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Número 824,

Cultura

Refô

E agora?

por Marcio Alemão publicado 08/11/2014 02h33
A gastronomia ignora a urna. Mas muda no nosso apetite
Elza Fiúza/ABr
Urna

O assunto política não frequentou nenhuma mesa da boa gastronomia

Na gastronomia, com a reeleição de Dilma, o que podemos esperar? Antes de tentar especular, achei curioso notar que o assunto da política não frequentou nenhuma mesa da boa gastronomia. Acredito que conversas acaloradas ao redor de muitas mesas, sim, aconteceram. A mídia especializada, contudo, parece ter ignorado o assunto.

Chefs manifestando-se pró ou contra candidatos eu não vi e nem li. Talvez uma clássica confusão: quem faz alta gastronomia é fornecedor de rango pra elite. Acho que não, mas pode-se pensar dessa maneira e de muitas outras igualmente bizarras, como vimos nesses últimos meses.

Lembro que há muitos anos, antes mesmo do primeiro mandato de Lula, fui visitar um apartamento que estava à venda, um pequeno, dois quartos. Depois de me apresentar e dizer que escrevia sobre comidas, o proprietário, um senhor, abriu a porta do armário sob a pia e me mostrou um vinagre balsâmico Castelo. Estava fascinado com a gostosura do tal, vis-à-vis com o vinagre Castelo.

Assim caminha a humanidade: um passo de cada vez.
Acesso ao balsâmico, ainda que não seja o de Modena envelhecido 18 anos, já indica melhora do País e apuro no paladar. “O destino das nações depende da maneira como se alimentam.” Foi Brillat-Savarin quem disse isso, há 200 anos.

Acredito que estamos comendo melhor, ainda que estejamos naquele primeiro momento muito semelhante ao primeiro dia no bufê do resort baiano. São 300 ofertas de pratos com peixes, frutos do mar, temperos da terra, pimentas-de-cheiro, cores e ardências, 145 sobremesas e uma semana para se lamentar.

Este é o momento de mergulhar de cabeça, de tirar o atraso da boa comida. O apuro virá com o tempo.

Com ele a exigência torna-se maior. E aí começa um sonho meu: ver todo mundo cobrando da indústria produtos melhores. Selecionando restaurantes, exigindo dos supermercadistas melhores produtos. E por aí você imagina a cadeia que se forma.

Nunca vai rolar? Mesmo em nações ricas não se atenta tanto à comida? Sei não. Acredito que o brasileiro leva jeito para gourmet. É preciso ter calma.

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