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Número 820,

Economia

Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo

Conhecimentos e interesses

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 11/10/2014 08h56
As recomendações dos economistas estão eivadas de pressupostos não revelados

Lá pelos 5 anos de curta vida (ou seriam 6, talvez 4?), eu acordava com os ruídos da grande imprensa. Ruídos produzidos por meu pai ao folhear os jornais na mesa do café da manhã. Dona Candelária, minha mãe, reclamava da desatenção do marido. Cercado por ela e pelos filhos, ele sorvia os goles de café, concentrado nas coisas, dores e aspirações dos homens e de seus mundos, com especial atenção às façanhas e percalços do Palmeiras.

Não é difícil compreender que o superego me lançou às costas o peso de um hábito invencível: folhear os jornais no café da manhã, quase sempre sob os protestos indignados de minhas queridas ex-mulheres. Sem sucesso, tentei explicar às senhoras que os homens no mundo e o Palmeiras tinham precedência na hierarquia de valores edificada por meu pai.

Na manhã de domingo, 28 de agosto, mais uma vez curvei-me ao império do superego. Corri para a soleira da porta em que fica depositada a Folha de S.Paulo. Ávido para sorver os venenos e esperanças de todos os dias, encontrei as páginas do matutino empenhadas em produzir mais ruídos do que o farfalhar das páginas. Já o Caderno de Esportes e o Caderno Eleições, entre barulhos e estopadas, deixavam escapar textos valiosos. O de Esportes noticiava o evento-teste da Allianz Arena e o de Eleições estampava artigos instigantes de Antônio Prata, Jânio de Freitas e dos economistas Marcos Lisboa e Zeina Latiff.

Latiff e Lisboa deploravam a pobreza do debate econômico-eleitoral. “Retórica fácil e desafios difíceis” proclama o título do artigo escrito pelos dois reconhecidos economistas. Entre as lamentações, escolhi a que me pareceu mais sugestiva: “A contraposição proposta entre inflação e crescimento sustentável, por exemplo, pertence à retórica oportunista da política, não ao debate informado”. Em seguida disparam: “Desqualifica-se a divergência de ideias, atribuindo-a a interesses contrariados”.

O mal é a política, lamentam os “físicos da sociedade”.  A política dos interesses e os interesses da política se intrometem frequentemente no jogo da economia, quebrando a harmonia de interesses promovida pela ação dos indivíduos racionais.

Como faz meu amigo Mino Carta, indaguei meus botões a respeito da separação entre conhecimento e interesse. Eles resmungaram: as recomendações e análises dos economistas, prestadas em boa-fé, estão eivadas de valorações e pressupostos não revelados. Os famigerados botões foram adiante: as ostentações de rigor e cientificidade são incompatíveis com a natureza do objeto investigado. Esse, digamos, “incidente ontológico” é quase sempre ignorado pelos praticantes da “Ciência Triste”.

Na segunda metade do século XIX, a economia empreendeu a peregrinação em busca do Graal da Ciência. Tratava-se de mimetizar os procedimentos da mecânica clássica. Em sua trajetória rumo ao “progresso”, a economia ignorou as mudanças de paradigma promovidas pelas “rupturas” da termodinâmica, da física das partículas e da Teoria da Relatividade.

Ilya Prigogine e Isabelle Stengers mostram que a fenomenologia descrita pela termodinâmica, pela física das partículas e pela Teoria da Relatividade “nos conduz a compreender um mundo em evolução, um mundo onde a “emergência do novo” reveste um significado irreversível... O ideal da razão suficiente supunha a possibilidade de definir a causa e o efeito, uma lei que estabelece equivalências reversíveis”.

Na dita ciência econômica, essas “equivalências reversíveis” estão contempladas em todas as formulações do modelo de Equilíbrio Geral assentadas na hipótese do indivíduo racional e maximizador. Irreversibilidade não está no dicionário dos modelos Dinâmicos Estocásticos de Equilíbrio Geral, o último grito da sabedoria econômica. Por isso não são dinâmicos coisa nenhuma.

É possível reivindicar uma complexidade ainda maior nos processos de conhecimento das ditas Ciência Sociais. Habermas, por exemplo, sugere que, além de estarem submetidas à confirmação empírica (ou à rejeição), as teorias da sociedade devem estar sujeitas à demonstração de que são “reflexivamente aceitáveis”. A investigação deve compreender não apenas as instituições e práticas sociais, mas também incluir as convicções que os agentes têm sobre a sua própria sociedade – investigar não apenas a realidade social, mas os saberes que se debruçam sobre ela. Uma teoria social é uma teoria a respeito das convicções dos agentes sobre a sua sociedade, sendo ela mesma uma dessas convicções. Os assim chamados cientistas sociais, sobretudo os economistas, costumam descuidar dos fundamentos cognitivos implícitos em seus procedimentos.

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