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Número 826,

Política

Editorial

Promotores de desastres

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 19/11/2014 06h07
É incrível a semelhança entre Arminio Meirelles e Henrique Fraga
Arte: CartaCapital

Nos idos de 2004, Henrique Meirelles tentou empurrar goela abaixo dos brasileiros uma medida recentemente recomendada por Arminio Fraga, em entrevista concedida durante a campanha eleitoral.  Reduzir a participação do crédito concedido pelos bancos públicos no crédito total.

A ideia central é a seguinte: a existência de linhas de crédito dirigidas pelos bancos públicos a setores específicos – como a agricultura, o investimento produtivo e a habitação – contribui para a elevação dos “spreads” cobrados nos segmentos livres do mercado. Ou seja, as taxas ditas subsidiadas “espremem” as taxas livres, obrigando o sistema bancário a cobrar a conta mediante a elevação de suas taxas.

Também parece simples. Mas a relação de causalidade reivindicada por Arminio Meirelles e por seu “duplo” Henrique Fraga pode ser invertida. A observação dos mesmos dados que amparam as conclusões do presidente do BC poderia sugerir, a um analista descuidado de preconceitos (mas não descuidista), que um longo período de “racionamento” e elevado custo do crédito livre teria provocado a ampliação do crédito dirigido para permitir o desempenho dos setores mencionados. Vamos ouvir a respeito Joseph Stiglitz. Diz ele no livro Rumo a Um Novo Paradigma de Economia Monetária: “Alguns dos efeitos adversos da política monetária podem ser compensados por programas de empréstimos direcionados (...); ao amenizar a probabilidade de inadimplência, elas minimizam os efeitos negativos da subida dos juros (...); é simplesmente equivocado criticar políticas com base no argumento de que elas introduzem distorções na alocação de capital”.

Isso para começar. Depois, seria preciso explicar por que em outros países – desenvolvidos e em desenvolvimento, inclusive nos Estados Unidos – a existência de linhas de crédito dirigido (à agricultura, às pequena e média empresas e à habitação) não suscita “spreads” orgásticos nos empréstimos do segmento livre.

A propósito das políticas de crédito, um dos artigos domingueiros do ex-presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, na Folha de S.Paulo sustenta que a crise desatada há cinco anos deve ser creditada às intervenções do governo nos mercados financeiros. Esse pecado, segundo ele, foi cometido mediante a ação imprudente das agências “garantidoras” de crédito Fannie May e Freddie Mac. Com o propósito de dirigir e facilitar o financiamento às classes de baixa renda – a turma do subprime – as supracitadas agências criaram as condições para os desatinos da expansão imoderada do crédito e para a criação de ativos lastreados nos empréstimos imobiliários.

Se o ex-presidente se entregasse ao estudo das peripécias que levaram à desregulamentação financeira, poderia compreender as razões da crise. Sob o acicate das crenças liberaloides e, pior, docemente constrangidos pelos interesses do oligopólio financeiro global (too big to fail), as autoridades capricharam na promoção do desastre.

Os governos interferiram sim, mas para liquidar as regras da “repressão financeira” que, diga-se, garantiram a estabilidade e o crescimento das economias ao longo de três décadas na posteridade da Segunda Guerra Mundial. Não por acaso, quando a crise do Lehman Brothers bateu no Brasil e o PIB iniciou o mergulho de 2009, Meirelles subiu a taxa de juro.