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Número 825,

Sociedade

Moda

Desfiles para quê?

por Vivi Whiteman — publicado 29/12/2014 07h30
Com suas narrativas pasteurizadas, nas passarelas e fora delas, os eventos de moda de hoje perderam importância e glamour
AFP
Coco Chanel

Os anos 1950 trouxeram as polêmicas de Coco Chanel

Futurólogos e apocalípticos do estilo previram a morte dos desfiles várias vezes e erraram sempre. Resilientes durante as piores crises, as semanas de moda mostraram-se adaptáveis. Esculpidas pela mão pesada do mercado e pela dança frenética da tecnologia, as passarelas viraram um atalho por onde circula a corte do mundo instantâneo, com seus reis, rainhas, princesas e súditos, todos apressados – mas sem o glamour de antes.

Entre os anos 50 e 70, os desfiles eram capazes de criar tendências e levantar discussões entre artistas e intelectuais. “Essas roupas deviam ser usadas durante o dia”, dizia Andy Warhol sobre os looks futuristas de André Courrèges, inspirados nas fantasiosas garotas estelares dos tempos da corrida espacial. Anos antes, quando ele propunha minissaias, Coco Chanel dizia: “Os homens procuram destruir a mulher, seu shape, lutando para transformá-la em uma garotinha”. Com sua morte em 1957, Yves Saint-Laurent tomou o lugar e, após seu primeiro desfile para a maison, leu num jornal: “Ao final, estavam todos chorando, foi a maior comoção fashion de todos os tempos”.

Não é todo dia, porém, que se cria o primeiro biquíni ou Christian Dior lança o “new look”. Hoje, artistas contemporâneos colecionam parcerias com estilistas e a moda é tema nas universidades de ponta, mas a narrativa se transformou. A fase das fashion weeks de hoje começou nos anos 1990, a era dos excessos. Foi um tempo de supermodelos, grandes shows (o auge de John Galliano e a ascensão do genial Alexander McQueen), novas musas (Crawford, Campbell, Moss) e reorganização de negócios: logomania, acúmulo de capital, prestígio das supereditoras. Nascia um novo potencial de mercado.

Hoje, estar numa semana de moda como Paris, Nova York ou Milão flerta mais com um camarote vip do que com um clássico tapete vermelho. Ter a pulseira de acesso permite brincar com as novas ferramentas do status. Ter um convite para um desfile é cool; isso e dinheiro para comprar na loja da grife, bem mais. E ser “melhor amigo dos últimos cinco minutos” dos estilistas é para poucos. Fora da área vip, mas perto da fita, estão os consumidores em si, não dos produtos, mas da ideia de mundo vendida pela grife. Desfiles ao vivo via web, sorteio de convites, aplicativos, fotos das celebridades com roupas da marca, selfies – tudo em tempo real, logo repetido em looping. O desfile é um sol em torno do qual os eventos menores orbitam.

Não é raro encontrar quem jamais comprou um Chanel, mas considere a grife parte de sua vida, ainda que se alimente no mercado de genéricos e magazines de fast-fashion (com parcerias com as grifes, como H&M). Desejar a marca já é consumir. A “informação qualificada” sobre o que desejar diferencia os públicos. Uma falsificação da 25 de Março é um residual possível de um desfile; o que sobra é um vestígio do original, mas parte fundamental da construção de identidade. Pois o conto de fadas da moda não sobrevive somente da publicidade e dos editoriais. A eles falta o relato da experiência. O conflito, o romance, o debate entre Courrèges e Chanel (ou um texto de Diana Vreeland), hoje está tudo pasteurizado em relatos rasos da imprensa “bate-palminha”.

Blogueiras são um elo importante da cadeia de moda hoje. Mas não se pode depender delas (e de outros burocratas do texto) para fazer a ponte entre a grife e as ruas. Elas têm o rabo preso e, apesar de saberem escolher looks, não têm élan, charme narrativo. São boas personagens – deviam ter suas “aventuras” de compras em farmácias ou passeios de helicóptero filmadas e descritas por dedos mais hábeis, em vez de publicar obviedades como “adorei as cores” ou “deu vontade de comprar tudo”. Enquanto os serviços e a agilidade do consumo crescem, a narrativa sobre o que as grifes fazem empobrece. Não à toa, as marcas europeias buscam ligar seu nome a museus e à arte: querem pescar narrativas e se apropriar delas. Com as coleções submetidas ao pragmatismo comercial, nada mais cabal que um bom contador de histórias.

No Brasil, estamos um passo atrás. Paulo Borges, criador da São Paulo Fashion Week (que completa 20 anos), defendeu em artigo a relevância dos desfiles para o público. “As pessoas não se conformam mais em ser meros espectadores. Elas querem viver o que está nas passarelas, driblando suas limitações financeiras e geográficas, subvertendo propostas, criando a moda do seu jeito”, analisa. Muitos o apoiam. Outros criticam a estratégia por trás do pensamento. “As marcas brasileiras ainda não têm uma abordagem do desfile que acrescente algo à identidade de grife. É uma visão puramente comercial de momento”, afirma André Carvalhal. Ambos estão certos.

Da t-shirt cinza de Mark Zuckerberg ao protesto fake da última coleção Chanel, passando pelo furor de Donatella Versace e seu desfile-performance para sua nova coleção em parceria com a Riachuelo, a moda e os desfiles refletem as histórias do nosso tempo. Torná-las interessantes como narrativa é o desafio das fashion weeks para o mundo pós-transe que, dizem, virá.