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Número 820,

Internacional

Afeganistão

O futuro incerto do Afeganistão

por Gianni Carta publicado 07/10/2014 04h17
Um acordo com os EUA busca a paz, mas violência, miséria e corrupção continuam
AFP

Um governo de união nacional poderia ser a melhor solução para um país multiétnico à beira de uma possível enésima guerra civil. Ashraf Ghani, o novo presidente, e Abdullah Abdullah, a ocupar o recém-criado posto de número 2 do Executivo, encarnam essa esperança. No entanto, o aperto de mão entre Ghani e Abdullah acompanhado de sorrisos durante a posse, na segunda-feira 29, embutia uma incerteza: a coabitação vai durar?

As raízes das dúvidas são duas. Não somente Ghani e Abdullah eram rivais no pleito presidencial, mas Abdullah, ex-chanceler e médico de 54 anos, alegou fraude no segundo turno, em 14 de junho. De acordo com o tadjique Abdullah, na dianteira do primeiro turno, o ex-presidente Hamid Karzai teria arquitetado a vitória de Ghani, pois ambos são da etnia pachtun.  A intervenção do secretário de Estado americano, John Kerry, teria sido decisiva. Abdullah se contentou, pelo menos por ora, em ocupar o novo cargo equivalente àquele de premier. Abdullah responderá a Ghani, 64 anos, ex-ministro das Finanças.

De volta à Europa após ter acompanhado o pleito presidencial no Afeganistão, o fotógrafo francês Stéphane Herbert avalia: “O governo de união demonstra lucidez e bom senso. É algo de positivo, embora persistam os graves problemas de sempre: miséria, corrupção, bombas diárias do Taleban”. E aí está a segunda justificada razão da incerteza. De fato, na terça-feira 30, um homem-bomba tirou a vida de sete soldados afegãos em um ônibus do exército, em Cabul. No mesmo dia, mais 15 pessoas morreram em duas províncias. Na quinta-feira 2, outro ataque contra um ônibus do exército deixou mais três soldados mortos na capital. Segundo a Otan, com a retirada de forças estrangeiras, o Taleban tem matado, em média, cem policiais e soldados afegãos por semana.

Ghani é qualificado para o cargo. É economista e trabalhou para o Banco Mundial. Não faltam dificuldades, pois o legado de Karzai, presidente por 13 anos, é altamente negativo. Ao contrário de Karzai, na terça 30, Ghani concordou em assinar um Acordo de Segurança Bilateral com os Estados Unidos. Ficou assentado que 12 mil soldados americanos e da Otan permanecerão para treinar e prestar assistência ao exército nacional, formado por 350 mil soldados. Todas as demais tropas americanas de combate deixarão o país até o fim deste ano. Mais: haverá uma significativa redução de soldados da Otan. Por isso, o acordo é vital para a luta do exército afegão contra o Taleban.

Para Barack Obama, o dia da assinatura do acordo foi “histórico”. Otimismo exagerado? Insatisfeito com a intervenção estrangeira, no caso a de Kerry, e obviamente com o novo acordo bilateral, o Taleban reage com bombas. Visto que os 12 mil soldados estrangeiros permanecerão no país até pelo menos 2024, Obama deixa para seus sucessores na Casa Branca a herança pesadíssima das guerras no Afeganistão, na Síria e no Iraque. O conflito no Afeganistão, aliás, é o mais longo na história dos EUA. Sem contar que contradiz a promessa de que “todos os soldados americanos” deixariam o país até o fim de 2014. O acordo prevê treinamento e assistência ao exército afegão, mas, ao mesmo tempo, essa tropa especial participará de operações de contraterrorismo, isto é, de combate contra grupos terroristas como a Al-Qaeda, o que não deixa de configurar uma situação ambígua.

Clément Therme, pesquisador da L’École des hautes études en sciences sociales (Ehess), lembra em longa análise no diário Libération que, em 2001, o Afeganistão “tornou-se o primeiro laboratório para exportação da democracia dos neoconservadores americanos”. A experiência não foi bem-sucedida. De saída, “o Afeganistão permanece um Estado enfraquecido, incapaz de organizar eleições com alguma eficácia”. Além disso, o êxito da intervenção de Kerry pode ser encarado, segundo Therme, como demonstração da disposição das elites afegãs de decidir o futuro, em detrimento da vontade do povo. Não falta quem negue legitimidade às instituições afegãs e ao próprio Ghani. O motivo? O resultado da investigação de fraude eleitoral não foi divulgado. Ou seja, houve fraude. Quem ganhou de verdade?

O fotógrafo Herbert contemporiza. “Não vamos passar o tempo todo a discutir se um candidato teve 45% dos votos e o outro 55%.” Herbert, veterano de várias guerras e conflitos, inclusive no Afeganistão, considera paradoxal esse debate. “Fundamental – prossegue – é que os afegãos tenham um futuro.” Há “talentosos” jovens com menos de 30 anos, nascidos em um país devastado por conflitos, com direito a oportunidades. E o que veem? “Uma nova onda de decapitações, divulgada na mídia local e a imagem do fanatismo a dominar o Estado Islâmico.”

Por que a mídia ocidental não cobre os casos de decapitações? Herbert retruca: “Os decapitados não são ocidentais”. Contratado por uma revista alemã, Herbert encontrou poucos jornalistas instalados no hotel Serena, o fotógrafo observou a presença de poucos hóspedes, quase todos paquistaneses e indianos. A segurança no Serena é rigorosa e inclui diversos detectores de metais. Mesmo assim, em março deste ano, quatro jovens com pistolas passaram por todas as barreiras. As câmeras mostraram moços sorridentes jovens, supostos clientes do restaurante. Esconderam-se no banheiro, depois entraram na sala e atiraram. Carnificina.

Em Cabul, com 3 milhões de habitantes, Herbert só anda de carro blindado. Quando explodia uma bomba, recebia um SMS. Em seguida, vinha a segunda, visto que o povo se aglomerava no local da primeira bomba, e uma segunda era detonada. Novo SMS. Herbert não podia ficar mais de dez minutos no mesmo lugar. Cabul, diz o fotógrafo, é um labirinto de checkpoints, ruas com guaritas dos dois lados, soldados afegãos armados até os dentes. Já os soldados estrangeiros são raros. Reina a miséria, apinham-se crianças de rua. “A tensão é constante.” Herbert emenda: “Mas este governo pode dar certo”.