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Número 820,

Internacional

Análise / Wálter Maierovitch

Decapitações e novos cenários

por Wálter Maierovitch publicado 08/10/2014 05h12
Sem o apoio do Irã, fica difícil para os EUA derrotarem o Estado Islâmico. Mas Israel é obstáculo a um acordo
ARIS MESSINIS/AFP
Isis

O alvo indireto das decapitações promovidas pelo Isis são os EUA, que bombardeiam territórios ocupados pelos jihadistas

Em Terrorismo e Antiterrorismo nel XXI Secolo, Domenico Tosini, da Universidade de Trento, advertiu não representar o alvo imediato da violência o objetivo principal do terrorismo. Na segunda-feira 29, isso ficou mais uma vez patente. Os terroristas-jihadistas do ISIS decapitaram três mulheres e deixaram as suas cabeças em exposição pública na cidade de Jarablus.

O alvo indireto são os Estados Unidos, que, numa coalizão internacional, bombardeiam território considerado pelo ISIS, desde junho, um Califado fundamentalista sunita. As mulheres vitimadas militavam no Peshmerga e tinham sido aprisionadas em combate para evitar que caísse no domínio do ISIS a cidade curda de Kobane, na fronteira com a Turquia. O Peshmerga, que em curdo significa “combatentes até a morte”, é o exército de um Estado curdo ainda não reconhecido. No seu efetivo existem mais de 500 mulheres.

A primeira convocação de mulheres, inicialmente 11, aconteceu em 1996 e na invasão americana do Iraque, em 2003, o Peshmerga contribuiu para a derrubada de Saddam Hussein. As imagens das mulheres  decapitadas foram difundidas pelas redes do ciberterror. Para os especialistas no fenômeno terrorista, buscou-se uma novidade perturbadora em resposta aos bombardeios aéreos.

Os primeiros tiveram por objetivo desfalcar a principal fonte de sustento financeiro do ISIS, ou melhor, os mísseis atingiram a zona petrolífera ocupada pelos terroristas, aos quais garante um faturamento diário líquido de 1 milhão de dólares, depositados em um fundo em que as receitas estão sob gestão de Abu Omar al-Shishani, um dos militares do Estado-Maior do tal Califado proclamado por Abu Bakr al-Baghdadi.

Parênteses: o Iraque é o sétimo produtor mundial de petróleo e o desfalque, pós-conquista no norte iraquiano de Mossul pelo ISIS e perda das refinarias e oleoduto de Kirkuk, compromete em 10% a receita do país. A perda não é maior porque o grande centro produtor está no sul, região xiita onde o ISIS não chegou. Assim, estão salvas, entre outras, as plataformas de Shell, ExxoMobil, Total, Gazprom, Lukoil, BP. Numa Síria em guerra civil, a perda de receita foi bem maior e, além do ISIS, poços são explorados por tribos sunitas que também lutam pela derrubada do ditador Bashar al-Assad.

A situação guarda ambiguidades gritantes. A ponto de o ISIS, empenhado contra Assad desde 2012, ter vendido petróleo, por intermediários turcos e libaneses, ao próprio inimigo. Mas o paradoxo por aqui não é unidade. Em um passado próximo, Baghdadi recebeu armas de traficantes a serviço da CIA. Hoje, o governo americano oferece 10 milhões de dólares pela cabeça do califa do ISIS.

Enquanto isso, Obama e aliados experimentaram amargas informações de setores de inteligência. O New York Times revelou as preocupações de James Clapper Jr., chefe do serviço de inteligência nacional, com a possibilidade de um iminente ataque por parte do grupo terrorista Khorasan. Ativo na Síria e composto de combatentes da velha-guarda alqaedista no Afeganistão e Paquistão. O líder máximo do grupo é o procuradíssimo Muhsin al-Fadhli e ele tem por meta atacar os EUA e a Europa.

Outra notícia incômoda está em vídeo procedente da Frente Jabhat al-Nusra (Frente da Vitória do Povo da Síria), apelidada de Al-Qaeda da Síria. O seu líder, Abu Mohammad al-Juliani,  avisou:  “Se os bombardeios aéreos não forem suspensos imediatamente, o Ocidente pagará um preço muito alto”.

O vídeo surpreendeu a CIA, que não esperava uma reconciliação tão rápida do ISIS com a Frente Al-Nusra. O rompimento era recente e deveu-se ao fato de o ISIS ter se apropriado, manu militari, dos poços de petróleo tomados do governo de Assad pela Al-Nusra.

Barack Obama frisou que não enviará soldados para combater em terra o ISIS. O grupo ocupa vasta área de Mossul (Iraque) a Alepo (Síria) e de Rutba (Iraque) à periferia de Deir ez-Zor (Síria).

Como os ataques aéreos serão insuficientes, o governo Obama dará uma “procuração” ao Peshmerga para combater em seu nome. Outra procuração depende de aceitação de tribos sunitas ditas moderadas, mas, na realidade, em busca de refinarias perdidas para o ISIS.

A esta altura, Obama sabe ser difícil liquidar com o ISIS sem o apoio do Irã. Por sua vez, os iranianos querem o aniquilamento do ISIS, que cobiçam as terras persas. Além disso, a extinção do grupo ajudaria Assad, aliado de Teerã. O Irã só aceita negociar se entrar na pauta uma rediscussão dos limites à pesquisa nuclear do país. Mas Israel é, porém, um obstáculo.

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