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Número 822,

Economia

Análise / Thomaz Wood Jr.

Sobre mentiras e estatísticas

por Thomaz Wood Jr. publicado 23/10/2014 04h36
A influência do consumo de margarina na taxa de divórcios do estado do Maine e outras correlações espúrias

Benjamin Disraeli, o Conde de Beaconsfield, serviu dois termos como primeiro-ministro da Grã-Bretanha, no século XIX. Entre outras pérolas, a ele é atribuída a frase: “Há três tipos de mentiras: mentiras, mentiras terríveis e estatísticas”. Consta que o chistoso dito teria sido popularizado nos Estados Unidos pelo escritor Mark Twain. Alguns o atribuem ao próprio Twain. A popularidade da frase atravessou séculos, a alimentar nossa desconfiança dos números ou, mais precisamente, do seu uso impróprio para respaldar argumentos vazios ou duvidosos.

Tyler Vigen é um agitado estudante de Direito em Harvard. Não se sabe se é fã de Disraeli ou de Twain, mas parece ter se apoiado sobre os ombros dos dois gigantes. Vigen criou um website, Spurious Correlations, com o propósito de se divertir com estatísticas falaciosas e correlações ilegítimas. O próprio criador adverte não se tratar de fomento à descrença na ciência, mas de separar relações causais de coincidências e simples manipulações.

Vigen usa um dos métodos mais disseminados da estatística, o teste de correlação. Na análise de dados americanos, ele descobriu uma correspondência quase perfeita entre os gastos com ciência, espaço e tecnologia e o número de suicídios por enforcamento, estrangulamento e sufocação. A Nasa deve estar preocupada! Outro elo fortíssimo foi descoberto entre o consumo de margarina e a taxa de divórcios no estado do Maine. A substituição por manteiga ajudaria os casais? Ainda no campo da alimentação, foi constatada uma ligação entre o consumo per capita de muçarela e o número de doutorados em engenharia civil. Será responsabilidade das pizzas? Já o número de filmes nos quais Nicolas Cage atua apresenta associação razoável com o número de pessoas que morrem afogadas ao cair na piscina. Culpa do ator ou da qualidade dos filmes?

Qual é o truque? É simples, a ocorrência de uma correlação, mesmo forte, sugere, mas não significa uma relação de causa e efeito entre as variáveis. De fato, pode não existir relação alguma. Esse simples preceito, exposto de forma bem-humorada por Vigen, não parece sensibilizar debatedores e argumentadores balizados unicamente em sua própria opinião e na vontade de convencer incautos suscetíveis a fantasias numéricas. Entretanto, as implicações de estripulias estatísticas podem ser sérias. Correlações espúrias frequentemente mudam percepções sobre questões relevantes, influenciam decisões e podem levar a alterar políticas públicas, afetando diretamente a vida dos cidadãos.

A ciência estatística teve origem no século XVII, com as contribuições notáveis dos franceses Blaise Pascal e Pierre de Fermat. Transformou-se em profissão e em um campo científico marcado pelo rigor dos métodos e das análises. No século XX, a estatística avançou nas linhas de montagem e nas agências de propaganda, ganhou adoradores entre engenheiros e economistas. Tornou-se onipresente na academia, na vida cotidiana e na mídia. Parte considerável do progresso científico está sustentada pela estatística, por técnicas que permitem analisar e testar correlações. Sintomaticamente, muitos artigos científicos das ciências humanas, exatas e biomédicas parecem textos matemáticos, inundados por hipóteses, fórmulas e tabelas.

Juntamente com virtudes vieram alguns vícios. Estudantes de doutorado logo aprendem a “torturar os números”, para “confessarem” os resultados esperados. Técnicas de “engenharia reversa” são frequentemente utilizadas. Primeiro, se estabelecem os resultados e, depois, os meios para chegar a eles. Manipulações grosseiras são denunciadas, mas outras, mais sutis, podem passar despercebidas.

Alguns resultados transcendem a academia e são filtrados, reembalados e, vez por outra, distorcidos pelas mídias de massa. Uma causa provável, aplicada a uma amostra restrita, pode, pela força de uma manchete, tornar-se verdade absoluta e influenciar opiniões e comportamentos. O uso espúrio da estatística provavelmente faria Disraeli e Twain contraírem cinicamente a sobrancelha esquerda, ou a direita, ou ambas. Mas essa correlação é de difícil comprovação.

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