"