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Número 818,

Cultura

Centenário

Lupicinio Rodrigues, a voz das desilusões amorosas

por Tárik de Souza — publicado 05/10/2014 08h04
No teatro, no cinema e na voz de grandes intérpretes, a música homenageia o eterno boêmio militante
Reprodução
Lupicínio Rodrigues

Lupicínio Rodrigues, na imagem de capa do álbum "Coisas Minhas"

Esculpido em bronze, Lupicinio Rodrigues terá até o fim do ano mesa cativa diante do Centro Municipal de Cultura que leva seu nome, no bairro da Ilhota, onde nasceu, como parte do projeto Lupi 100 Anos de Amor e Dor da Prefeitura de Porto Alegre. Na cidade, o teatro rebobina sua trajetória em Lupi, o Musical – Uma Vida em Estado de Paixão, direção de Artur José Pinto e Mathias Behrends. No cinema, ainda não lançado, Nervos de Aço, longa ficcional, dirigido por Maurice Capovilla, inspira-se em suas composições. Uma delas, Esses Moços (pobres moços/ ah, se soubessem o que eu sei/ não amavam/ não passavam/ aquilo que já passei), condimenta a trilha do recente filme A Despedida, de Marcelo Galvão.

Sucesso a partir de outra de suas músicas, Se Acaso Você Chegasse, em 1959, a intrépida Elza Soares celebra, há meses nos palcos, o compositor de repertório sumarizado na antologia recém-lançada em CD Lupicinio Rodrigues 100 Anos. Aninham-se na seleção de Gal Costa, Moreira da Silva, Elis Regina e Dalva de Oliveira a Beth Carvalho, Elizeth Cardoso, Doris Monteiro, Ângela Maria e Cauby Peixoto, atestado da abrangência de sua lira, ancorada nos embates amorosos. “Enquanto outros compositores de música popular buscam e rebuscam a letra, Lupicinio ataca de mãos nuas, com todos os clichês da nossa língua e chega ao insólito pelo repelido, à informação nova pela redundância deslocada de seu contexto”, escreveu o poeta concretista Augusto de Campos num ensaio sobre o compositor no livro Balanço da Bossa e Outras Bossas (Editora Perspectiva, 1968). Numa reversão de expectativas sociais, o negro ex-bedel da Faculdade de Direito da UFRGS, entre 1935 e 1947, passou a ser estudado por eruditos e virou tese de historiadores no livro Melodia e Sintonia em Lupicinio Rodrigues – O Feminino, o Masculino e suas Relações, de Maria Izilda S. de Matos e Fernando A. Faria (Bertrand Brasil, 1996).

Um dos 21 filhos de Francisco Rodrigues, porteiro da Escola de Comércio, Lupicinio, enquanto estudava, era aprendiz de mecânico e menino de recados. Rebelde a tais atividades, foi alistado no Exército pelo pai aos 15 anos, com documentos falsificados. Um ano antes, escolado na boemia e na música, compôs a marchinha Carnaval para o Cordão Predileto. Em Santa Maria, em 1933, agora soldado, amargaria a primeira aguda dor de cotovelo (termo atribuído a ele) ao ser preterido pela eleita, Inah. Da rejeição teriam resultado torturadas canções como Nervos de Aço (eu só sei que quando a vejo/ me dá um desejo de morte e de dor), faixa-título do disco de Paulinho da Viola, de 1973, também acometido, décadas adiante, por abrasiva desilusão amorosa.

Ainda desconhecido, Lupicinio teria recebido elogios de Noel Rosa numa noitada, em excursão gaúcha, em 1932. Três anos depois, era premiado por Triste História, em concurso do Centenário da Revolução Farroupilha. Seu parceiro, Alcides Gonçalves, gravou o samba e fez o nome de Lupicinio estrear em disco, em 1936, com outra da dupla, Pergunte aos Meus Tamancos.

Compositor e cantor, Gonçalves rompeu a aliança quando o então Rei da Voz, Francisco Alves, gravou o estrondoso Cadeira Vazia (não lhe darei carinho nem afeto/ mas pra se abrigar podes ocupar meu teto/ para se alimentar pode comer do meu pão) e seu nome foi omitido. Antes dele, coube a outro parceiro, o carioca Felisberto Martins, com bom trânsito nas gravadoras, projetá-lo no mercado da música, no raro sincopado Se Acaso Você Chegasse, na voz de um iniciante Cyro Monteiro, em 1938. Numa curta passagem pelo Rio, no ano seguinte, Lupicinio enfrentou o cipoal de vaidades da era do rádio nas mesas do mítico Café Nice. Foi admitido na confraria por Ataulfo Alves, Wilson Baptista, Ary Barroso e o referido Chico Alves, embora seu rival Orlando Silva tenha emplacado antes outro petardo do novato, Brasa (você parece uma brasa/ toda vez que eu chego em casa/ dá-se logo uma explosão).

De volta à sua trincheira, o boêmio militante, futuro sócio de bares com amigos, como outro parceiro carioca, Rubens Santos, tornou-se um caso raro de astro de brilho nacional acantonado fora do eixo Rio-São Paulo. Mas pode não passar de lenda a propagação de suas músicas a partir dos cabarés do cais de Porto Alegre, adverte o músico e pesquisador Arthur de Faria, no ensaio A Fenomenologia da Cornitude, publicado no site Sul 21. A argamassa de seu longevo êxito foi o lamaçal das paixões politicamente incorretas, esculpidas em sambas-canção em que Lupicinio tangenciou o brega com cinzel de ourives. Como Sozinha, no vozeirão laminado de Jamelão, um de seus mais farpados intérpretes, na qual descreve a traição de uma ex-favelada com o doutor, chamado a curar os seus bichos-de-pé. À cena grotesca, o acurado contista do banal, como outro Rodrigues, a quem é comparado, o teatrólogo Nelson, imprime distanciamento brechtiano (Assim me falou um pobre coitado, matuto, chorando) e arremata de trivela: se pede uma flor/ e a gente lhe dá/ ela exige uma estrela/ e se por acaso, ela não obtê-la/ se vai com o primeiro homem que lhe der.

Dramalhões de tal calibre, todos inspirados em aventuras amorosas do autor, amigos e conhecidos, teriam provocado até suicídios, após as estocadas poéticas de Vingança (tu hás de rolar como as pedras/ que rolam na estrada/ sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar), na voz tonitruante de Linda Batista, em 1951. O romantismo de baixos teores da bossa nova, na década seguinte, revogou tais arroubos, a despeito de o Lupicinio intérprete, com vários discos gravados, ter sido um discípulo do minimalismo de Mário Reis.

Mas foi João Gilberto, em especial na TV Tupi, em 1971, quem o reabilitou numa releitura confidente de Quem Há de Dizer. Na toada Felicidade (o pensamento parece uma coisa à toa/ mas como é que a gente voa/ quando começa a pensar), Caetano Veloso, em 1974, encarregou-se de mostrar a face regionalista do autor de mimos pampeiros como Cevando o Amargo (com Piratini), Jardim da Saudade (chancelado pelo Rei do Baião Luiz Gonzaga), além do hino do Grêmio, regravado por torcedores contemporâneos como Vitor Ramil e Borghettinho. Há ainda guarânias, valsas e marchinhas carnavalescas, entre as 286 composições meticulosamente compiladas no Almanaque do Lupi, programado para o centenário pelo pesquisador Marcello Campos.

Intuitivo absoluto, artesão sonoro munido apenas de uma caixa de fósforos, Lupicinio teve a musicalidade avalizada por regravações de Paulo Moura, João Donato, Zé Menezes, Joel Nascimento, Bocato, Lea Freire e o Milewski Swing Quartet, do violinista polonês naturalizado brasileiro Jerry Milewski no CD duplo Lupinstrumental, de 1996. Sua poesia de veias abertas cativou roqueiros como Arnaldo Antunes (Judiaria) e Thedy Corrêa, do grupo gaúcho Nenhum de Nós, no tributo eletrônico Loopcinio (2005).

Mas ninguém mergulhou tão fundo nas obsessões do compositor quanto o vanguardista Arrigo Barnabé. Em gravação na Casa de Francisca, em São Paulo, lançada, em 2011, no DVD Caixa de Ódio – O universo de Lupicinio Rodrigues, ao lado de Paulo Braga (piano) e Sergio Espíndola (violão, baixolão), ele dramatiza 18 canções do compositor. “Por essa observação penetrante do ser humano nas situações-limite da dor amorosa, por esse humor que permeia as canções, um humor voltado para a ironia e o sarcasmo, por tudo isso, estava atravessada a vontade de cantar Lupicinio”, escreveu Arrigo no encarte. Quarenta anos após a morte do compositor gaúcho, esta ainda parece ser uma pulsão capaz de varar latitudes estéticas e temporais.