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Número 824,

Política

Congresso

Governo enfrenta o PMDB rebelde e espera o novo PSDB no Senado

por Rodrigo Martins publicado 09/11/2014 10h12
Embora a bancada aliada esteja mais enxuta, a expectativa é de que o governo consiga atrair de volta legendas que abandonaram a base pouco antes das eleições, entre elas o PTB
Arte: CartaCapital
Esquadrão

Serra, Jereissati (último à esquerda) e Anastasia (último à direita) se unem a Ferreira e Aécio Neves no Senado

Não houve trégua. Dois dias após a reeleição de Dilma Rousseff, o governo deparou-se com rugidos ameaçadores no Congresso. Na Câmara, o PMDB capitaneou no último dia 28/10 uma nova rebelião da base aliada e, em parceria com a oposição, derrubou o decreto presidencial que regulamenta a atuação dos conselhos populares. No mesmo dia, o senador tucano Aloysio Nunes Ferreira, vice de Aécio Neves na corrida presidencial, rejeitou o diálogo proposto pela presidenta depois da vitória nas urnas. “Fui pessoalmente agredido por canalhas escondidos nas redes sociais a serviço do PT, de uma candidatura. Não faço acordo. Não quero ser sócio de um governo falido nem cúmplice de um governo corrupto”, vociferou na tribuna do Senado, antecipando o tom da oposição na sua relação com o Planalto.

O ambiente hostil contrasta com o resultado das eleições. O governo continua a ter folgada maioria nas duas casas legislativas. Apenas os partidos reunidos na coligação governista elegeram 304 dos 513 deputados federais. Embora a bancada aliada esteja mais enxuta, a expectativa é que o governo consiga atrair de volta legendas que abandonaram a base pouco antes das eleições, entre elas o PTB. No Senado, os governistas devem ocupar 53 das 81 cadeiras, dois terços do total. “A oposição volta, porém, robustecida com quadros de peso no Senado. É uma turma que não brinca em serviço e deve aumentar o clima de hostilidade ao governo”, avalia Antônio Augusto de Queiroz, diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar.

No front tucano, os senadores Nunes Ferreira, Álvaro Dias e Aécio Neves, agora com um capital de 51 milhões de votos conquistados na corrida presidencial, passarão a ter a companhia dos experientes ex-governadores Antonio Anastasia, de Minas Gerais, Tasso Jereissati, do Ceará, e José Serra, de São Paulo. A bancada oposicionista deve ganhar a adesão do PSB, legenda que apoiou o PSDB no segundo turno e terá sete senadores a partir de 2015, e de recém-chegados, a começar pelo ruralista Ronaldo Caiado, do DEM de Goiás, e Davi Alcolumbre, do Amapá.

“Teremos uma oposição mais articulada. Ela deve dar mais trabalho ao governo, mas também pode fomentar um debate mais profícuo”, minimiza Humberto Costa, líder do PT no Senado. “Após uma disputa tão acirrada e radicalizada, é natural que o senador Nunes Ferreira esteja um pouco exaltado. Mas também fomos vítimas de ataques e manifestações de ódio, e nem por isso culpamos o PSDB ou o Aécio. Tenho certeza de que, após a poeira baixar, vamos restabelecer um diálogo mais saudável.”

Na Câmara, a maior preocupação é com os rebelados da base aliada. Um dos artífices das manobras para constranger o Planalto é o atual presidente da Câmara, Henrique Alves, ressentido com o PT após a derrota sofrida no Rio Grande do Norte. Ao lançar-se na disputa estadual, o peemedebista conseguiu unir as duas principais oligarquias do estado, as famílias Alves e Maia, em torno de sua candidatura. Imaginava uma vitória tranquila. Perdeu, porém, o apoio do PT ao recusar lançar Fátima Bezerra como candidata ao Senado. Os petistas abraçaram a candidatura de Robinson Faria, do PSD. E as relações azedaram de vez após Lula gravar um depoimento em favor de Faria na reta final da campanha, contribuindo para a derrocada de Alves.

No comando da Câmara até o fim do ano, Alves controla a pauta da Casa e ameaça colocar em votação temas espinhosos, com impactos diretos nas contas da União, a exemplo do aumento de repasses federais para o Fundo de Participação dos Municípios. Para o PT, o ideal é postergar todas as votações relevantes, até porque cerca de 240 deputados serão substituídos em 2015.

A birra de Alves favorece o colega Eduardo Cunha, do PMDB fluminense. Após liderar um movimento que impôs duras derrotas ao Planalto nos últimos anos, ele trabalha para viabilizar sua candidatura à presidência da Câmara em 2015. Na quarta-feira 29, conseguiu a recondução ao cargo de líder do partido na Casa. E usou a derrota do governo na questão dos conselhos populares para defender sua própria candidatura: “A votação mostra que a Câmara tem maioria contra o PT e não aceita o PT no comando”.

Desde 2006, um acordo garante o revezamento das duas maiores bancadas, PT e PMDB, na presidência da Câmara. Após a gestão de Alves, os petistas reivindicam a sua vez de assumir o posto. Os nomes mais cotados são de Arlindo Chinaglia e Marco Maia, que já comandaram o Parlamento e têm boa interlocução com os partidos da base. Mas a batalha será difícil. Ainda que a cúpula nacional do PMDB e os novos governadores eleitos pela legenda tenham interesse em preservar boas relações com o Planalto, Cunha costura suas alianças de baixo para cima e por vezes surpreende os líderes partidários.

A acomodação da base em cargos no governo geralmente tem pouco impacto na vida dos parlamentares do chamado “baixo clero”. Eles costumam reivindicar pequenas deferências de Dilma e seus ministros. Querem ser recebidos em audiências, consultados na elaboração de políticas públicas e convidados a participar de viagens oficiais, sobretudo na inauguração de obras.

“Tivemos muita dificuldade na interlocução com o Congresso, mas a presidenta sinalizou estar aberta ao diálogo”, diz Vicentinho, líder do PT na Câmara. “Agora precisamos dialogar com todos os parlamentares, e não apenas com as lideranças dos partidos”, emenda o deputado petista Reginaldo Lopes, recordista de votos em Minas Gerais.

Na avaliação de Queiroz, do Diap, Dilma precisa adotar um perfil menos gerencial e mais político. “Caso contrário, corre o risco de gerenciar uma crise atrás da outra no Congresso.”