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Número 822,

Sociedade

Ciência

Drogas psicodélicas voltam aos laboratórios e aos divãs

por Willian Vieira — publicado 04/11/2014 13h49, última modificação 04/11/2014 21h03
Após meio século de proibição, o uso do LSD, o DMT e outras substâncias ganha estudos para o tratamento de depressão, ansiedade e adições
Oliver Hiber / Getty Images
Drogas

Entre o Prozac e o LSD há um abismo. Aos poucos ele se estreita

Quando o químico Albert Hoffmann fez o primeiro teste com o ácido lisérgico, que descobrira por acidente em seu laboratório na Suíça em 1943, era o auge da Segunda Guerra Mundial. Os carros estavam proibidos. Então lá foi ele de bicicleta para casa, após ingerir 250 microgramas de LSD, sem saber que, no caminho, seria assombrado por alucinações, seguidas por radiante felicidade e uma explosão de sons e cores, da memória e da imaginação. A surpresa com os efeitos psicodélicos só não foi maior que a imediata esperança de a droga servir um dia à psiquiatria. Até hoje os adeptos celebram o Dia da Bicicleta. Mas seu uso terapêutico, aventado nos anos 1960 por promissoras pesquisas, infelizmente acabara tolhido pela guinada proibicionista. Mas só até poucos anos atrás.

Entre o velho Prozac, símbolo da geração que abraçou drogas legais para aplacar as dores da mente, e o LSD da contracultura ainda há um abismo, mas que começa a se estreitar com o florescimento da ciência psicodélica. É a “primavera” da área, diz a Scientific American em artigo que repassa os vários estudos recentes. Em 2012, uma análise de dados colhidos nos anos 1960 indicou que o LSD pode tratar o alcoolismo. Quatro meses atrás, uma pesquisa realizada na Suíça, onde Hoffmann divisou seu potencial médico, mostrou que, associado à psicoterapia, o ácido reduz a ansiedade em pacientes terminais. Resultados semelhantes com MDMA, ayahuasca e psilocibina têm sido chancelados por estudos de ressonância magnética. Depressão, ansiedade, estresse pós-traumático e adições, antes intratáveis, divisam chances de cura. “É, definitivamente, uma renascença”, diz Rick Doblin, fundador da MAPS, associação criada em 1986 para apoiar tais estudos. “Há hoje mais pesquisa com psicodélicos do que nos últimos 45 anos.”

Claro, ainda há entraves. O governo americano, norte das políticas do tipo no mundo, resiste em retirar tais drogas do chamado “Schedule I”, de “alto potencial de abuso e nenhuma aplicação médica aceita”. Para ter acesso a elas, é preciso vencer a burocracia da FDA (agência regulatória de remédios), DEA (de combate aos entorpecentes) e comitês de ética.

Mas já foi pior. Em 1990, quando o psiquiatra Rick Strassman quis pesquisar o efeito curativo do DMT, defrontou-se com uma situação digna de Kafka. Para testar a droga em humanos, era preciso receber autorização da FDA, que exigia comprovação de sua segurança. Mas, para isso, era preciso testá-la e a DEA pedia justamente o O.K. da FDA antes de liberar a droga para os testes. “Eu chamo o primeiro artigo que publiquei de ‘e se eu for atropelado por um ônibus antes de publicar qualquer dado?’”, brinca Strassman. “Temia morrer antes de a pesquisa servir para algo.” Isso sem falar do preconceito. “Jovens pesquisadores tinham interesse, mas também medo de se associar a uma área tão contaminada por publicidade negativa no passado.”

A questão remonta aos anos 1960 dos hippies e  Timothy Leary. Quando começou seus experimentos com LSD, Leary era um respeitado psicólogo de Harvard testando a droga para reabilitação social e cura de adições. Os resultados eram animadores. Mas ele logo foi alçado a guru. No auge do movimento hippie, a droga que podia abrir as portas da percepção transformou-se no símbolo da contracultura e acabou vitimada cientificamente por isso. Leary foi preso pela onda proibicionista de Richard Nixon, que tornou ilegais todas as drogas psicodélicas em 1970, até para pesquisa. A ONU seguiu o caminho. Foi o fim. “Verdade que perdemos muito em novos tratamentos para os males psiquiátricos mais difíceis”, diz o professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia, Charles Grob. “Mas talvez nossa cultura não estivesse preparada para lidar com elas da forma prudente de hoje.”

Paradoxalmente, os psicodélicos podem ser a nova fronteira para males para os quais as farmacêuticas não acham soluções. “O interesse cresce, enquanto as objeções diminuem”, diz Strassman. “O peso das evidências é tal que uma crítica moral seria vista como obscurantista”. Tanto que a virada deu-se a partir de pesquisas na Johns Hopkins, uma das instituições mais respeitadas do mundo. Em 1995, um estudo sobre o uso da psilocibina para tratar ansiedade terminal, publicado por um renomado cientista em um periódico de peso, deixou frutos e o centro virou referência em psicodélicos e adição. “Conduzir esse trabalho aqui ajuda a credibilidade”, diz Albert Garcia-Romeu, que ali pesquisa sobre  tabagismo, com resultados “promissores”. Para ir além, é, porém, preciso realizar testes com humanos, longos e caros.

A esperança está em gente como Amanda Feilding. A aristocrata britânica, fã da “expansão da autoconsciência”, criou uma fundação para financiar pesquisas com psicodélicos, como o de Mark Bolstridge, do Imperial College de Londres, sobre psilocibina para tratar depressão severa. Há pouco, a equipe recebeu um financiamento público de 500 mil libras, graças aos primeiros resultados bancados por Feilding. Assim, a pesquisa caminha num ciclo virtuoso. “A maré está virando, gradualmente, em favor dos psicodélicos”, diz Bolstridge. “Tenho certeza de que, em breve, os psicodélicos ganharão todo o respeito que merecem.”

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