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Número 824,

Cultura

Futebol

Bem-vindo a 2015

por Afonsinho publicado 02/11/2014 09h41
De eleições nos times à Lei de Responsabilidade Fiscal, o ano promete desfechos importantes
Ricardo Stuckert/ CBF
Marin

A CBF, ao antecipar as suas eleições, foi a primeira a desacreditar a vitória do Brasil na Copa. Na foto, o seu presidente, José Maria Marin

Antes do que se esperava, 2015 chegou. Aguardava-se um período de recuperação depois de um pleito tão disputado, mas segunda-feira os times já estavam em campo para recuperar o atraso. As reformas política e eleitoral são inadiáveis. Enquanto isso, no futebol, os cartolas entraram para dizer que não há mais discussão, está fechado o acordo de lideranças em torno do projeto da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) na forma como existe até agora. Penso que, apesar do risco, vale a pena ter deixado a votação para depois das eleições. Causou muita apreensão pela chance de uma mudança de rumos com o resultado das urnas.

Agora vamos ver o desfecho; não ficou a oportunidade de nada de afogadilho, para dizer o mínimo, do golpe desferido pelos chefes da CBF quando anteciparam as eleições na entidade. Foram os primeiros a desacreditar a vitória brasileira na Copa de 2014. Devem ser contestados agora, obrigatoriamente. Pelas manifestações das partes interessadas, o dito acordo satisfaz os envolvidos; o clima é outro, diferente de um período eleitoral que se comprovou tão acirrado. Agora, pode-se resolver com mais equilíbrio.

A recusa de se fazer representar na reunião marcada para o meio desta semana pelo Ministério do Esporte, mais que um prenúncio, sinaliza uma má disposição dos dirigentes. Precisamos muito mais que a LRF, embora a vejamos com boas possibilidades de melhoria. Necessitamos da definição de um sistema brasileiro de esportes: vamos em frente.

Há eleições também, agora, em vários clubes: Vasco, Palmeiras e tantos outros. Santos e Internacional fazem as suas em novembro, o que talvez ajude a explicar a oscilação do Colorado no brasileiro. Flamengo discute mudanças em seus estatutos, não sei em que pontos; é, de todo modo, um alento. O futebol começa a se mover a exemplo da sociedade como um todo. Mesmo em estado de paupérie, “o show tem de continuar”.

Assim, a temporada brasileira entra na reta final. Uma correria danada que cansa o telespectador antes do fim das partidas, desgaste exagerado compatível com o desperdício de recursos concentrados na chamada Série A. Curioso que boa parte dos times tenha o patrocínio da Caixa. E poucas são as empresas privadas que arriscam emprestar suas marcas aos clubes em crise. É, de todo modo, um caso a se pensar.

Mais um remendo da CBF em suas tentativas de ganhar tempo para se aguentar no lombo do touro: anuncia a instalação de centros de formação de jogadores espalhados pelo Brasil, em imitação grotesca dos alemães. A propósito do assunto, é oportuna a declaração de outro dia do Podolski, o craque de origem polonesa considerado o mais brasileiro dos jogadores alemães da Copa 2014. “Não tenho nada contra os internatos de futebol para garotos, mas aprendi a jogar futebol nas áreas livres da Alemanha.”

Pela Copa do Brasil, foi bonita a promoção no jogo entre Flamengo e Atlético, com merecida homenagem ao Nunes e ao Reinaldo, ídolos de duas das mais populares torcidas do Brasil. São jogadores de características opostas, cada um com suas qualidades.

Nunes pela força e pelo extraordinário faro de gol; Reinaldo genial em sua excepcional velocidade de raciocínio e percepção do jogo em 360 graus: em fração de segundos podia estar de costas ou de frente para o gol. Apesar do pouco tempo de carreira, por causa das graves lesões que suportou, tem recordes incríveis. Junto com Leivinha e Edu Coimbra, eles formam um grupo de companheiros dos mais alegres do futebol, mostrando que a alegria é “a prova dos noves”.

Essa possibilidade de girar em torno de si mesmo, parecendo ter rolimãs nos joelhos, é o que se destaca mais no Messi e no Iniesta, dois nomes que mais uma vez constam da lista dos melhores em 2014. Bom poder falar de bons jogadores e bons jogos, cada vez mais raros, mesmo no futebol europeu. Em tempo de escolha do melhor craque do ano, nenhum jogador tem domínio absoluto. Capaz que dê novamente o “patrício” Cristiano Ronaldo.

No Flamengo, um caso raro e interessante nos tempos atuais: Gabriel, o talentoso garoto baiano que contraria os cientistas da bola e supera com sua qualidade a necessidade de lastro físico para encarar o esporte moderno. Cada vez mais difícil, verdade, mas nada substitui o talento. Muita gente discute, por incrível que pareça, a capacidade do Ganso, com o argumento de ele ser lento. De volta, a ideia impossível de o jogador correr mais que a bola.

Tevez de volta à seleção argentina: o futebol agradece. Parabéns a quem articulou esse reenlace e obrigado a quem não conseguiu fazê-lo na Copa. A história poderia ter sido diferente e o vexame tornar-se ainda maior.