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Número 819,

Cultura

Cinema

A marca nordestina

por Orlando Margarido — publicado 03/10/2014 05h59
O diretor Vladimir Carvalho olha ao redor sem perder as raízes
Sérgio Amaral
Vladimir Carvalho

À véspera dos 80 anos, Vladimir Carvalho em sua casa-museu na capital federal

A luz do cerrado foi a primeira impressão a conquistar o paraibano Vladimir Carvalho em sua chegada à capital federal há quatro décadas e a lembrança hoje se dá a céu aberto, na calçada de sua casa, onde instalou um poema. Apenas quem conhece o ofício do morador identifica na fachada do sobrado janelas em forma de rolo de película de filmes. A referência, anacrônica em tempos de modelo digital, antecipa o tanto mais de passado que se pode apreciar no interior da residência, onde o cineasta e professor guarda relíquias da sua e de outras trajetórias históricas da cinematografia brasileira.

O maior legado é, no entanto, a memória viva de quem esteve lá como testemunha privilegiada ou realizador. E mais, de quem a pavimentou a partir de um marco chamado Aruanda, na Paraíba, experiência determinante para, ao lado de Eduardo Coutinho, engendrar o clássico Cabra Marcado Para Morrer e seguir como paradigma do documentário de vertente social em obras como O País de São Saruê e Conterrâneos Velhos de Guerra.

Perto dos 80 anos, que completa em janeiro, Carvalho segue aguerrido. As homenagens começam, a exemplo do DVD com seis curtas-metragens que deve lançar até dezembro, quando o Fest Aruanda, em João Pessoa, reverenciará sua obra. E ele acaba de prestar tributo ao organizar para o 47º Festival de Brasília um ciclo de filmes e debates dedicados a Coutinho, morto em tragédia no início do ano. Terminado o evento, volta a seu mais novo documentário, leitura da pintura do pernambucano Cícero Dias, que lhe permite retomar a fase dos engenhos de açúcar tão presentes na infância e muitas vezes tema de seu cinema, como num filme sobre José Lins do Rego.

Para Carvalho, é sempre a chance de arremeter a seu Nordeste, sem que na essência tenha se separado dele. A distância é apenas física, delimitada por decorrências profissionais como o convite do amigo Fernando Duarte, fotógrafo de Cabra, para ensinar na Universidade de Brasília depois da invasão da UnB em 1968. A instituição buscava recompor o quadro de professores, a maior parte cassada pela ditadura, e Carvalho terminou por se instalar de forma definitiva. “Descobri que aquele era um momento especial na cidade, para onde tudo convergia. E me senti em casa.” A certeza confirmou-se ao ouvir falar sobre o drama dos candangos que ergueram a capital. Começou a registrar o material que ganharia forma em 1990 no impactante Conterrâneos Velhos de Guerra, relato inédito das mazelas e mortes dos operários da construção. A função da cidade em sua obra seria preponderante para Carvalho pensar o episódio da UnB em Barra 68 e da música jovem em Rock Brasília.

Elisabeth, Carvalho e Eduardo Coutinho em 1984, ano em que Cabra Marcado para Morrer foi finalizado

O que se dá ao redor é objeto de curiosidade desde sua união ao conterrâneo Linduarte Noronha, em 1960, para escrever e ser assistente no curta Aruanda, sobre um quilombo no Sertão paraibano, pedra de fundação do documentário brasileiro. Carvalho e João Ramiro Mello nunca constaram nos créditos, episódio que tratou com revolta e hoje de modo sereno. “Noronha era um tipo reservado, nunca soube por que fez isso.” Foi pelo filme e seu conhecimento da política de militância na região que se tornou o mais indicado a acompanhar Coutinho pelo Sertão pernambucano nas filmagens de Cabra.

O jovem comunista animou-se em integrar esse painel de mescla realista e ficcional da ação das ligas camponesas, centrado no assassinato do líder João Pedro Teixeira e no drama da viúva Elisabeth. As filmagens foram interrompidas pelo golpe de 1964, o que obrigou os “barbudos de Cuba”, assim chamados pelos moradores, a se dispersar. “Num primeiro momento achamos de modo ingênuo que era um golpe a favor, em apoio a João Goulart.” Enquanto o copião estava a salvo num laboratório carioca, Carvalho tratava de proteger Elisabeth, procurada por fotos. “O jeito foi pintar seu cabelo de loiro e fazê-la passar por prostituta até chegar à casa de um amigo militante.” Se hoje Cabra pode ser exibido em cópia nova pelo País, deve-se à obstinação de Coutinho em finalizá-lo em 1984 e porque as filmagens iniciais permaneceram protegidas sob a cama de um general, pai do diretor David Neves.

Não seria este o único embate de Carvalho com os militares. Em 1971, O País de São Saruê, sobre colonos, foi proibido no mesmo evento de cinema de Brasília e liberado em 1979. O filme evidenciava o som direto, relevante a partir de então para o documentarista, que o experimentou como assistente de Arnaldo Jabor em Opinião Pública. A essa altura, filmara os primeiros dois curtas nos anos 60, Romeiros da Guia e A Bolandeira, que integram o DVD com Vila Boa de Goyaz, Quilombo, A Pedra da Riqueza e Pankararu do Brejo dos Padres, estes da década de 1970.

Quando não consumou um filme definidor, o diretor conviveu com outros que o fizeram, como Glauber Rocha em Salvador, a quem mostrou Aruanda, contribuição identificada com o início do Cinema Novo. Na capital baiana integrou-se ao Centro Popular de Cultura e continuou a estudar Filosofia, a que chegou por influência do pai. Luís Martins, o Lula, ainda na pequena Itabaiana viu o garoto com uma faca na cintura, pronto a se tornar um cabra de lida qualquer. Homem de letras e ideias arejadas, tratou de abrir nova senda ao primogênito, como este fez depois com o irmão caçula, o diretor de fotografia Walter Carvalho. A iniciativa paterna é valor essencial ao documentarista, que pelo cinema encontrou um modo de nunca se desvincular do homem nordestino.