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Número 827,

Saúde

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A epidemia de ebola

por Drauzio Varella publicado 29/11/2014 09h44
Pobreza e práticas tradicionais ajudam a disseminar o vírus. E os morcegos são suspeitos de infectar as pessoas
KENZO TRIBOUILLARD / AFP
Ebola

O vírus ebola reapareceu em 2014 em regiões remotas da Guiné

A doença causada pelo vírus ebola foi identificada em 1976, na localidade de Yambuku (Congo) e em Nzara (Sudão do Sul). Há cinco espécies distintas do vírus. A que atualmente circula pelo Oeste da África tem 97% de similaridade genética com as amostras de Zaire ebolavirus encontradas no Congo e no Gabão.

Embora na epidemia atual os índices de mortalidade estejam abaixo de 60%, essa cepa é responsável por índices que chegam a 90%.

É provável que os surtos epidêmicos tenham origem em reservatórios animais. A suspeita mais consistente é a de que venham de morcegos que se alimentam de frutas. A transmissão para seres humanos se daria por contato direto com os tecidos ou com os fluidos corpóreos dos animais infectados.

Ebola é um patógeno zoonótico, que circula em populações humanas de forma intermitente e imprevisível. Em mais de 20 surtos epidêmicos descritos desde a identificação do vírus, até este ano a doença havia causado cerca de 1,6 mil mortes, porque sempre emergiu em zonas rurais, geograficamente isoladas.

Em 2014, reapareceu numa região remota da Guiné, nas fronteiras com Serra Leoa e Libéria. A disseminação foi rápida, por diversas razões:

1. Os três países estão entre os mais pobres do mundo. Os sistemas de saúde são precários, obrigados a enfrentar outras epidemias, como a malária, com infraestrutura inadequada, falta de material e de profissionais treinados.
2. Os habitantes atravessam as fronteiras com facilidade.
3. Práticas tradicionais, como a de dar banho nos mortos, facilitaram a transmissão.
4. A epidemia espalhou-se para as cidades, tornando mais difícil o isolamento dos doentes e a localização dos contatuantes.
5. Esses países foram assolados por décadas de conflitos sangrentos.

Apesar de tudo, várias características do vírus dificultam sua disseminação. Os estudos mostram que a transmissão não ocorre pelo ar, há necessidade de contato direto com os fluidos corpóreos (vômitos, fezes, urina ou sangue).

A identificação de casos novos não é tão simples, porque os sintomas iniciais são vagos: febre, fraqueza, vômitos, diarreia, cefaleia, dores pelo corpo, perda de apetite, dificuldade para engolir e sangramentos.

O período de incubação é de 5 a 7 dias, mas pode variar de 2 a 21 dias. A morte costuma ocorrer entre o 6º dia e o 16º, geralmente por septicemia, hemorragias e falência de múltiplos órgãos.

Não existem medicamentos específicos contra o vírus. Medidas de suporte como as existentes nas UTIs modernas reduzem drasticamente a mortalidade.

Países que dispõem de serviços de saúde razoavelmente organizados, capazes de isolar os doentes, traçar o paradeiro dos contatuantes e oferecer medidas vigorosas de suporte clínico aos infectados, poderão ter casos importados, mas dificilmente serão afetados por epidemias.

Apesar de todas as dificuldades de nosso sistema de saúde, esse é o caso do Brasil. É muito remota a possibilidade de disseminação entre nós de uma epidemia de um vírus com as características do ebola.

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