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Número 817,

Política

Pesquisa

São Paulo garante a posição de Marina

por Marcos Coimbra publicado 12/09/2014 16h21, última modificação 18/09/2014 19h21
O eleitorado está, em geral, imóvel em suas posições; Marina tem conquistado bastiões do PT e do PSDB em São Paulo, mas é preciso verificar se o apoio vai virar voto
Arte: CartaCapital
Corrida eleitoral

A nova rodada da pesquisa CartaCapital/Vox Populi permite analisar dois aspectos centrais da eleição deste ano. O primeiro é perceptível de fora, quando comparado a outros. O segundo é interno e pode ser identificado quando o levantamento é analisado em detalhes.

Trata-se de uma eleição diferente. Nas sucessões presidenciais anteriores, o eleitorado movimentou-se com nitidez ao longo do ano da disputa e intensamente nos meses finais. Nesta, a regra é de quase imobilidade.

A afirmação pode soar estranha a quem observa uma mudança nas intenções de voto ocorridas depois da morte de Eduardo Campos e a oficialização de Marina Silva no posto de candidata do PSB. Mas, diante do desempenho da ex-senadora no início do ano, ela basicamente ocupou o espaço que lhe cabia àquela altura. Os 28% de agora são idênticos aos 27% obtidos em pesquisa de abril do instituto Datafolha.

Tal qual Aécio Neves. O tucano registra 15% agora. Em abril, em cenário com as mesmas adversárias de hoje, conquistava 16% das preferências. E Dilma Rousseff? Há seis meses, diante de Marina e Aécio, ficava com 39%. Agora está com 36%. Pode haver imobilidade maior?

O mais relevante: da terceira semana de agosto para cá, os três candidatos permanecem no mesmo lugar. Nos últimos 20 dias, movimentaram-se um pouco, ora para baixo, ora para cima, mas sem mudar de patamar e sempre na margem de erro.

Poderíamos dizer que a eleição está “congelada” desde uma semana após a morte de Campos, com as intenções de voto imobilizadas quase exatamente no nível de seis meses atrás. A candidatura de Marina Silva, apesar da vasta exposição na mídia, pouco mexeu com o espírito do eleitorado. As intenções de voto no primeiro turno são hoje iguais àquelas de há três semanas, idênticas às de há seis meses e parecidas àquelas do ano passado, o que sugere que a “comoção” causada pelo acidente pode ser considerada irrelevante e que a “onda Marina” é um fenômeno sem novidade.

Essa imobilidade contrasta com a dinâmica de eleições anteriores, todas marcadas por fortes movimentos do eleitorado, especialmente depois de entrar no ar a propaganda eleitoral gratuita. Neste ano, apesar de transcorrida metade do período de propaganda, os eleitores continuam parados no mesmo ponto.

Tal paralisia torna imprevisível a eleição. Para onde vão as significativas parcelas de eleitores inertes, se e quando começarem a se mexer? Se nenhum dos 11 candidatos no páreo os empolgou até o momento, como vão decidir o voto?

O segundo aspecto mais relevante da pesquisa só é identificável quando seus resultados são esmiuçados. Tem a ver com o que acontece hoje com as preferências dos eleitores do estado de São Paulo.

A importância do voto paulista pode ser medida por meio de uma conta simples: qual seria o resultado nacional se não incluíssemos na análise os dados de São Paulo? Ou o que ocorreria se o estado fosse “neutro”, isto é, se estivesse perto da média do restante do País, sem puxar para cá ou para lá o resultado das demais 26 unidades da Federação?

No primeiro turno, Dilma Rousseff iria de 36% para 40% e Marina de 28% para 25%, o que faria a vantagem da petista sobre a adversária quase dobrar, de 8 pontos porcentuais para 15. Como Aécio ficaria nos 15% e a soma dos demais oponentes mal ultrapassaria 1%, a presidenta, com os 40% alcançados nessa hipótese, poderia até pensar em uma vitória logo no primeiro turno.

É nas intenções de voto no segundo turno que se percebe, porém, o impacto da situação em São Paulo. O empate entre a ex-senadora e a presidenta, uma com 42% e a outra com 41%, desaparece, pois Dilma lidera no cenário de segundo turno no restante do País. Se os eleitores do estado votassem como os demais brasileiros, Dilma teria hoje 46% no segundo turno, enquanto Marina receberia 38% dos votos.

O PT e o PSDB precisam compreender por que seus candidatos vão mal no maior estado da Federação, tão mal a ponto de Marina poder vencer a eleição no primeiro turno se apenas os paulistas votassem. Uma razão talvez seja óbvia: esta é a primeira eleição desde o fim da ditadura sem um nome do estado na disputa. Sem um paulista no páreo, o eleitorado local, parece, “perde o foco” e fica à deriva. Marina arrebanha apoios nos lugares mais inesperados, de bastiões tucanos no interior agrário a fortalezas petistas na Grande São Paulo industrial.

Da solução do mistério paulista depende boa parte do resultado da eleição. Os eleitores do estado vão fazer na urna o que dizem hoje nas pesquisas? Ou acontecerá algo semelhante ao ocorrido em 2012 na eleição para prefeito da capital? Será que aqueles que afirmavam votar em Celso Russomanno e no fim optaram por Fernando Haddad ou José Serra se comportarão de forma parecida agora? A “onda Marina” em São Paulo seria somente espuma?