Você está aqui: Página Inicial / Revista / Corrida indefinida / Os money doctors
Número 819,

Economia

Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo

Os money doctors

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 29/09/2014 06h38
Economistas treinados na academia americana discordam, mas os países emergentes têm razões para cuidar das taxas de câmbio
kiki99/Flickr
Money

Por que os países emergentes fazem bem em cuidar das taxas de câmbio

No fragor da disputa eleitoral, o humor dos mercados balança a Bolsa, o juro e o câmbio. Instado pelos esgares e achaques do povo da finança, ocorreu-me revisitar com o leitor de CartaCapital um personagem onipresente na história econômica dos países, outrora periféricos, hoje emergentes.

Tenho a honra de reapresentar os money doctors. Digo reapresentar porque já tratei das figuras em outra ocasião. Money Doctors, assim eram chamados os conselheiros a serviço da haute finance que perambulavam pela periferia do capitalismo entre o último quartel do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Nesse período, a finança internacional dedicou-se com esmero à produção de solavancos cíclicos nos países periféricos.

A presença dos doutores era mais ostensiva nos momentos, muito frequentes, de queda nos preços dos produtos primários, crises do balanço de pagamentos e estrangulamento cambial.  In illo tempore, os doutores da grana eram estrangeiros, funcionários graduados dos grandes bancos europeus, ingleses em sua maioria.

Hoje progredimos: os doutores da finança contemporânea, os que assumem ares de esculápios incumbidos de auscultar os padecimentos dos “emergentes” são gentios treinados na academia americana. Leio e ouço na mídia tupiniquim as opiniões de conhecidos e reputados money doctors da nova geração, aviando receitas para os achaques do câmbio. Recomendam que as doenças da moeda local sigam seu curso natural, entre valorizações indesejadas e desvalorizações traumáticas, sem interferências daninhas do banco central.

Os doutores da corrente dominante recomendam a adoção de regimes cambiais mais próximos dos “extremos”: câmbio fixo ou câmbio flutuante com intervenções “em circunstâncias excepcionais”. Capturei esse ponto de vista no artigo publicado em coletânea organizada pelo FMI (In the Wake of the Crisis). Em sua contribuição, um respeitado economista brasileiro, Arminio Fraga, desconfia dos “regimes intermediários”. Fraga considera perigosos e, possivelmente danosos, os regimes de câmbio administrado.

O argumento oferecido aponta duas graves inconveniências dos regimes intermediários. Primeiro, o risco de “confusão porque os atores não recebem sinais claros de como devem estruturar sua vida econômica e financeira”. Segundo, porque “os governos frequentemente sucumbem às pressões políticas de curto prazo e terminam por defender taxas de câmbio insustentáveis”.

Refém das expectativas racionais e, portanto, da Hipótese dos Mercados Eficientes, a avaliação dos doutores passa ao largo do rosário de crises cambiais, monetárias e fiscais desfiadas urbi et orbi ao longo dos últimos 30 anos. Para consolo dos espíritos inquietos, outros celebrados economistas que escrevem na mencionada coletânea não escondem a importância crucial das “falhas de mercado” embutidas na assim chamada arquitetura monetária e financeira global.

O economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard escreve: Antes da crise, muitas economias emergentes adotaram o regime de metas de inflação. Isso era visto como o estado da arte no que respeita à política monetária... Esses países (no que se refere ao câmbio) se incluíam entre os “flutuantes”. Argumentavam, continua Blanchard, que os cuidados com a taxa de câmbio deveriam ser considerados apenas por seus efeitos na inflação. Não deram qualquer importância à taxa de câmbio como objetivo de política econômica. Mas os países (emergentes) têm razões para cuidar das taxas de câmbio.  É importante dispor de instrumentos para afetar o nível e a volatilidade da taxa. Faloooou.

Outros facultativos do dinheiro menos votados poderiam redarguir: as bulas que acompanham as mezinhas flutuantes indicadas pelos money doctors nativos não advertem para os efeitos colaterais da farmacopeia. Não importa: a bula está certa, errado está o organismo do paciente, que, diga-se, já emite sinais de falência em funções vitais, como é o caso da indústria brasileira de manufaturas.

A valorização do câmbio foi largamente utilizada no Brasil para manter a inflação domesticada. A política de metas ao manejar a Selic apenas simulou a desimportância dos movimentos do câmbio nominal, ao mesmo tempo que sobreutilizava esse preço-chave para atingir seus objetivos.

Nas pegadas da globalização financeira, o Brasil manteve por 20 anos uma combinação câmbio-juro hostil ao crescimento da indústria manufatureira, mas amigável à arbitragem e à especulação, filhas diletas das “pressões de curto prazo” exercidas pelos capitais (neuróticos ou racionais?) sobre as economias nacionais dos países de moeda não conversível.

registrado em: