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Número 819,

Economia

Análise / Delfim Netto

Liberdade + igualdade = civilização

por Delfim Netto publicado 28/09/2014 07h49
A combinação de liberalismo político e capitalismo não é o regime “ideal”, mas aponta para a busca da sociedade civilizada

Toda a história do homem é uma narrativa do poder: da tendência de minorias (ou maiorias) que tentam, pela persuasão ou pela força, quebrar a vontade de maiorias (ou minorias) e submetê-las à sua própria vontade. O homem começou a viver da agricultura e a instalar-se em pequenas vilas há pouco mais de 10 mil anos. Tão logo as necessidades vitais de sobrevivência física puderam ser razoavelmente atendidas sem a obediência estrita às normas estabelecidas pelo mais forte, iniciou-se a procura de mecanismos para administrar suas inter-relações. Mecanismos capazes de assegurar a coesão do grupo e a sua defesa contra as “vontades” exteriores. Capazes, além disso, de impedir que a inevitável hierarquia necessária em qualquer tipo de sociedade para lhe dar um mínimo razoável de funcionalidade e estabilidade fosse fonte de uso abusivo do poder por alguns. Ninguém os inventou: emergiram da prática da cooperação adaptativa natural que facilitava a vida de todo o grupo.

Na longa caminhada em que o homem aperfeiçoou a si mesmo, ele acabou entendendo que só existe um meio eficaz de controle do poder: a lei que, entretanto, não transcende ao homem, não existe fora do homem. Ela é produto de uma ética adaptativa conveniente aceita consensualmente. Neste sentido talvez seja a maior manifestação de humanidade do animal-homem, pois estabelece o desejo de igualdade onde a natureza estabeleceu a hierarquia. Estabelece o respeito onde a natureza estabeleceu a submissão. Estabelece a perpetuação onde a natureza estabeleceu a morte.

Ao abandonar a comodidade que a natureza lhe oferecia, com sua hierarquia natural, suas regras estritas de sobrevivência e seu processo de seleção, o homem escolheu um caminho difícil. A partir do século XVI, tendo ocupado efetivamente todo o globo terrestre e apreendido da natureza uma noção da ordem inelutável que deu nascimento às ciências físicas, os homens tiveram a ilusão de que suas inter-relações eram também comandadas por forças externas que garantiriam a harmonia dos seus interesses. Bastava-lhes, portanto, descobrir as “leis naturais” dessas inter-relações e obedecê-las para que tudo se acertasse.

Tratava-se de doce ilusão. Tendo abandonado a natureza, por que esta haveria de oferecer-lhe um caminho seguro? Em meados do século XX, sob o desafio de Marx, o homem foi inexoravelmente forçado a enfrentar essa terrível verdade. Compreendeu que resolver o problema do poder consiste em encontrar uma resultante adequada dos dois vetores de comportamento que o separaram do mundo puramente animal: a busca incessante da igualdade e da liberdade, como valores próprios da ética que construiu. Mas desde cedo aprendeu também que essa resultante é difícil de se encontrar e que aqueles dois valores, depois de um certo limite, destroem-se mutuamente.

Apesar de todas as dificuldades, o liberalismo político, que obteve sua certidão de nascimento com a Revolução Inglesa de 1688, deu margem à expansão das atividades econômicas apoiadas sobre a formação de uma burguesia extremamente ativa e razoavelmente independente do Estado. Até agora parece a única organização social capaz de compor de forma estável aqueles dois vetores. A combinação do liberalismo político com o capitalismo não é o fim da história. Ela é um sistema em evolução empurrado pelo sufrágio universal. Certamente, não é o regime “ideal”, mas o seu funcionamento na Europa Ocidental, na Escandinávia e nos Estados Unidos mostrou que ele possui uma capacidade quase infinita de continuar a adaptar-se na busca da sociedade civilizada que é o objetivo do homem.

A evolução social e econômica daqueles países mostra claramente que o liberalismo político é incomparavelmente superior aos regimes “inventados” pelo homem e que o que se tem qualificado de socialismo (quando não se refere ao “socialismo” daqueles mesmos países) não tem sido mais do que um capitalismo de Estado, administrado por uma burocracia extremamente ineficiente e, em geral, tão corrupta quanto a burguesia. Infelizmente, a história mostra que a verdade é sempre descoberta tarde demais.

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