Você está aqui: Página Inicial / Revista / Progresso / Sérgio Machado, a primeira vítima da Lava Jato
Número 825,

Política

Transpetro

Sérgio Machado, a primeira vítima da Lava Jato

por Fabio Serapião — publicado 11/11/2014 04h25
Citado por delator, o presidente da Transpetro perde seu cargo

Os desdobramentos da Operação Lava Jato fizeram sua primeira vítima oficial e começam a assombrar políticos do alto escalão do governo federal. Na mesma semana em que a Transpetro anunciou a saída de seu presidente Sérgio Machado, o doleiro Alberto Youssef confirmou ter repassado 1 milhão de reais para a senadora e ex-ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann. Muito embora a subsidiária de transporte e logística da Petrobras diga à imprensa que Machado deixou o cargo “de forma espontânea”, a queda do homem forte do senador Renan Calheiros é mais um sinal dos possíveis estragos causados pelos depoimentos dos delatores premiados e pelas provas amealhadas pelo Ministério Público e Polícia Federal. “Tenho sido vítima de imputações caluniosas feitas pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa”, afirmou o ex-presidente em nota após perder o cargo que ocupava desde 2003. Mas não são apenas as declarações de Costa, de que teria recebido 500 mil reais do ex-senador, as causas da queda de Machado.

Como revelou CartaCapital em sua edição 819, o Ministério Público Federal (MPF) encontrou indícios de direcionamento e dano ao erário na licitação da Transpetro que contratou o consórcio Estaleiro Rio Tietê (ERT), composto das empresas SS Administração e Serviços, Estaleiro Rio Maguari e Estre Petróleo e Gás, para a construção de 20 comboios de barcaças para transporte de etanol pela Hidrovia Tietê-Paraná. A licitação deu-se em 2010, mas até hoje nenhuma barcaça foi entregue. Por causa das irregularidades no negócio de 239 milhões de dólares, o procurador Paulo de Tarso Garcia Astolphi solicitou à Justiça o afastamento e o bloqueio dos bens de Machado.

Os problemas não param por aí. Embora não tenha sido o objetivo dos procuradores de Araçatuba, a investigação encontrou na licitação rastros de Costa e de empresas ligadas a ele. Diz a ação civil pública protocolada por Astolphi: “Coincidência ou não, o gerente do “Contrato Transpetro” do ERT, Alexandre Bruno, testemunha contratual dos terceiros e quartos termos aditivos celebrados entre o ERT e a Transpetro em 5/12/2012 é ou foi “Consultor/Sócio, líder de projetos em gestão empresarial no Grupo Pragmática”. Segundo a Polícia Federal, a Pragmática era utilizada por Paulo Roberto Costa para receber dinheiro oriundo da propina paga pelo pool de empreiteiras envolvidas no esquema comandado por Youssef. Para os investigadores da Lava Jato, os representantes legais da Pragmática eram laranjas de Costa e os negócios entre eles “serviram, na verdade, para justificar a transferência de valores recebidos de construtoras e empresas do setor petroquímico, valores que consistiriam no pagamento de propina para Paulo Roberto Costa na facilitação ou condição para a realização de contratos com a Petrobras”.

Integrante do Consórcio ERT, por meio de uma subsidiária, a Estre Ambiental aparece nos documentos amealhados pela Polícia Federal do Paraná como responsável por depósitos de mais de 3 milhões de reais nas contas da Pragmática. Não bastasse, outro detalhe da licitação milionária da Transpetro estreita ainda mais a relação da empresa contratada pela estatal presidida por Sérgio Machado com o grupo de Youssef e Costa. O Consórcio ERT recebeu 21,9 milhões de reais como adiantamento. Parte desse dinheiro, 2,1 milhões, foi repassada à empresa Dester Santa Cruz Desmatamento em troca de serviços de terraplenagem. Para os procuradores, o serviço não foi prestado nem sequer a sede da empresa foi localizada. Mas as complicações se avolumam, o dono da Dester, José Carlos Ayres, foi preso em 2012 pela Operação Durkheim da Polícia Federal. No relatório final da investigação, a PF classifica Ayres como um doleiro atuante na prática do dólar-cabo por meio de contas sediadas nos principais paraísos fiscais do mundo. Entre seus clientes, aponta a PF, estavam cidadãos de Manaus e do Pará, terra de uma das empresas do ERT, a SS Participações. Integravam seu grupo os também doleiros Marcelo Viana e Valdecir Gerardi, ambos alvejados pelos desdobramentos da Operação Farol da Colina, comandada pelo juiz Sérgio Moro, atual titular da Lava Jato. À época, Viana e Gerardi foram denunciados por envolvimento com o doleiro Antônio Oliveira Clarmunt, o Toninho Barcelona, que praticava operações de câmbio ilegais com Alberto Youssef.

O Consórcio ERT informou que “vai se pronunciar somente na Justiça e reafirma seu posicionamento de que não houve irregularidades no processo licitatório”. O grupo Estre Ambiental afirma que contratou a consultoria Pragmática para fazer o “redesenho de processos, integração de sistemas de gestão e automatização de balanças com objetivo de aprimorar o controle de recebimento de resíduos sólidos em seus aterros sanitários”.

Segundo a Transpetro, a licitação para a aquisição de 20 comboios hidroviários transcorreu com total lisura e atendimento aos ditames legais. Por sua vez, Sérgio Machado, enquanto afirma ter certeza do pleno rigor e correção de sua gestão na Transpetro, observa a senadora petista Gleisi Hoffmann entrar na mira dos investigadores da Lava Jato. Assim como o ex-presidente da Transpetro, a esposa do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, nega qualquer relação com o doleiro, mas terá de explicar por qual motivo Youssef e Costa afirmam ter destinado 1 milhão de reais para sua campanha ao Senado.

*Reportagem publicada originalmente na edição 825 de CartaCapital, com o título "A primeira vítima"