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Número 817,

Sociedade

Futebol

Vamos em frente

por Afonsinho publicado 17/09/2014 11h32, última modificação 17/09/2014 11h33
A proliferação de teóricos do futebol e o culto às estatísticas vêm, desconfio eu, da mentalidade de 1964
JEFF ZELEVANSKY / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP
Dunga

Dunga tem salvado a pele. Há bons auspícios, mas falta o País enfrentar de vez a cartolagem

Dunga tem salvado a pele. Há bons auspícios, mas falta o País enfrentar de vez a cartolagem.

Apesar do esforço da “mídia”, há pouco a se falar em matéria de futebol, mesmo com o começo da temporada europeia de clubes e seleções. Salva a pátria o conjunto de vitórias alcançadas pelos esportes olímpicos. Tome estatística de tudo quanto é dado, 100% de um, dois jogos ou jogadas etc. O que isso pode significar?

Extraordinária a declaração do capitão da Seleção de basquete, Marcelinho Huertas, num arroubo de espontaneidade em meio à campanha na Copa do Mundo da Espanha: “Outros fatores determinantes numa partida são invisíveis aos olhos das estatísticas”. Abre assim um clarão nesta hora de atordoamento em que a Copa do Mundo de Futebol nos deixou.

A invasão dos teóricos propiciada pelo golpe militar nos trouxe a esse ponto. Não se trata de menosprezar as estatísticas, as teorias, tão necessárias, mas embaralharam-se as cartas e as prioridades foram invertidas, gerando confusão.

São igualmente importantes as estratégias e a preparação física, mas em primeiro lugar vem o talento. Prepara-se um jogador de qualquer esporte para o seu jogo; depois vêm os outros fatores. Antes de todos eles, porém, vem o estado emocional. Sabemos o que isso significou na Copa de 2014, ainda mais por ter sido disputada em casa. É o sentimento, feeling, para eles não dizerem que não entenderam. Só pensam em termos de “marquetingue”, mas é indispensável.

Assim como o presidente do São Paulo já se manifestara insatisfeito, seu colega santista mostrou em entrevista de televisão sua discordância com o calendário absurdo da CBF, a quem só interessa a Seleção que administra como um clube próprio. Sai jogando em qualquer buraco ao sabor dos interesses dos financiadores. Tira os principais jogadores dos clubes, que perdem técnica e financeiramente, indo parar às vezes no rebaixamento.

Outra iniciativa auspiciosa para nossa inquietação vem dos diretores de cinema que programaram um filme sobre os 100 anos (de novo essa data perigosa) da nossa Seleção e ficaram travados pelo “Mineiraço”. Dando a volta por cima, vão aprofundar suas pesquisas, que também podem ser preciosas para ajudar a encontrarmos o nosso rumo. O objetivo passou a ser, segundo seu diretor, “refrescar a memória dos que viram o futebol brasileiro em seus melhores dias e mostrá-lo aos que não tiveram essa oportunidade”. Fundamental para seguirmos caminhos firmes, diferentes desses pantanosos que temos trilhado.

Destaque sim, por que não, para os resultados da Seleção de Dunga em seu recomeço. Independentemente da necessidade de planos de médio e longo prazo, o gaúcho sabe como funcionam as coisas por estes lados e trata de salvar a pele. Zagalo aguentou-se por muito tempo. O que me espanta é a facilidade com que se aceita o corpo mole da cartolagem. Só quer ganhar tempo, ir deixando o marasmo ir tomando conta. Necessário juntar as manifestações de insatisfação esporádicas que acontecem aqui e acolá.

Ninguém acredita no que está aí, tampouco se expõe diante do poder manipulado que não assume sua responsabilidade ante o estado de coisas em que o Esporte se meteu. O futebol, entretanto, tem uma força muito grande junto à população e uma capacidade de mobilização poderosa.

Não deve estar contente o sistema de comunicação, movido a patrocinadores que não gostam de jogar dinheiro fora. Dão sinais de tirar o cavalo da chuva. Nada se falou da anunciada reunião da Globo com os financiadores e clubes marcada para o dia 29 de agosto. Alegando problemas da empresa, a patrocinadora do Fluminense capou a verba. Não sei, não... Muita água deve estar rolando por baixo da ponte.

O torcedor vai inflando seu descontentamento a cada vez que acontece um joguinho de maior apelo e os ingressos são majorados. Antes disso, implora-se aos pagantes que compareçam para empurrar na marra times medíocres. Cúmulo da exploração. Os ditos esportes olímpicos vão crescendo na motivação da Olimpíada em 2016. Aumenta o número de medalhas, o que é ótimo, mas suas federações não estão livres dos problemas crônicos.

Depois dos bons resultados nos Jogos Olímpicos da Juventude em Nanquim, na China, agora as conquistas do basquete quebram tabus importantes. O que vier é lucro. Magnano, o técnico argentino, está dando certo. Bom para afastar os corporativistas de plantão contentes com o insucesso do hermano. São boas as notícias sobre a Lei de Responsabilidade no Esporte, os desentendimentos entre as partes são positivos, porque mostram pontos que precisam ser bem resolvidos. Negociação é o forte deles, quanto mais aprofundamento, melhor.