Você está aqui: Página Inicial / Revista / Dilma com a palavra / Qualidade mensurável
Número 822,

Saúde

Saúde

Qualidade mensurável

por Riad Younes publicado 27/10/2014 05h45
Os indicadores envolvidos nos processos de certificação devem permitir ao paciente escolher melhor seu hospital

As duas palavras mais ouvidas nos hospitais são excelência e qualidade. Já falamos sobre a banalização da palavra excelência, onipresente na propaganda hospitalar. Agora, as instituições têm se preocupado com o controle de qualidade de seus serviços e corpo médico. Proliferaram programas de qualidade e se tornou rotineiro os hospitais exibirem diplomas e certificados nas suas recepções. Os pacientes, e os médicos, levam esses certificados como parte da decisão e da escolha de um hospital. Intuitivo pensar que tais hospitais deveriam ter melhores resultados. O maior orgulho no Brasil é a inclusão de um hospital na lista dos certificados da Joint Comission International (JCI).

Os maiores hospitais já foram certificados pela JCI. Ontem foi publicado na Jama, prestigiosa revista médica, extenso estudo que avaliou o impacto dos indicadores de avaliação de qualidade hospitalar sobre a evolução dos doentes. Nesse artigo, a doutora E. A. Howell analisa o impacto de indicadores de qualidade de 41 maternidades de hospitais de Nova York em 2010. A análise compara cesarianas em mulheres com 37 a 39 semanas de gestação. São utilizados dois indicadores recomendados pela JCI. A conclusão é de que não houve diferença de morbidade materna e do recém-nascido na comparação de hospitais com os melhores indicadores de qualidade e os outros. Ou seja: tais indicadores não são eficientes. Os resultados foram recebidos com cautela pela comunidade médica. Para colocar os dados em perspectiva, conversamos com o doutor Mauro Medeiros Borges, ginecologista e superintendente-médico do Hospital Oswaldo Cruz em São Paulo, conhecido estudioso e pesquisador de qualidade médica.

CartaCapital: Como o senhor analisa os resultados do estudo?

Mauro Medeiros Borges: Muito interessantes o artigo e o editorial publicados na Jama. Nos fazem pensar em que tipo de indicadores de qualidade devemos utilizar.

CC: Estamos acostumados a programas de certificação de qualidade comuns, como o JCI. E após este estudo?

MMG: Penso que estamos em um período de mudança. Devemos rever conceitos da maneira de avaliar o trabalho dos hospitais. Os indicadores tradicionais, algumas vezes de difícil entendimento, vão sendo substituídos por indicadores de qualidade/desfecho que levam em conta a percepção do paciente.

CC: Fora do Brasil, o que se utiliza para avaliar a qualidade do atendimento?

MMB: O Instituo Nacional de Saúde da Inglaterra (NHS), o Cleveland Clinics, hospitais vinculados à Harvard, entre outros, usam cada vez mais a metodologia Proms (medidas de desfecho relatadas pelos pacientes) que é a avaliação do ponto de vista e da maneira de ver do próprio paciente.

CC: É uma mudança recente?

MMB: Sim. Estamos mudando o foco, o paciente é o centro da atenção, devemos avaliar o aspecto clínico, psicológico e social.

CC: O que o artigo da doutora Howell demonstra, em relação ao parto?

MMB: O importante à gestante é voltar  para casa com seu filho, tendo um parto tranquilo, com a participação da família e sem sofrimento, o que não pode ser demonstrado pelos indicadores avaliados pela JCI.

CC: Como deveria ser avaliada e medida a qualidade do atendimento em 2014?

MMB: Com toda a mudança de tecnologia hoje, o paciente quer e deve saber qual o resultado, por meio dos indicadores de qualidade, que cada hospital tem. Se esses resultados são compatíveis com sua expectativa e comparar com os outros hospitais.

CC: Atualmente, no Brasil, raros são os hospitais que podem apresentar claros resultados sobre seus tratamentos.

MMB: Sem dúvida. Mas, quem não tiver essa resposta corre o risco de perder pacientes. É complexo trabalhar com indicadores de qualidade em saúde, mas o caminho é incluir o paciente. Em nossa instituição, já iniciamos essa mudança.

registrado em: