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Número 821,

Internacional

Itália

Quando os 007 não se chamam Bond

por Wálter Maierovitch publicado 10/11/2014 05h29, última modificação 10/11/2014 07h55
Sérias suspeitas do envolvimento de agentes secretos com a Cosa Nostra
Cosa Nostra

Scarpinato. Ameaçado, ao centro de um enredo carregado de suspeitas

Nem com arte de malabares se elaboraria um “coquetel” tão venenoso e intimidatório quanto ao recém-servido no Palácio de Justiça de Palermo. Os seus ingredientes ativos são representados por consumados crimes de ameaça contra individualizado magistrado antimáfia e o de violação ao sistema informatizado de segurança do próprio palácio.

As ameaças foram dirigidas ao magistrado Roberto Scarpinato, 62 anos, eleito em 2013 pelo Conselho Superior da Magistratura italiana, para as funções de procurador-geral antimáfia. Scarpinato viveu anos de experiência na repressão à Cosa Nostra, por meio de sentidas medidas de desfalque patrimonial de uma frutuosa investigação sobre as correlações entre mafiosos, políticos, maçons e agentes de inteligência do serviço secreto estatal.

Poucos dias atrás, Scarpinato surpreendeu-se ao encontrar sobre a mesa do seu gabinete de trabalho uma carta anônima, preparada em computador e rodada em impressora, carregada de ameaças caso “não tomasse jeito”. A ser desvendado, resta o mistério de como a carta acabou sobre a mesa de Scarpinato, tendo o seu portador, no primeiro andar do Palácio da Justiça de Palermo, percorrido sem ser notado interiores de repartições e manejado, sem deixar digitais, maçanetas sem causar arrombamentos.

Algo, no entanto, já é certo. Não se tratou de obra de diletante, mas de gente capaz de se infiltrar. Como contou-me Scarpinato em e-mail, eram pessoas “in grado di infiltrarsi ovunque” (em condições de se infiltrar em qualquer lugar). Numa Palermo considerada a capital da máfia e da antimáfia, sabe-se que fora e dentro do palácio filma-se tudo e as imagens são armazenadas em hard disk, com moderno sistema de buscas para eventuais reconstruções de passos dados e cenários. Caso se tratasse de amadores, teriam sido identificados. No entanto, as câmeras de vigilância por mais de mês nada captaram. Caberá a peritos judiciais informar em laudo se foram desligadas ou se a base de armazenamento de dados restou apagada. As investigações estão sendo realizadas pelos magistrados da Justiça de Caltanissetta, competentes em face de fatos criminosos ocorridos no âmbito do Palácio da Justiça de Palermo.

A central de monitoramento, por coincidência, fica em departamento autônomo e no mesmo andar do gabinete de Scarpinato. Lá encontrou-se, na parte interna da porta, onde estão os equipamentos receptores de imagens, outra ameaça dirigida a Scarpinato e grafada a tinta e em dialeto siciliano: “Accura” (vê lá o que anda a fazer).

A Comissão Parlamentar Antimáfia, presidida pela ex-ministra Rosi Bindi, sentiu a gravidade e não titubeou em ouvir com rapidez o ameaçado procurador-geral, que foi firme e direto a respeito das suas suspeitas: “A carta que me foi endereçada cheira a obra de serviço secreto que se desvia da legalidade”. Neste documento, alerta Scarpinato, a ameaça não é de morte, conforme as tradições da Cosa Nostra, mas de desmoralização futura, típica conduta ilegal, como mostra a história político-judiciária italiana, de 007 do serviço secreto do Estado.

A respeito disso, Scarpinato destacou constar da carta o seguinte aviso: “Nós não criamos heróis”, numa referência a heroicos magistrados assassinados espetacularmente, como, por exemplo, os dinamitados Giovanni Falcone e Paolo Borsellino. Em remate, o procurador-geral interpretou o aviso como insinuação de que ele poderia ser golpeado “com uma calúnia, uma terrível mentira” ou enlameá-lo de alguma outra forma.

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