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Número 824,

Política

O Brasil não está dividido

por Jaques Wagner* — publicado 04/11/2014 05h25, última modificação 04/11/2014 10h20
Ao vencedor é negada a soberba. Ao perdedor, o rancor. Por Jaques Wagner
Roberto Stuckert Filho/ PR

A democracia brasileira saiu fortalecida das urnas. Pela primeira vez desde a retomada das eleições diretas em 1989 tivemos um segundo turno superdisputado. É um alerta para quem ganha e uma esperança para quem perde. Ao vitorioso é negada a soberba e são obrigatórias a humildade e a generosidade. A quem perde, é negado o rancor e demandada a disposição do debate construtivo.

O Brasil não se dividiu. O País empolgou-se com dois projetos políticos apresentados. As nossas diferenças existem e devem ser assumidas para que possam ser superadas, mas na pluralidade a nossa unidade deve ser sempre protegida.

A democracia é nosso bem maior. E a democracia é o território do diálogo, do contraditório e do embate de ideias. Ela não resiste à intolerância e a qualquer tipo de fundamentalismo. E nosso país é uma democracia complexa, com múltiplas tonalidades. Tentar reduzi-la é empobrecer e simplificar o debate.

Os próximos quatro anos não podem ser vistos sem considerarmos o presente e seu passado recente. Há novos e grandes desafios pela frente. Na economia, enfrentamos a necessidade de retomar o crescimento e, ao mesmo tempo, manter sob rigoroso controle a inflação, sem perder de vista a ampliação da oferta de emprego e renda.

Agora é a hora de ampliar o diálogo com a sociedade, cada dia mais exigente e a clamar pelo combate à corrupção e por mudanças pelas quais não se pode mais esperar. É o momento de redefinir as relações com os movimentos sociais e empresariais.

Nesses últimos 12 anos as mudanças sociais foram muitas e consistentes: aumento da base da distribuição de renda e programas de ampliação de direitos fundamentais para milhões. Como dizia o presidente Lula, “nunca dantes nesse país” tivemos tanta criação de cursos técnicos, universidades, moradia popular, crédito para agricultura familiar, redução da mortalidade infantil, transferência de renda para os que mais necessitam.

A nova fase desses programas precisa avançar na sua qualidade, com aceleração da redução das desigualdades de renda, criação de novas condições para maior inclusão produtiva dos que saíram da linha de pobreza absoluta e a consolidação dos mecanismos de participação social na formulação e controle das políticas públicas.

A educação e, em particular, a educação profissionalizante com os cursos técnicos e universidades novas são desafios na combinação de políticas de inclusão de novos grupos sociais, com a absoluta necessidade de manter a qualidade da formação, o que implica obrigação de tratar a questão de forma sistêmica, com intervenções específicas no ensino profissional e no sistema escolar no seu conjunto.

Temos de avançar mais na implantação das novas infraestruturas: os portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, pontes, projetos de mobilidade urbana, banda larga, além dos centros de distribuição logística, os centros comerciais, o fornecimento de energia e combustíveis e outros setores fundamentais para a vida produtiva das cidades e do campo.

Nas relações com o empresariado, novas pontes precisam ser construídas para recuperar o nível de investimento privado, tanto na indústria como na agricultura, avançar no aumento da produtividade industrial, mobilizar os recursos da intermediação comercial e logística e consolidar o crescimento dos serviços.

Temos de buscar soluções de longo prazo para os desafios da previdência dos servidores públicos e para as dificuldades das finanças dos organismos infranacionais, como os estados e municípios. Ambos os problemas não comportam apenas ações de curto prazo, exigindo soluções que demandarão recursos por muitos anos.

Esses casos expressam a importância das habilidades políticas. Tanto os aposentados quanto a questão federativa exigem pactos com a sociedade, os governos estaduais e municipais e o Congresso para encontrar os melhores caminhos. Esses pactos requerem, por seu turno, um novo ambiente que resultará da reforma política.

Agora há a necessidade do máximo de habilidade e capacidade de negociação no âmbito do Congresso, para definir os termos e abrangência das reformas sobre o processo político do País. Financiamento público de campanha, fim da reeleição e coincidência das eleições, entre outros temas não menos importantes.

Com as mudanças, serão redesenhados os mapas de composição do poder nacional, possibilitando articulações que permitam avançar na reforma tributária, redefinindo o pacto federativo na redistribuição das receitas dos vários níveis de governo.

A corrupção, outro ponto crucial, deve ser combatida, tanto no âmbito da sua repressão e punibilidade dos efetivamente envolvidos, como na sua prevenção, aumentando os mecanismos de transparência e controle, modificando as suas causas geradoras, especialmente o financiamento das atividades políticas.

Mesmo com os novos desafios que se avizinham, estou plenamente seguro que alcançaremos largas conquistas para o Brasil. Sou, na essência, um otimista. Mais do que isso, confio na capacidade da presidenta Dilma Rousseff, uma guerreira de coração valente que já fez muito por este país e fará ainda mais.

*Governador da Bahia