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Número 825,

Internacional

Ucrânia

Ucrânia, um país dilacerado

por Gianni Carta publicado 11/11/2014 04h25
As eleições nas regiões pró-Rússia pioram as relações do Ocidente com Putin e avolumam o risco de guerra na fronteira
Sergei Bondarenko / AFP
Putin e Poroshenko

Em Minsk, as contradições deste aperto de mãos

O presidente ucraniano Petro Poroshenko parece ser o único a ainda acreditar em um processo de paz com a Rússia. Parece. Em todo caso, uma semana após ter amealhado suficientes votos para formar uma coalizão no Parlamento (Rada) no domingo 26 de outubro, eleitores das duas autoproclamadas repúblicas da Ucrânia Ocidental, Donetsk e Luhansk, elegeram presidentes pró-russos no domingo 2. Poroshenko, a União Europeia e os EUA consideraram os pleitos ilegítimos. Sintetiza Andreas Umland, cientista político da Academia Kiev-Mohyla, a CartaCapital: “Estas eleições se resumem a um ato da anexação de facto de grande parte do leste pela Ucrânia”. Em contrapartida, o presidente russo, Vladimir Putin, acolheu os pleitos como legítimos. Fez mais: propôs, com perceptível cinismo, um diálogo entre os presidentes das repúblicas e Kiev.

Enfurecido, o presidente ucraniano afirma que os escrutínios não passaram de “farsa”. Pior: põem em risco o processo de paz iniciado, em 5 de setembro, em Minsk, capital da Bielorrússia. Segundo o acordo, delineado e assinado por Ucrânia, Rússia, Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (Osce) e delegações de rebeldes separatistas, haveria, entre outros, pleitos em Donetsk e Luhansk. Organizados, porém, por Kiev e marcados para 7 de dezembro, não para 2 de novembro. Putin reagiu: em Minsk, lembrou, todos concordaram com as eleições “em coordenação” com os planos ucranianos, mas não em perfeita sintonia com Kiev.

De todo modo, o acordo de paz é uma farsa, violado de ambos os lados. Na quarta-feira 5, bombardeios mataram dois adolescentes e feriram gravemente outros quatro durante um jogo de futebol em uma escola de Donetsk. Centenas de pessoas morreram na região desde a assinatura do acordo de Minsk. Segundo a Osce, mais de 4 mil perderam a vida no leste do país em uma sucessão de eventos iniciados em março, quando a Rússia anexou a Crimeia. Os ataques do exército ucraniano e voluntários, estes muitas vezes integrantes de legendas de extrema-direita, continuaram a visar os separatistas quando se apoderaram de Luhansk e Donetsk em abril, e após o referendo de independência “ilegítimo” de 11 de maio. Os separatistas são, com frequência, veteranos do exército soviético, e muitas vezes apoiados por milícias e armas russas. Putin, é claro, nega qualquer interferência.

A empresária Elena Bondar discorda: “Podemos esperar uma guerra entre a Ucrânia e a Rússia já no início de 2015”. E emenda: “Putin não quer acordo de paz algum”. Como disse a italiana Federica Mogherini, nova Alta Representante para Política Externa e Segurança da UE, as sanções econômicas e financeiras “podem ter machucado a Rússia, mas não parecem ter tido nenhum impacto no pensamento e no comportamento de Putin”. Bondar concorda: “Enquanto a UE e os EUA hesitarem em introduzir sanções severas, como o congelamento de ativos russos no exterior, o bloqueio financeiro total e pararem de comprar seu petróleo e gás, Putin continuará a enfrentar a Ucrânia e o Ocidente”.

Umland, o cientista político, acrescenta: “É provável que Putin imagine que as
atuais sanções serão levantadas, e talvez tenha razão em pensar assim”. Ainda Umland: “A reação ausente e tímida da UE diante da presença ilegal da Rússia na Transnístria, na Moldávia, na Abecásia e Ossétia do Sul, na Geórgia, e na Crimeia leva os russos a supor que também conseguirão anexar outras regiões na Ucrânia”. Segundo Jens Stoltenberg, novo chefe da Otan, “tropas russas estão se aproximando da Ucrânia”.

A crise teve início em novembro de 2013, quando o então presidente russófilo Viktor Yanukovich se recusou a assinar um contrato de livre-comércio com a UE. Foi deposto em fevereiro deste ano pelos manifestantes da Praça Maidan. Em uma Ucrânia dividida entre a Europa e a Eurásia, Poroshenko é um camaleão. Nascido em Odessa 49 anos atrás, o bilionário magnata das confeitarias, mais conhecido como o Rei do Chocolate, foi eleito presidente em maio. Embora tenha como língua materna o russo, fala com desenvoltura o ucraniano, algo comum na ex-república soviética independente há 23 anos, na qual os 46 milhões de habitantes falam as duas línguas. Poroshenko, que serviu como ministro do deposto pró-russo Yanukovich, e é padrinho de seus quatro filhos, também foi ministro do presidente pró-europeu Viktor Yushchenko. Em seu primeiro discurso após ter assumido a Presidência, disse: “Escolhemos a Europa”. Deixou clara, porém, sua intenção de “dialogar” com a Rússia de Putin.

No momento, Poroshenko pode ainda falar em paz, mas o faz por ser um pragmático. Já enviou reforços ao leste para proteger cidades como Mariupol e Kharkiv. E esclarece que, apesar de ser favorável a um cessar-fogo, “isso não significa que a Ucrânia não estará pronta para uma ação decisiva, no caso de um cenário pessimista e negativo”. Ao mesmo tempo, retirou o status especial concedido a Donestsk e Luhansk. Os novos presidentes dessas regiões são, respectivamente, Alexander Zakharchenko e Igor Plotnisky, de 38 e 50 anos. “Figuras até agora desconhecidas”, isto é, “sem grande credibilidade”, resume Umland.

Zakharchenko sobressai-se pelo menos pela alta estatura. Trata-se de um ex-eletricista de 38 anos que virou homem de guerra e, por ter mostrado valores militares em uma ação de autodefesa em Donetsk, foi promovido a major em julho passado. Na sua campanha, Zakharchenko propôs pensões “mais elevadas do que na Polônia”. Aposentados deveriam ter dinheiro suficiente para “viajar à Austrália ao menos uma vez ao ano, para matar uma dezena de cangurus em safáris”. Já na terça dizia-se preparado a dar continuidade ao processo de paz “com qualquer um, inclusive com Poroshenko”. Como diz a CartaCapital o cientista político Oleg Varfolomeyev, “os líderes das autoproclamadas repúblicas parecem estar prontos para o diálogo, mas não para uma reintegração”. Isso se não eclodir, como prevê Bondar, uma guerra entre a Ucrânia e a Rússia.

*Reportagem publicada originalmente na edição 825 de CartaCapital, com o título "País Dilacerado"