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Número 822,

Política

Análise / Vladimir Safatle

Indignação seletiva

por Vladimir Safatle publicado 19/10/2014 11h56, última modificação 19/10/2014 12h17
O PSDB nunca fez a autocrítica de suas experiências de poder. Acusa os adversários de corrupção enquanto minimiza seus malfeitos. Por Vladimir Safatle
Marcos Fernandes/ Coligação Muda Brasil
Alckmin e Aécio

É verdade. Há uma diferença fundamental entre a corrupção tucana e a corrupção petista: graças às relações obscuras e pouco republicanas, certos setores da mídia esquecem delas mais rapidamente

Botão Eleições 2014Quem não está disposto a fazer a crítica radical da experiência tucana de governo não tem direito algum de criticar o lulismo e seus resultados. Nada mais farsesco na política brasileira do que encenar indignação contra casos graves de corrupção na Petrobras e adjacências sem nunca ter se indignado radicalmente contra a corrupção no Metrô paulistano, com os nepotismos do senhor Aécio Neves e sua irmã, que controlava a verba de comunicação de Minas Gerais, com os milhares de casos de corrupção no governo FHC ou com os 70 pedidos de CPIs arquivados na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Quem age desta forma, baseado em uma verdadeira indignação seletiva, age como quem acredita haver, na política brasileira, uma espécie de “direito de corrupção” entregue pela vontade divina a certos grupos de políticos nativos.

Ao ser questionado em debate sobre a corrupção de seu partido, o senhor Aécio Neves limitou-se a dizer: “Trata-se de coisas diferentes”. Isso quando não levantou o dedo contra acusações dessa natureza e classificou de “leviana” sua interlocutora. É verdade. Há uma diferença fundamental entre a corrupção tucana e a corrupção petista: graças às relações obscuras e pouco republicanas, certos setores da mídia esquecem delas mais rapidamente. Alguns veículos falam um pouco de tais casos, sem mostrar aquele espírito investigativo que muitos gostariam de ver. Outros nem sequer se veem na obrigação de citar. Como não lembrar da maneira com que revistas como a Veja trataram a informação, quando apareceu, de que o “mensalão” tinha nascido na campanha de Eduardo Azeredo ao governo de Minas Gerais em 1998? Sequer deram uma notícia sobre uma situação que em qualquer lugar do mundo seria bombástica, o presidente do partido de oposição envolvido em um escândalo que tomou de assalto o governo. Há de se acreditar que tais veículos não teriam muito problema em implementar práticas dessa natureza em eventual governo tucano.

Dessa forma, o jogo de poder parece encontrar uma estabilidade ao gosto das polainas da República Velha. Por isso, não estaremos incorrendo em erro ao afirmar que os que se indignam com o petismo e demonstram complacência covarde com a experiência tucana de governo não se incomodam realmente com a corrupção. Pois quem não tolera o assalto ao bem comum vê todos os casos como igualmente insuportáveis, aplica uma postura jacobina na defesa do comum e pede punição exemplar a todos, sem exceção.

Da mesma forma, a indignação com a incompetência governamental não justifica forma alguma de voto no tucanato. Os mesmos que se revoltam contra o governo federal neste ponto votam sem culpa em outra administração, como a do senhor Geraldo Alckmin, que produziu, entre outras pérolas, uma inacreditável situação de falta de água no estado de São Paulo, misto de ausência de capacidade de planejamento, desmonte de empresas públicas e jogo de empurra para não decretar racionamento em época de eleição. A única razão para não se indignar com tamanha incompetência é acreditar ser natural viver no Tucanistão, com suas figuras de autoridade aclamadas em votação sem segundo turno.

Por isso, em caso de retorno do tucanato, o País abriria as portas a um partido que nunca fez autocrítica de suas experiências de poder e cujos eleitores acham normal que ele continue a não fazê-lo. Tal ausência de autocrítica é tamanha que uma legenda que promete “mudanças” não vê problema em apresentar à nação uma equipe de governo constituída basicamente por figuras que administraram o Brasil há mais de uma década. É como dizer ao povo que a perda do governo em 2002 foi apenas um erro de trajetória e que não há nada a rever a partir do alijamento do poder. Fato notável. Imaginem: estamos no Reino Unido e David Cameron, então líder da oposição no Partido Conservador, resolve apresentar-se nas eleições com basicamente os mesmos integrantes do gabinete de antigo primeiro-ministro que perdeu para Tony Blair, a saber, John Major. Impensável. Mas no Brasil parece natural. Tão natural quanto o poder que passa de avô para neto.