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Número 823,

Cultura

Cinema

'Boyhood', o filme de 11 anos

por Orlando Margarido — publicado 10/11/2014 05h29
Vencedor do Festival de Berlim, diretor Richard Linklater filmou o crescimento de um ator dos 5 aos 18 anos para ilustrar a trajetória da infância à juventude
Divulgação

O americano Richard Linklater é um diretor de expedientes incomuns. Se usa a animação, o faz numa técnica diretamente sobre os atores, como em Waking Life (2001). Se investiga como seria o relacionamento amoroso, e trivial, entre um homem e uma mulher por décadas, leva a questão a sério e dilata o tempo na mesma medida.

Sua trilogia das fases de vida do casal começa em 1995 com Antes do Amanhecer e termina com Antes da Meia-Noite, realizado no ano passado, sempre com a mesma dupla de atores. Como se deveria supor, então, o também difícil crescimento e maturidade de um rapaz? A resposta vem prodigiosa em Boyhood, projeto que garantiu a Linklater o Urso de Prata no Festival de Berlim deste ano, como Melhor Diretor.

Para compor a trajetória do protagonista Mason da infância à juventude, Linklater fez o impensável numa indústria movida a prazos e orçamentos. Filmou Ellar Coltrane dos 5 aos 18 anos a fim de acompanhar descobertas e percalços relativos às idades. "Foram 39 dias de filmagem em uma produção de 4.200 dias, de julho de 2002 a outubro de 2013", contou.

O feito não se esgota no recurso técnico. Amplia-se a um contexto dramático e mesmo social na medida em que esboça uma cultura texana de onde provém o realizador. Assim, do trauma dos pais separados (Patricia Arquette e Ethan Hawke), vemos Mason evoluir na busca de um rumo, nas dúvidas e aflições significativas para ele, mas naturais a todos. Pelo viés inesperado do formato, Linklater tornou o quadro mais sincero e cativante.