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Número 822,

Economia

Nobel

Um Nobel antimonopólio

por Redação — publicado 20/10/2014 05h24
Os estudos do economista Jean Tirole sobre a regulação dos grandes grupos são premiados
Remy Gabalda / AFP
Nobel

Mais um crítico do mainstream

O prêmio nobel de Economia concedido a Jean Tirole pela Academia Real das Ciências da Suécia é um reconhecimento às importantes contribuições teóricas do economista francês em várias áreas, mas “acima de tudo ao seu esforço para a compreensão e a regulação de setores dominados por poucas empresas muito poderosas ou por um monopólio”, segundo a instituição. O professor da Universidade de Toulouse receberá um prêmio de 8 milhões de coroas suecas, equivalentes a pouco mais de 1 milhão de dólares.

Livres de regulação, os setores monopolizados produzem resultados com frequência “socialmente indesejáveis”, entre eles preços exageradamente elevados em relação aos custos ou empresas improdutivas que só sobrevivem por meio do bloqueio do ingresso de concorrentes novos e mais produtivos. A análise do economista sobre as empresas com grande poder de mercado propõe caminhos para o governo lidar com fusões e cartéis e regular os monopólios. Sugere a adaptação meticulosa da regulação às condições específicas de atuação de cada setor, do financeiro ao de telecomunicações.

O espaço para a valorização de trabalhos como o de Tirole ampliou-se após a crise de 2008 tornar evidentes as lacunas regulatórias no sistema financeiro. Outro estímulo foi a resistência crescente ao poder de mercado de empresas como o Google e a Apple, especialmente na Europa, palco também de um longo litígio com a Microsoft em anos anteriores.

Pelo segundo ano consecutivo, a academia sueca premiou economistas críticos ao pressuposto dos mercados eficientes defendido por pesquisadores da Universidade de Chicago, tradicionalmente acolhidos nas premiações da instituição.

O domínio do mercado por monopólios ou oligopólios é uma característica central da economia contemporânea. A autorregulação pretendida pelo neoliberalismo é irrealizável, na definição do Prêmio Nobel Joseph Stiglitz, e a única alternativa é a regulação promovida pelo Estado.

Michel Aglietta, autor de Regulação e Crises do Capitalismo, é o pioneiro da chamada escola regulacionista francesa, representada também por Robert Boyer e Alain Lipietz, entre outros. Os regulacionistas tornaram-se mais conhecidos no mundo acadêmico e entre o público leigo a partir da sua interpretação da dinâmica do capitalismo no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Aglietta destacou-se por seus estudos originais sobre a moeda e as instabilidades financeiras. Segundo alguns economistas, sua obra tem envergadura superior à de Tirole e o tornaria merecedor do Nobel.

*Reportagem publicada originalmente na edição 822 de CartaCapital, com o título "Antimonopólio"

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