Você está aqui: Página Inicial / Revista / A velha polarização / De volta às aulas
Número 820,

Sociedade

Análise / Vladimir Safatle

De volta às aulas

por Vladimir Safatle publicado 13/10/2014 05h51
Parte significativa das críticas à USP reveste de análise objetiva posições meramente ideológicas
Cecília Bastos
USP

Avaliar a vida acadêmica a partir de critérios inventados por empresas como os rankings internacionais é um dos equívocos em relação a universidades públicas

Há momentos realmente cômicos em certas discussões públicas sobre o destino da Universidade de São Paulo, nosso mais importante centro de formação universitária e pesquisa. São debates com duas características básicas.

Primeiro, elas começam por propor avaliar a vida acadêmica a partir de critérios inventados por empresas de “rankings internacionais” e impiedosamente martelados como a prova máxima da racionalidade e eficiência. Quando mostramos que, mesmo ao se levarem em conta tais critérios que eles mesmos adoram nos martelar, as avaliações correntes a respeito da USP estão equivocadas, a reação é uma peça de humor involuntário. Nunca ninguém reavalia seu diagnóstico. Ao contrário, alguns afirmam que “números dizem qualquer coisa” e continuam a defender o que sempre defenderam: a universidade é ineficiente, devemos cobrar mensalidades, ela é tomada de assalto por grupos protorrevolucionários que perderam o bonde da história etc. Ou seja, não há confrontação com os fatos que modifique suas opiniões, pois elas são imunes a qualquer avaliação. São simplesmente posições ideológicas arraigadas e vendidas como análise objetiva.

Outros simplesmente nos chamam de “infantis” por pretensamente reduzir a discussão a números colhidos ao acaso. Normalmente, quem diz isso são colegas cujo esporte principal é reclamar da violência produzida por cadeiraços em momentos de greve. É bastante interessante observar como os mesmos que reclamam dessa forma de violência não temem mostrar uma ainda maior ao simplesmente procurar desqualificar opiniões contrárias como irracionais e infantis. Querem debater de verdade? Ou querem apenas aparecer como adultos a repreender energicamente crianças geniosas? Conhecemos bem esse velho cacoete de certos grupos uspianos que começam por defender o “jogo democrático” e terminam por expulsar do grande horizonte consensual da razão comunicativa todos aqueles que contestam suas regras produtoras dos benefícios privados de sempre.

Há anos somos cobrados pela mídia e pela burocracia acadêmica a partir de critérios próprios a agências de rankings internacionais entre universidades. Um desses critérios é a relação aluno/professor. Desde a época do finado Paulo Renato Souza, ministro da Educação no governo Fernando Henrique Cardoso, ouvimos que o número de professores nas universidades brasileiras é alto, que universidades de excelência têm relação maior que a nossa. Isso retornou agora, quando nosso reitor deu a entender que o rombo em nossas contas se devia a um número excessivo de professores e funcionários. Quando mostramos simplesmente não ser verdade ou, pior ainda, expomos o fato de termos praticamente a mesma quantidade de professores que há 20 anos, quando a universidade tinha um pouco mais de 30 mil alunos, e não os 92 mil de agora, então essa discussão virá “tacanha”. Como se não bastasse, chegam mesmo a tentar criar contraexemplos, levantando a situação das universidades alemãs, nas quais a relação professor/aluno é alta. Seria mais honesto, porém, contar a história toda. Tal relação é alta, pois o sistema alemão funciona com o uso massivo de Lehrbeauftragten, docentes assistentes em condição empregatícia precária e com contratos de curta duração. Talvez seja o objetivo de alguns para nossas universidades. Mas, se for o caso, melhor dizê-lo claramente.

O segundo ponto da discussão é a crítica à violência no interior das relações acadêmicas. O engraçado é que não me lembro de nenhum deles a reclamar da violência de uma universidade gerida de maneira cartorial e autocrática, com estruturas e processos que fazem de sua administração um belo exemplo de gestão-padrão CBF. Eles parecem não se incomodar muito com reitores que agem de costas para professores e alunos, decisões impostas e conselhos universitários distorcidos. A violência parece incomodar só quando vem de um lado.

Ao escreverem, preferem esquecer como durante anos movimentos de alunos e professores denunciaram a irracionalidade da gestão da universidade, enquanto vários, na USP e na mídia, se felicitavam com as ações de um reitor que gostava de se apresentar como xerife. Os mesmos que não se incomodam com outro reitor que diz, em entrevista recente, “estar se divertindo muito” no cargo, isso depois de a universidade ter passado pela maior greve de sua história. No que repetem uma velha sensibilidade seletiva brasileira para “violências”.

registrado em: , ,