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Número 818,

Cultura

Brasiliana

HM, outra vítima do Netflix

por Ana Paula sousa — publicado 28/09/2014 07h49
A HM, uma das mais completas e tradicionais videolocadoras de São Paulo, fecha as portas
Anna Carolina Negri
HM Video

O acervo da HM Video reúne clássicos raramente encontramos em concorrentes, um panorama excepcional do melhor cinema do mundo

"Assista a séries de tevê e filmes quando quiser, onde quiser. Planos a partir de 17,90 reais ao mês.” A página da Netflix na internet explica em parte a ausência de clientes, numa tarde de sábado, na HM Home Vídeo da Praça Vilaboim, em Higienópolis. Na fachada de uma das mais tradicionais videolocadoras de São Paulo, os banners dos lançamentos cederam lugar a uma faixa que antecipa o futuro do negócio: “Passo o ponto”.

A mensalidade do serviço de streaming equivale a dois aluguéis na HM. Um ano depois de ter cerrado as portas da filial da Rua Marquês de Itu, em Santa Cecília, Hermínio Paschoal Filho decidiu pôr fim ao negócio nascido como videoclube e próspero nas eras de ouro do VHS e do DVD.

Apesar de o serviço de locação continuar disponível, a HM parece agora uma loja. Além de filmes, muitos e incríveis, é possível comprar uma cristaleira (1,2 mil reais), poltronas (400), uma mesa (800) e objetos-fetiche do universo do entretenimento, como um boneco Topo Gigio trazido da Itália (480).

A HM sempre foi um lugar de achados. Ou, se preferirmos, de filmes perdidos. Mel Brooks? Frank Capra? Otto Preminger? John Ford? Stanley Kubrick? David Lean? Samuel Fuller? Na seção de clássicos norte-americanos não falta ninguém. Nem nada, pois a seleção não se restringe às obras mais significativas dos diretores.

Se há, de Alan Parker, os obrigatórios O Expresso da Meia-Noite (1978) e Coração Satânico (1987), tampouco falta Bugsy Malone: Quando as metralhadoras cospem (1976), filme de gângster interpretado só por crianças, que traz Jodie Foster, menina de tudo, como uma cantora de cabaré.

Também de tirar o fôlego é a seção dedicada aos italianos. Extensa, a prateleira de Roberto Rossellini vai do conhecidíssimo Roma, Cidade Aberta (1945) ao pouco visto Francisco, Arauto de Deus (1950). Perto de Fellini, Visconti e Antonioni vemos as chanchadas protagonizadas por Lando Buzzanca.

À venda, por 25 reais, encontram-se raridades como O Testamento do Dr. Cordelier (1959), de Jean Renoir, Caminhos Perigoso (1973), terceiro filme de Martin Scorsese, Que Viva México! (1931/1979), o épico de Eisenstein concluído por Grigori Aleksandrov, e Os Olhos sem Rosto (1960), clássico do cinema fantástico francês.

Não seria nada difícil preencher essas duas páginas com os tesouros da HM. Assim como não é difícil entender a razão pela qual, apesar da vasta oferta de audiovisuais no mundo digital, alguns moradores de Higienópolis se sentem órfãos.

Ainda não se sabe o destino desse acervo precioso. Sabe-se, porém, que, coletivamente, deixará de existir. Procurado por CartaCapital, o proprietário da HM não quis dar entrevista. Disse protagonizar uma história triste, mas comum. E mais do que conhecida. De fato.

O fim da era das videolocadoras tem dois marcos: a entrada dos varejistas no negócio de DVDs e a pirataria. Enquanto, na Europa e nos Estados Unidos, a venda direta ao consumidor era a base do negócio, o mercado brasileiro de home vídeo estruturou-se a partir da locação. Quando o consumidor passou a ter acesso a DVDs piratas e a títulos por 9,90 reais nas Lojas Americanas e afins, o mercado começou a cambalear.

Entre 2003 e 2006, havia 12 mil locadoras no País. Em 2008, o número havia despencado para 8 mil. A essa altura, a indústria ainda enxergava a salvação no blu-ray, mas o tempo mostrou que a concorrência com o download e os serviços de vídeo on demand, entre eles Netflix, Now e Apple TV, seria fatal. Isso sem falar na tevê por assinatura, que saltou de 6,3 milhões de assinantes, em 2008, para 20 milhões, em 2014.

A partir de 2008, a União Brasileira de Vídeo deixou de computar, ou de divulgar, o número de videolocadoras existentes. Hoje, a associação chama-se UBV&G, com o G de games.

Luciano Damiani, presidente do Sindicato das Empresas Videolocadoras de São Paulo, estima que haja pouco mais de mil locadoras no estado. Nos tempos áureos, eram 5 mil. Damiani é, ele próprio, um dos sobreviventes: “Saí de um espaço de 380 metros quadrados e fui para um de 120. Agreguei alguns serviços. Vendemos Coca-Cola, games e, agora, abri para semijoias e algumas roupas”.

Ao saber do iminente fechamento da HM, Damiani mostra-se surpreso. Do alto de seus 30 anos de mercado, constata: “No auge dos DVDs piratas, o maior número de fechamentos foi na periferia. Agora, com os serviços pagos, começam a ser atingidas as lojas dos bairros de maior poder aquisitivo”.

Mudam os tempos e as tecnologias, mudam os hábitos e as paisagens, ficam os filmes. Só não se sabe mais exatamente onde.

*Reportagem publicada originalmente na edição 818 de CartaCapital, com o título "Outra vítima do Netflix"