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Número 819,

Internacional

EUA

Obama e a síndrome de pato manco

por Eduardo Graça — publicado 06/10/2014 05h36
Com a popularidade em queda, Obama luta contra um fim de mandato melancólico
Nicholas Kamm / AFP

Pato manco. O termo da política norte-americana é usado para classificar executivos eleitos cuja aprovação popular e minoria no Legislativo os deixam incapacitados de alterar significativamente a vida dos governados. Se tudo correr como indicam as pesquisas de intenção de voto, as eleições de novembro nos EUA, com renovação completa da Casa dos Representantes e um terço do Senado deixará o presidente Barack Obama refém de um Congresso dominado pela oposição. O sinal vermelho para os democratas acendeu nos últimos dias. Segundo os resultados catastróficos para a Casa Branca da pesquisa NYT/CBS, o índice de aprovação de Obama é idêntico àquele do presidente George W. Bush em 2006, ano em que os democratas conseguiram maioria nas duas casas legislativas.

As avaliações mais duras dos eleitores foram em relação à política externa, à economia e à maneira de a atual administração lidar com ameaças terroristas, entre elas o Estado Islâmico: 58% dos entrevistados desaprovam a estratégia internacional do governo, 53% seguem insatisfeitos com a política econômica e 50% condenam o combate às ameaças terroristas. Apenas 40% aprovam o governo. Em 2006, à véspera de seu derradeiro biênio no comando da maior economia do planeta, Bush tinha 37% de apoio.

A condenação do combate ao terrorismo é inédita para a atual administração, celebrada pela eliminação, em maio de 2011, do líder máximo da Al-Qaeda, Osama bin Laden. A resposta dos eleitores é registrada no momento em que Obama deslancha o ataque aos militantes do Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Em seu discurso na Assembleia-Geral da ONU na quarta-feira 24, Obama enfatizou a necessidade de “a  América e seus aliados desmantelarem a rede da morte do EI”. O presidente convocou lideranças mundiais a se juntarem em uma “coalizão dos predispostos” para treinar e equipar tropas a fim de enfrentar os militantes sunitas no Iraque e na Síria.

“O quão rapidamente nos esquecemos que ‘coalizão dos predispostos’ foi justamente o termo escolhido por Bush para classificar o grupo de países afinados com a invasão do Iraque em 2003? Historicamente, nunca, desde Churchill se tornar aliado de Stalin contra os nazistas em 1941, se viu um antagonista como Obama tornar-se um aliado de conveniência de um adversário como Bashar al-Assad na Síria. Há menos de um ano, é bom lembrar, esta mesma administração democrata estava engajada na eliminação do governo sírio”, apontou Robert Fisk, correspondente do diário britânico The Independent, respeitado analista especializado em Oriente Médio.

Eleito com uma plataforma que incluía a condenação à invasão do Iraque e a promessa do fim de duas das mais longas guerras da história dos EUA, com a retirada das tropas norte-americanas de Bagdá e do Afeganistão, Obama caminha para os dois derradeiros anos de seu governo às voltas com uma nova investida armada no Oriente Médio, embora mantenha a posição de não enviar tropas para lutar em terra e opte por treinar a oposição moderada na Síria e armar os exércitos leais ao governo central do Iraque. Pior: bombardeado de todos os flancos políticos locais por ter criado as condições necessárias para o protagonismo do Estado Islâmico ao retirar as tropas do Iraque e decidido não ir adiante no ataque ao governo Assad, mesmo depois das denúncias de uso de armas químicas contra civis por Damasco.

A ex-secretária de Estado Hillary Clinton, líder nas pesquisas de voto para a sucessão de Obama, foi uma de suas críticas mais duras. Ela sublinhou a necessidade de Washington voltar a contar com uma política externa mais sofisticada, para além do “evitar passos em falso”. Em seu espaço no diário Washington Post, o estrategista republicano Ed Rodgers apressou-se em batizar o atual momento político americano como “era pós-Obama”, marcada por uma “aposentadoria precoce” do primeiro presidente negro dos EUA. Rodgers prevê, a partir da diminuição de vontade política de Washington para estabelecer acordos com um Legislativo hostil, o uso mais constante de ordens executivas, entre elas aquela relacionada à suspensão de deportações de imigrantes não documentados sem histórico de violência, promessa do presidente adiada para depois das eleições de 4 de novembro, por causa da disputa acirrada entre democratas e republicanos em estados conservadores com sentimento nacionalista exacerbado.

Pouco depois do discurso na ONU, o Partido Democrata enviou mensagem de e-mail à base, assinada por Obama, na qual pede apoio financeiro de no mínimo 3 dólares por cabeça para ajudar os candidatos democratas nas eleições. Uma sombra do otimismo radiante de 2008 e mesmo da mensagem de consolidação das conquistas sociais de 2012, o texto é centrado na defesa do Obamacare, no aumento do salário mínimo como ferramenta de combate à pobreza e especialmente no ataque a direitos caros às eleitoras, da inclusão de anticoncepcionais no plano de saúde ao aborto. Exatamente como há dois anos, os governistas apostam na força do eleitorado feminino. De acordo com a pesquisa NYT/CBS, no momento a disputa é cabeça a cabeça: 43% das eleitoras dizem pretender votar nos democratas, contra 42% simpáticas aos republicanos. Para não deixar de lado a incômoda fantasia do pato manco, Obama precisa contagiar as democratas e aumentar essa vantagem consideravelmente nas próximas sete semanas.

*Reportagem publicada originalmente na edição 819 de CartaCapital, com o título "A síndrome de pato manco"