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Número 818,

Internacional

Suécia

Extrema-direita surge com força na Suécia

por Gianni Carta publicado 20/09/2014 09h22
Os social-democratas ganham as eleições, mas não têm maioria. A extrema-direita tem o poder de fiel da balança
Henrik Montgomery / It News Agency / AFP

Ironia do destino. Eis a maneira mais apropriada para avaliar o resultado das legislativas de domingo 14, na Suécia. Após oito anos na oposição, os social-democratas derrotaram a aliança de centro-direita governista mais duradoura desde o início do século XX. No entanto, sem maioria parlamentar o paradeiro do novo governo social-democrata será determinado pela legenda de extrema-direita, Democratas da Suécia (DS), a terceira colocada. Isso porque os quatro partidos da aliança de centro-direita se recusavam a estabelecer elos com o Partido Social-Democrata até o fechamento desta reportagem.

Outra ironia: por que mexer no time quando joga bem? A aliança liderada pelo Partido Moderado do premier Fredrik Reinfeldt era invejada pelo resto da Europa por ter criado uma economia próspera. De 2006 até o final do mandato de Reinfeldt, o PIB do país cresceu 12,6%, sem falar na elevação da renda per capita em 20%. Mais: o governo de centro-direita foi hábil ao lidar com a crise econômica de 2008.

Para entender este quadro eleitoral surrealista basta observar Jimmie Akesson, chefe de 35 anos da agremiação de extrema-direita DS. Eterno sorriso nos lábios, ele repete: “Somos os jokers do novo Parlamento”. Com 12,9% dos votos, o DS dobrou o resultado de 2010, ano de seu ingresso no Riksdag, o Congresso sueco. Por sua vez, o Partido Social-Democrata, o mais antigo, maior e mais votado até o início do século XXI, pode tecnicamente formar um governo por ter um maior número de cadeiras do que a oposição de centro-direita, a qual obteve 23,2% no sufrágio.

Liderado pelo ex-sindicalista Stefan Lofven desde 2012, o PSD conseguiu apenas 31,2% das vozes, com um crescimento de míseros 0,5% em relação ao desastroso pleito de 2010. Lofven descarta uma aliança com o Partido de Esquerda (ex-comunista), visto que tal fusão implicaria compromissos excessivos. No entanto, a agremiação social-democrata poderia aliar-se com o Partido Verde. Ainda assim, com 38% não alcançaria a maioria absoluta. De qualquer forma, o ex-operário soldador Lofven, de 56 anos, poderia ser aprovado pelo Parlamento para tornar-se premier.

Uma vez no cargo, Lofven terá três semanas para preparar uma proposta orçamentária. Ao mesmo tempo, a aliança liderada pelo Partido Moderado também fará sua proposta orçamentária. Segundo rumores, os 49 deputados do DS apoiarão o plano da aliança de centro-direita. Embora marginalizado por todos os deputados na legislatura anterior, Akesson votou 9 em 10 vezes a favor da aliança de centro-direita. E ao que tudo indica seu objetivo é provocar eleições antecipadas com a dissolução do Parlamento. Nicholas Aylott, cientista político da Universidade de Sodertorn, descarta essa possibilidade em entrevista ao diário The Local. “Todos os partidos estão inquietos com a ascenção do DS e temem que novas eleições colocariam Akesson em uma posição ainda mais forte.”

Akesson é a verdadeira oposição no atual contexto. Não somente sua legenda obteve determinantes 49 cadeiras no Riksdag, onde a esquerda conta com 158 cadeiras e o centro-direita com 142. Mas foi ele o responsável pela derrota do governo liderado pelo Partido Moderado no domingo. Segundo pesquisas, 29% de eleitores do Partido Moderado e 16% dos social-democratas optaram pelo DS, agremiação que teria atenuado sua retórica extremista. Em entrevista a CartaCapital, o analista político Andreas Johansson Heino, cientista político do think tank Timbro, avalia a mudança do DS: “Trata-se de um partido democrático e nacionalista que se tornou muito mais eficaz na mobilização da opinião anti-imigração. A legenda tem uma história com raízes que remontam ao racismo e até mesmo a alguns círculos neonazistas no final de 1980, e esse fato ainda é motivo de preocupação para eles”. E acrescenta: “Mas hoje não é um partido antidemocrático e não é, pelo menos se você olhar para o programa e propostas políticas, um partido racista”. Racista ou não, durante a campanha uma candidata do DS teve de renunciar quando fotografada com uma braçadeira nazista.

Akesson, por sua vez, não deixou de criticar a política de imigração liberal em um país onde a população de imigrantes é uma das maiores da Europa. Segundo o líder do DS, numerosos imigrantes seriam responsáveis por crimes e se aproveitariam do generoso Estado de Bem-Estar Social. Sondagens indicam que as campanhas do DS anti-imigração e a favor da ordem e respeito à lei, bem como das propostas no campo da assistência médica, atraíram também sindicalistas, agricultores e desempregados em um país com um nível de desocupação de 8%. Segundo Heino, o debate travado sobre imigração durante a campanha eleitoral “foi muito limitado, e só incluiu argumentos morais para uma política de asilo humanitário”. E conclui: “Não houve sobre a integração ou segregação questões importantes que foram exploradas com sucesso pelo DS”.

O DS e a esquerda exploraram outros temas responsáveis pela derrota de Reinfeldt e a vitória de Lofven. Uma economia pós-industrial dificilmente poderá financiar o Estado de Bem-Estar Social, os benefícios para idosos, escolas públicas. Sob Reinfeldt, houve austeridade, os preços dos imóveis subiram e a desigualdade aumentou. Com as privatizações vieram escândalos em escolas privadas, e o nível de educação sofreu uma considerável queda, conforme pesquisas educacionais. Por essas e outras, a extrema-direita assume um papel decisivo na perspectiva do futuro imediato.

*Reportagem publicada originalmente na edição 818 de CartaCapital, com o título "Vitória de quem?"