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Número 825,

Política

Congresso

O PT se move contra Eduardo Cunha

por Rodrigo Martins publicado 12/11/2014 09h00, última modificação 12/11/2014 09h42
O PSD de Kassab e a frente de esquerda proposta por Cid Gomes conseguirão deter o ímpeto do PMDB?
Elza Fiuza/Agência Brasil
Dilma e Kassab

Gilberto Kassab e seu partido cresceram nas eleições

Reconduzido à liderança do PMDB da Câmara, o deputado federal fluminense Eduardo Cunha tornou-se uma das principais ameaças à governabilidade de Dilma Rousseff em seu segundo mandato. Ainda durante o período eleitoral, o pseudoaliado demonstrou disposição de apoiar um eventual governo tucano, caso Aécio Neves saísse vitorioso nas urnas. Líder de um movimento que impôs duras derrotas ao Planalto nos últimos anos, entre elas a recente derrubada do decreto presidencial que regulamentava a atuação dos conselhos populares, há tempos Cunha amarra uma aliança com setores insatisfeitos da base para lastrear sua candidatura à presidência da Casa Legislativa. Na onda do elevado grau de polarização política da última disputa presidencial, aposta no discurso antipetista para conquistar o apoio dos oposicionistas, que ainda avaliam a viabilidade de apresentar um candidato próprio na disputa.

Diante da ameaça, derrotar Cunha é a prioridade absoluta da bancada do PT, mas não há consenso de como fazer gorar o ovo da serpente. Como o PMDB ainda não oficializou a candidatura do deputado fluminense, alguns parlamentares petistas acreditam que a intervenção do vice-presidente Michel Temer possa surtir efeito, assim como a pressão de governadores peemedebistas que precisam manter boas relações com a União. Começa, porém, a ganhar força uma ideia alternativa para reduzir a dependência do PMDB a partir de 2015.

“O Planalto precisa ter clareza do tamanho e do perfil da bancada que deseja. Talvez esteja na hora de ter uma base mais enxuta, porém mais sólida e confiável”, afirma o petista Marco Maia, que comandou a Câmara em 2011 e 2012. A ideia é estreitar laços com os outros partidos da coligação, entre eles PP, PR, PSD, PROS e PRB, além de cortejar os nanicos e atrair de volta alguns parlamentares do PTB e do próprio PMDB, emenda o deputado cearense José Guimarães, ex-líder do PT na Casa. “O atual modelo de governabilidade faliu. É melhor reduzir o tamanho da base e estabelecer uma carta de compromissos com os aliados.” Na quarta 5, Dilma reuniu-se com Gilberto Kassab e outras lideranças do PSD. A legenda, criada em 2011, sonha em dividir com o PMDB o espectro de centro e se transformar em uma força essencial à governabilidade de qualquer presidente.

Uma proposta apresentada pelo governador do Ceará, Cid Gomes, vai na mesma linha das elucubrações petistas. Filiado ao PROS e ministeriável, Gomes sugeriu a criação de uma frente de esquerda no Congresso para assegurar a governabilidade. Além de seu partido, integrantes de legendas como o PDT, o PCdoB, o PSB e até do PSOL poderiam integrar o bloco. “O ideal seria compor inicialmente uma frente que possa evoluir na sequência para um novo partido, que resulte na fusão de algumas legendas”, afirmou o governador após um encontro com a presidenta na terça-feira 4.

O novo grupo, imagina, poderia reunir ao menos 10% dos parlamentares do Congresso, tamanho semelhante àquele das atuais bancadas do PT, PMDB e PSDB. Seria um importante contraponto ao avanço dos conservadores, que conseguiram ampliar as frentes ruralista, religiosa e militar, à custa de um declínio dos representantes de movimentos sociais, de direitos humanos e sindical. Reeleito, o deputado Jean Wyllys, do PSOL, vê com simpatia a proposta. “Não há outra saída, senão articularmos uma grande frente para apoiar as políticas progressistas do governo e fazer uma contraposição a essa onda reacionária, que por vezes resvala no discurso fascista, como esse delírio de pedir o impeachment de uma presidenta que acabou de ser reeleita.”

A proposta de uma base mais enxuta esbarra em dificuldades práticas. Com maioria simples, é possível aprovar projetos de lei e medidas provisórias. Mas para emplacar emendas à Constituição seriam necessários ao menos 308 votos favoráveis, número que parece inviável sem o respaldo dos peemedebistas. “É preciso deixar claro que não descartamos o PMDB de forma alguma. A postura de Eduardo Cunha é que suscita tantas dúvidas e gera desconfiança”, afirma Vicentinho, líder do PT na Câmara. “Insisto sempre neste ponto: o PMDB não é um partido da base aliada, é governo. Somente após aprofundar o diálogo com o vice Michel Temer e com os novos deputados e governadores eleitos, teremos um cenário mais claro. Cunha pode até ter certo controle sobre a bancada de deputados, mas imagino que não tenha a totalidade.”

Após reunir parlamentares e governadores eleitos no Palácio do Jaburu, Temer evitou endossar a candidatura de Cunha à presidência da Câmara. “É um assunto do Congresso, e não ainda do partido”, despistou. Durante o encontro, lideranças peemedebistas criticaram a articulação “independente” do deputado fluminense. “Se o PMDB agir no Congresso em meio a interesses fragmentados de grupos e alas não terá como ocupar o espaço que é do tamanho do PMDB”, avaliou o governador de Sergipe, Jackson Barreto. “Ou você é da base, ou não é. Esse negócio de independência não existe”, emendou o vice-governador eleito de Minas Gerais, Antônio Andrade.

Para minar as resistências, Cunha tem ajustado seu discurso. “Quando a gente fez o blocão não era contra o governo, e sim contra a hegemonia do PT”, afirmou em entrevista recente. Composto das bancadas do PMDB, PTB, PR, PSC e Solidariedade, o chamado “blocão” reúne cerca de 160 parlamentares que, em diferentes momentos, se rebelaram contra o governo. Essa é a principal base de apoio do deputado, que costura suas alianças de baixo para cima e por vezes surpreende os líderes partidários.

Não se trata, contudo, de um grupo tão coeso como gosta de propalar. Candidata mais votada para a Câmara em todo o Brasil, Clarissa Garotinho, do PR, filha do ex-governador Anthony Garotinho, promete seguir os passos do pai e fazer renhida oposição ao líder do PMDB. “O meu voto ele não vai ter. Vou trabalhar para que a bancada do PR esteja no campo de oposição a Cunha. Não concordo com os métodos. O Congresso precisa ter autonomia, independência e harmonia com o governo federal, mas de maneira alguma devemos ter no comando um chantageador-geral da República.”

Desde 2006, um acordo garante o revezamento das duas maiores bancadas, PT e PMDB, na presidência da Câmara. Após a gestão do peemedebista Henrique Eduardo Alves, os petistas reivindicam o posto. Os nomes mais cotados são de Arlindo Chinaglia e Marco Maia, que já comandaram a Casa e têm boa interlocução com a base. Uma ala do partido defende a candidatura de Guimarães. “Nada está definido”, diz Maia. “Uma das possibilidades é o PT abrir mão do posto por dois anos, para o PMDB ou para outra legenda aliada. Na medida em que Cunha rejeita qualquer diálogo conosco, entendo que estamos liberados para outras alianças.”

Na quinta-feira 6, Vicentinho reuniu a bancada petista para uma consulta sobre as diferentes alternativas na sucessão. À noite, Dilma os receberia num jantar de confraternização, assim como os novos parlamentares e governadores eleitos do partido. A estratégia da legenda, espera-se, deve ser definida até 13 de novembro, quando o PT realizará um seminário em Brasília.

“Precisamos de um nome capaz de unir a base, seja ele petista ou não. Na verdade, estamos bastante atrasados. Cunha constrói sua plataforma há tempos. Cresceu muito por assumir o papel de porta-voz dos insatisfeitos da base e peitar o governo num momento em que as relações entre o Executivo e o Legislativo estavam estremecidas”, afirma Chinaglia. “O jogo está no começo, e será disputado entre os incluídos. Muita gente se esquece, mas cerca de 40% dos atuais deputados não estarão mais aqui em 2015”.

*Reportagem publicada originalmente na edição 825 de CartaCapital, com o título “Correlação de forças”