Você está aqui: Página Inicial / Revista / Dicionário eleitoral (para ingênuos) / Dias muito difíceis
Número 818,

Internacional

Análise / Wálter Maierovitch

Dias muito difíceis

por Wálter Maierovitch publicado 22/09/2014 03h47
Ao contrário da rede Al-Qaeda, o ISIS é um Estado terrorista, plantado dentro de fronteiras determinadas
Isis

O estado terrorista Isis conta com 200 mil combatentes fixos, segundo a CIA

Em maio de 2011, 12 fuzileiros da Navy Seals eliminaram no Paquistão Osama Bin Laden. No muro do quartel dessa tropa de elite está pintado o seguinte mote: “O dia mais fácil foi ontem”.

Com dias mais difíceis, o presidente Barack Obama tem pela frente a organização terrorista chamada Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS), desplugada da rede Al-Qaeda e guiada por um sanguinário conhecido pelo nome de guerra Abu Bakr al-Baghdadi. Essa organização promove, também, o genocídio religioso contra cristãos e curdos de fé yazide.

Ao contrário da Al-Qaeda, o ISIS está estabelecido em território determinado, de Mossul (norte do Iraque) a Alepo (Síria) e de Rutba (sul do Iraque) à região síria de Deir az-Zor. A lembrar o coroamento de Napoleão em Notre Dame, o iraquiano Al-Baghdadi, 43 anos, se autoproclamou, em junho, e na mesquita Al-Nuri de Mossul, califa do ISIS. Os seus atuais domínios têm o tamanho da Bélgica: um terço do Iraque, parte da Síria e 27 cidades. Num futuro próximo, pretende expandir-se pelo Norte da África (Magreb), todo o Iraque e a área do Mediterrâneo Oriental, sem se privar da Jordânia, Palestina, Líbano, Chipre e Israel. Por isso, o premier israelense, Benjamin Netanyahu, já apoia Obama e os EUA, e os 007 da CIA e do Mossad estão a trocar informações.

Diferentemente da Al-Qaeda, que recebe auxílio financeiro externo, o ISIS conta com fontes geradoras de renda e inclui venda de petróleo, eletricidade e distribuição de águas represadas do Tigre e do Eufrates. Todos os dias fatura diariamente 1 milhão de dólares com a venda de petróleo dos tomados poços iraquianos do norte, como o de Zumar. Não faltam ações sociais a carentes sunitas. Al-Baghdadi, que gosta de ser chamado de Califa Ibrahim (prenome de nascimento), foi informado da expulsão do Estado Islâmico da rede alqaedista por Al-Zawahiri, sucessor de Bin Laden e que pertenceu, como Al-Baghdadi, à Irmandade Muçulmana. Na Síria, o ISIS combate a ditadura Bashar al-Assad desde 2012 e Al-Baghdadi passou a provocar e intimidar o Ocidente ao perceber o recuo aos apoios bélico-financeiros a todos os grupos jihadistas sunitas independentes empenhados em derrubar o ditador sírio sustentado pela minoria de fé alauita.

Segundo a CIA, o Estado Islâmico conta com 200 mil combatentes fixos e esse contingente é reforçado por cerca de 15 mil jihadistas estrangeiros, de 80 diferentes nacionalidades: a Itália e a Inglaterra descobriram  jiadistas entre os  seus residentes (muitos com passaporte da União Europeia), e eles, com frequência, deslocam-se para combates temporários no Médio Oriente.

Para os serviços europeus de inteligência, esse quadro mostra o risco de esses jihadistas, quando na Europa, perpetrarem atos terroristas. O temor ocidental aumentou depois da fala do porta-voz Abu Mohammad al-Adnani, com ameaça de atacar pela primeira vez os Estados Unidos e a Europa. De se acrescentar às provocações e intimidações decorrentes das três recentes decapitações: dois jornalistas americanos e um operador humanitário escocês. Enquanto suas cabeças rolavam pelas areias de um desconhecido lugar do deserto sírio, as redes telemáticas dedicadas ao ciberterror faziam a difusão desses atos bárbaros. O Estado Islâmico ainda mantém em cativeiro perto de uma dúzia de ocidentais e avisa que novas cabeças vão rolar.  No 13º aniversário dos ataques ao Pentágono e às Torres Gêmeas de Nova York, Obama anunciou que os EUA promoveram ataques aéreos destruidores contra o ISIS. Tudo sem o envio de soldados para luta em terra. Aliás, um cuidado para não repetir a aventura de Bush júnior em 2003.

Segundo especialistas, apenas ataques aéreos não serão suficientes. Por isso, projeta-se treinar e armar tribos sunitas confiáveis e curdos, a contar com a pressão do curdo Fouad Massoun, presidente do Iraque. O apoio já está acertado com os países do Golfo, ONU, Liga Árabe e União Europeia. Enfim, com a ressalva feita pela Rússia, de todos os países presentes na Conferência de Paris realizada na segunda-feira 15.

A Rússia apoia apenas a luta contra o terrorismo no Iraque, até para justificar a sua contra os chechenos. Para o seu aliado sírio Assad, exige o aval do Conselho de Segurança da ONU, onde tem poder de veto. O Irã, não convidado para o encontro parisiense do Quai d’Orsay de religião xiita, tem interesse em combater o Estado Islâmico, ou melhor, uma organização sunita wahabita interessada em estender os seus domínios por terras persas. Depois da Conferência de Paris, já se fala na costura de uma proposta americana a Assad, no sentido de governar apenas nos territórios alauitas, que são bem delimitados desde os tempos da sangrenta ditadura do seu falecido pai. Na prática, uma secessão na Síria. Pano rápido: “O dia mais fácil foi o de ontem”.

registrado em: , , ,