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Número 823,

Cultura

Literatura

Will Eisner, Robert Crumb e os grandes da literatura

por Francisco Quinteiro Pires — publicado 28/10/2014 05h51
Aclamados quadrinistas fazem a adaptações de clássicos da literatura em três volumes que começam agora a chegar ao Brasil
Reprodução
Ligações Perigosas

Uma língua própria: Molly Crabapple relê De Laclos em "As Ligações Perigosas"

Depois de consideradas material para crianças e analfabetos durante boa parte do século 20, as histórias em quadrinhos principiaram há cerca de duas décadas uma fase consagradora, definida pelo editor Russ Kick como “uma idade de ouro”. “As narrativas sequenciais desenvolveram-se como uma forma de arte completa graças à experimentação constante e à criatividade ilimitada”, diz Kick a CartaCapital. Por unirem “uma autoexpressão livre” e “uma habilidade técnica impressionante”, os quadrinistas produziram obras que desde os anos 2000 se tornaram fonte para filmes multimilionários de Hollywood, além de alvo de exposições em museus prestigiosos como o Museum of Contemporary Art, em Los Angeles, e o Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York. A cultura dominante tem incorporado aos poucos o que era antes marginal. “Embora tenham conquistado mais respeito, as HQs e os romances gráficos terão de percorrer um longo caminho para ser verdadeiramente adotados pelos leitores e pelas universidades”, afirma.

Quando decidiu organizar os três volumes da antologia Cânone Gráfico, Clássicos da Literatura Universal em Quadrinhos (Boitempo, 118 reais, o primeiro volume com 456 páginas), um best seller nos Estados Unidos após seu lançamento em 2012, Kick pensou na diversidade de estilos e na abordagem inovadora dos artistas nos últimos anos. Mais de cem quadrinistas, ilustradores, serigrafistas e designers gráficos adaptaram 190 textos literários, filosóficos, religiosos e científicos. A maioria das adaptações é inédita. “Pedi para serem fiéis aos personagens e aos enredos dos textos. Mas do ponto de vista visual eles poderiam fazer tudo o que desejassem. Não deveriam se autocensurar mesmo com os livros que contivessem cenas de violência e sexo.”

O editor refere-se a assuntos transformados em tabu nas histórias em quadrinhos. A Comics Code Authority (CCA), uma associação criada em 1954, fustigou por décadas HQs com temas considerados impróprios. Fundada para ser uma alternativa independente à fiscalização governamental, desativada apenas em 2011, a CCA propunha ser um representante das editoras e um órgão autorregulador da arte sequencial. A sua existência impeliu uma geração de quadrinistas nos anos 1960 a produzir material clandestinamente e distribuí-lo por canais poucos convencionais, como lojas de tabaco. Essa cena underground, desenvolvida, sobretudo em São Francisco, ganhou o apelido de comix (sendo o xis uma alusão à letra usada pelo sistema de classificação do cinema norte-americano para atestar se um filme é apropriado somente para os maiores de idade).

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As visões de Santa Teresa D'Ávila, por Edie Fake

Cânone Gráfico, Kick disse ter evitado a falta de criatividade de projetos anteriores, entre eles as 169 edições da série Classic Comics, publicadas entre 1941 e 1971. Ele considera essas adaptações pasteurizadas e superficiais, excessivamente concentradas na reprodução literal das obras de ficção. Embora responsabilize o sistema educacional americano pelo desinteresse em relação à literatura, Kick não organizou a sua coleção como um atalho aos clássicos ou por motivos didáticos. Cânone Gráfico seria uma colaboração entre artistas e escritores. “No fundo”, ele escreve na introdução, “esta antologia titânica, em três volumes, é uma obra artística e literária independente, um fim em si mesmo”. A julgar por pesquisas recentes, Kick teria razão. Em The Visual Language of Comics (Bloomsbury), o psicólogo Neil Cohn defende a teoria de que as histórias em quadrinhos são processadas neurologicamente como uma língua, com vocabulário, gramática e sintaxe próprios. Nesse sentido, mais do que uma adaptação, Cânone Gráfico pode ser entendido como uma compilação de clássicos reescritos para o idioma das imagens.

O primeiro volume (tradução de Magda Lopes), disponível nas livrarias brasileiras, vai de A Epopeia de GilgameshAs Ligações Perigosas, o romance de Choderlos de Laclos. O segundo tomo, cuja publicação é prevista para 2015, aborda a literatura oitocentista, de Kubla Khan (Samuel Taylor Coleridge) a O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde). O terceiro, com lançamento em 2016, restringe-se ao século XX: de Coração das Trevas (Joseph Conrad) a Infinite Jest (David Foster Wallace). Kick convidou artistas consagrados e emergentes. No primeiro volume, Will Eisner adaptou Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, Robert Crumb dedicou-se a Diário Londrino, de James Boswell, e Peter Kuper explorou Modesta Proposta, de Jonathan Swift. Entre os autores em ascensão, Yejin Yun fez três ilustrações coloridas sobre o Simpósio, de Platão, e Edie Fake transformou em desenhos os escritos espirituais de Santa Teresa D’Ávila.

Kevin Dixon ilustrou o episódio Touro Celeste, de A Epopeia de Gilgamesh, por motivos familiares. O seu pai, Kent Dixon, traduziu o poema épico escrito em tábuas de argila, na Babilônia (em torno de 1000a.C.), pois estava insatisfeito com as versões anteriores para o inglês. “As primeiras traduções eram muito recatadas. Elas suprimiram da língua inglesa qualquer cena minimamente ousada ou sexual”, explica Dixon a CartaCapital. “Um tradutor da era vitoriana, escandalizado com os temas mais maduros da história, não iria destacar os duplos sentidos, os trocadilhos obscenos e as piadas vulgares entranhados no barro.” Segundo o quadrinista, A Epopeia de Gilgamesh tem várias passagens criadas para desencadear uma catarse pelo humor. “Mas, por muito tempo, a comicidade foi alijada por ser considerada de mau gosto”, ele afirma. “A minha adaptação é respeitosa e academicamente rigorosa quando trata de nudez e de escatologia. Se as ignorasse, eu seria infiel à história original.”

Kick dedicou o Cânone Gráfico a poetas, dramaturgos e romancistas. “Muitos sacrificaram liberdade pessoal, bem-estar econômico, sanidade, relacionamentos, fígado e vida para iluminar a condição humana”, escreve o editor. Em resenha sobre a antologia, a artista Annie Weatherwax apontou para o fato de a maioria das obras selecionadas por Kick aparecem em O Cânone Ocidental, de Harold Bloom. Publicado duas décadas atrás, o livro elegeu 26 ficcionistas como representantes do apogeu estético do Ocidente e atacou interpretações literárias influenciadas pelo feminismo, pelo marxismo e pelo multiculturalismo. Os críticos de Bloom o acusaram de promover uma cultura imperialista e sexista dominada pelos brancos.

Em um texto sobre os 20 anos de O Cânone Ocidental, o ensaísta Daniel Mendelsohn questionou o significado de um sistema de classificação estética defendido como evidente. “Para que servem os cânones?”, perguntou. “Eles consagram de modo inocente a excelência artística pura ou o seu propósito sempre é de certa maneira político?” Ao contrário de Bloom, Kick adicionou textos dos continentes asiático e africano. Selecionou escritos de mulheres (Mary Wollstonecraft, Emily Dickinson, Virginia Woolf), beatniks, autores afro-americanos da Harlem Renaissance (Zora Neale Hurston, Langston Hughes), ficcionistas sul-americanos (Gabriela Mistral, Gabriel García Márquez) e contemporâneos (Umberto Eco, Haruki Murakami, Thomas Pynchon). Apesar de o livro de Bloom tratar de Fernando Pessoa, os três volumes organizados por Kick não apresentam nenhuma obra escrita em português.

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