Você está aqui: Página Inicial / Revista / Corrida indefinida / Refugiado da bola
Número 819,

Sociedade

Brasiliana

Refugiado da bola

por Bernardo Medeiros — publicado 02/10/2014 05h47
A invasão da Crimeia deixou sem clube o zagueiro Célio Santos
celio4.jpg

Célio Santos é um típico migrante do futebol. Passou por clubes na China e Moldávia e fez um certo sucesso nos gramados de Portugal. Quando surgiu o convite para jogar na Ucrânia, não pensou duas vezes: um bom contrato em uma liga emergente da Europa era tudo o que buscava. Mas dois anos, uma disputa geopolítica e dez meses de salários atrasados depois, Santos está de volta à estaca zero. A anexação da Crimeia ao território russo o deixou impossibilitado de trabalhar.

Sujeito simples, de sorriso fácil, o boleiro não demonstra tristeza nem ao contar o seu drama. Leva literalmente na esportiva e coloca os meses de apuros no Leste Europeu na lista de histórias proporcionadas pela opção de jogar futebol.  “Aqueles tanques de guerra na rua pareciam Call of Duty”, afirma, ao comparar o conflito a uma de suas paixões, o videogame.

Ao desembarcar em Simferopol, capital da Crimeia, em 2012, o novo zagueiro do Tavriya considerava-se gato escaldado. A poluição e a culinária chinesa, a delicada situação econômica de Portugal e o fraco futebol da Moldávia faziam-no acreditar ter vivido de tudo no futebol. Mesmo em um time pequeno, a primeira temporada foi promissora. O clube terminou o campeonato nacional longe da zona do rebaixamento. Para completar a boa fase, a esposa Beatriz descobrira a gravidez.

Célio Santos jogava na Ucrânia. A anexação da Crimeia ao território russo o deixou impossibilitado de trabalhar

 

vida, na então tranquila cidade às margens do Mar Negro, corria tão bem que a esposa decidiu deixá-lo sozinho pela primeira vez após a mudança para o exterior. O fim da gestação seria no Brasil, ao lado da família. Começava o martírio de Santos.

Em agosto de 2013, início da nova temporada, um antigo incômodo no ombro esquerdo havia se agravado. A cirurgia, inevitável, também seria feita no Brasil. “Ela veio e logo depois eu cheguei. Sabia que ficaria seis meses parado, mas ao menos veria minha filha nascer. Até que não era ruim.”

Um detalhe complicava, porém, a situação. Como o zagueiro recebia o salário em dinheiro vivo, o valor da cirurgia só seria reembolsado quando voltasse à Ucrânia. As notícias dos conflitos em Kiev não o incomodavam. Um companheiro de time argentino, muy amigo, tratava de tranquilizá-lo. “Falávamos sempre e ele me dizia que não havia problemas. A capital é distante, duas horas de voo, e não imaginava mesmo que pudesse ocorrer algo por lá.”

A família Santos desembarcaria novamente na Crimeia no fim de fevereiro. A aparente calmaria durou três dias. Ao pegar um táxi a caminho do treino, Santos deparou-se com tanques do Exército e soube da invasão russa. “Fiquei apavorada. Era um rojão explodir e eu já achava que era bomba. Ficava sozinha, com um bebê de 2 meses, quando o Célio ia treinar”, recorda a mulher do atleta.
A crise política logo afetaria o clube da capital. O presidente do time, acusado de apoiar o antigo regime ucraniano, foi preso pelos russos e a agremiação ficou à deriva. O campeonato foi paralisado. Durante dez dias, o boleiro e a mulher ficaram sem comunicação com os familiares do Brasil. “Cortaram tudo. Telefone, internet. A gente trocava a todo instante de hotel, com medo de ataques”, diz o zagueiro.

Apesar do apoio popular à anexação ao território russo – o referendo teve 97% de aprovação – a situação na Crimeia seguia tensa para os estrangeiros. “Um dia chegaram e nos avisaram que não poderíamos mais ficar ali.” A solução encontrada pelo clube foi mandar os jogadores e familiares para a Turquia. “O aeroporto de Simferopol estava fechado. Fomos de ônibus até Kiev para poder embarcar.” A viagem de quase 900 quilômetros era constantemente interrompida por revistas do Exército russo. “Treinamos por um tempo na Turquia. Quando o campeonato voltou, não atuávamos mais na nossa casa.”

Quem pôde, abandonou o clube. Santos permaneceu, na esperança de dias melhores e de receber os atrasados. Chegou a entrar novamente na Crimeia, mas não demorou a mudar de ideia e voltar ao Brasil. O clube, formado basicamente por juniores nas rodadas finais, encerrou o campeonato na lanterna e acabou rebaixado. Pior, passou a integrar a Confederação da Rússia e iniciou a atual temporada na Terceira Divisão, que não aceita atletas estrangeiros.

O imbróglio fez o brasileiro acionar a Fifa para conseguir sua desvinculação do clube. A carta de alforria chegou um dia após a janela de transferências do futebol europeu ser fechada. Tarde demais para acertar com um time da Itália. Agora, livre, o zagueiro busca um time. De preferência em um país sem conflitos fora do campo.

registrado em: , ,