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Número 819,

Economia

Análise / Paul Krugman

Motivos do desemprego

por Paul Krugman — publicado 30/09/2014 05h42
A direita parece acreditar que uma maior disposição para trabalhar faria aparecer mais empregos
Talk Radio News Service/Lingjing Bao/Flickr
John Boehner

O presidente da Câmara dos Deputados, John Boehner, afirma que os americanos desempregados são fingidores e vagabundos

O presidente da Câmara dos Deputados, John Boehner, diz que os americanos desempregados são claramente fingidores e vagabundos que vivem da assistência social porque não querem trabalhar: “Essa ideia que nasceu, talvez, da economia dos últimos anos, você sabe, de que ‘eu realmente não preciso trabalhar; eu realmente não quero fazer isso. Acho que prefiro não fazer nada’. Essa é uma ideia doentia para nosso país”, comentou Boehner.

Poderia apontar as avassaladoras evidências econômicas de que nada parecido acontece. Se estivéssemos diante de um recuo maciço da oferta de mão de obra, deveríamos ver disparar os salários dos que ainda querem trabalhar. Também poderia apontar as taxas de juro zero e a baixa inflação como evidências de que vivemos em uma economia de demanda restrita. Poderia perguntar como exatamente Boehner acredita que a maior disposição a trabalhar faria aparecer mais empregos.

Mas o que me pega aqui é o fato de pessoas como Boehner estarem desconectadas da experiência vivida pelos trabalhadores comuns. Tenho uma vida bastante rara, com uma boa renda, mas, mesmo assim, conheço um bom número de pessoas que passaram meses ou anos desesperadas em busca de empregos. Quão isolado (ou distraído) pode ser alguém que pensa que o problema é simplesmente que as pessoas não querem trabalhar?

Penso na abertura do livro de B. Traven O Tesouro de Sierra Madre: “Qualquer pessoa que deseje trabalhar e que fale sério sobre isso certamente encontrará um emprego. Só que você não deve ir ao homem que lhe diz isso, pois ele não tem emprego para oferecer e não conhece ninguém que saiba de uma vaga. Esse é exatamente o motivo pelo qual ele dá um conselho tão generoso – por amor fraterno e para demonstrar quão pouco ele conhece o mundo”.

Há muito tempo me parece que a questão dos benefícios aos desempregados é onde o debate sobre política econômica na depressão atinge sua mais pura essência. Se estiver à direita, você acredita que os benefícios aos desempregados prejudicam a geração de empregos, porque você “está pagando às pessoas para não trabalharem”.

Admitir que as condições da depressão são diferentes  significaria admitir que o livre mercado às vezes falha gravemente. E, claro, o desprezo pelos desempregados ajuda muito se você quiser se opor a qualquer tipo de ajuda aos desafortunados.

Mas há algo notável ao ver tais alegações serem feitas hoje, porque esses benefícios expandidos há muito desapareceram. Voltaram ao seu nível do auge do “boom Bush”, em 2006. Josh Bivens, pesquisador do Instituto de Políticas Econômicas, indicou que a porcentagem de desempregados que recebem algum benefício está em uma baixa recorde. O recuo dos benefícios é um dos principais motivos pelos quais a expansão econômica não está reduzindo a pobreza.

A direita ralha contra os vagabundos da assistência social, apesar de eles não serem vagabundos e de não haver qualquer assistência.

Noah Smith, professor de Finanças na Universidade Stone Brook, escreveu na Bloomberg que não devemos ser rudes com as pessoas de quem se discorda, porque elas podem estar certas. De fato, que possível objetivo poderia ser servido por, digamos, referir-se à economia austríaca como um “verme do cérebro” (como fez Noah no início deste ano)? Acho que Noah fez a coisa certa quando citou os vermes do cérebro e está na pista errada sobre a coisa da civilidade.

A linguagem pitoresca, usada direito, serve a um propósito importante. “As palavras deveriam ser um pouco selvagens”, escreveu o economista John Maynard Keynes, “pois elas são os ataques dos pensamentos aos que não pensam.” Você poderia dizer: “Estou em dúvida sobre a tese da austeridade expansionista, que se baseia em evidências empíricas questionáveis e zzz...” Ou poderia acusar os austerianos de acreditar na “Fadinha da Confiança”. Qual é mais eficaz para contestar uma doutrina econômica ruim?

Além disso, a civilidade é um gesto de respeito. Se examinar os comentários incivilizados de pessoas como eu, por exemplo, verá que são destinados a pessoas que argumentam de má-fé. Quando existe um debate econômico honesto, de boa-fé, por favor, sejamos civilizados. Mas na minha experiência as exigências de civilidade quase sempre vêm de pessoas que perderam o direito ao respeito que elas exigem.

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