Você está aqui: Página Inicial / Revista / Petrobras - O escândalo e a eleição / Flavio Dino, o “comuna” no Sarneystão
Número 817,

Política

Maranhão

Flavio Dino, o “comuna” no Sarneystão

por Miguel Martins publicado 16/09/2014 04h38
Líder nas pesquisas, Flávio Dino resiste aos impropérios da oligarquia local
Biaman Prado

De São Luís

Em um encontro com empresários e produtores rurais do Maranhão, na quarta-feira 10, os candidatos ao governo estadual Flávio Dino, do PCdoB, e Edison Lobão Filho, do PMDB, tiveram a oportunidade de apresentar suas propostas aos representantes do PIB no estado. Como é comum em eleições polarizadas, ataques mútuos dominaram boa parte do debate, entre discussões sobre os problemas de infraestrutura e os péssimos índices maranhenses de desenvolvimento humano, os piores do Brasil.

De fala mansa, Dino parece ser um candidato avesso aos truques de marketing. Líder das pesquisas realizadas por três institutos, deixa o corpo escorregar na cadeira como se estivesse no sofá de casa, enquanto espera sua vez de subir ao púlpito. Lobão Filho, com um blazer e uma camisa social desabotoada, faz pose de celebridade e arrisca piadas, apesar do nervosismo. Empresário, filho de Edison Lobão, ministro de Minas e Energia, o candidato da família Sarney assume ter mais experiências no mundo dos negócios do que na política. A veia capitalista explicaria um dos motes de sua campanha: acusar Dino de pretender implantar o comunismo no Maranhão?

Embora os seis partidos brasileiros que trazem os termos “socialismo” ou “comunismo” no nome tenham pouca fidelidade aos princípios marxistas, Lobão Filho procura alimentar um suposto temor do eleitorado com o risco da instauração de uma ditadura do proletariado no Maranhão. Dominado há quase 50 anos pelo mesmo grupo político, salvo breves períodos de interregno, a ponto de merecer a alcunha de “sarneystão”, o estado parece estacionado naquele mesmo ponto em que Sarney o conquistou: 1966, tempos da Guerra Fria.

Após o candidato do PCdoB defender a aproximação entre o governo e as entidades empresariais, o pemedebista fez a primeira troça. “Achei estranha a visão do comunista, vai contra sua própria filosofia. Entendo que o Estado deve ter o mínimo de participação na vida privada.” Mais à frente, Lobão Filho (foto ao lado) afirmou que o Maranhão precisa de “visão empresarial, não comunista”. Ao criticar um dado apresentado pelo oponente, disse compreender que “comunistas não entendam de tarifa de energia”. A plateia de empresários não se mostrou impressionada com o discurso. Os aplausos foram, porém, efusivos quando Dino, após comentar uma pesquisa que coloca o Maranhão e o Amapá entre os três piores estados para investimentos estrangeiros, perguntou: “O que ambos têm em comum?”

Parece existir um esgotamento em diversos setores da sociedade maranhense com a onipresença da família Sarney. A prevista aposentadoria do patriarca José no Amapá e da filha Roseana no Maranhão deixou o grupo político órfão de lideranças carismáticas. Em junho do ano passado, os protestos no estado foram motivados menos pelo preço das tarifas de transporte público e mais pela perenidade da oligarquia. O PSDB e o PSB desistiram de candidaturas próprias e compuseram uma chapa heterogênea com Dino. O Movimento Sem Terra e a federação estadual dos trabalhadores pressionam os petistas locais a aderir à candidatura do PCdoB, embora formalmente o partido apoie Lobão Filho.

A mobilização reflete-se nas pesquisas. Segundo o instituto Ibope, Dino tem 42% das intenções de voto, ante 30% do adversário, beneficiário da máquina estatal e dos inúmeros meios de comunicação comandados pelos Sarney e seus aliados. O levantamento foi realizado em parceria com a TV Mirante, afiliada da Globo, sob controle de Fernando Sarney. No Maranhão, o instituto costuma cometer erros. Por duas vezes, o Ibope cravou a vitória de Roseana no primeiro turno e acabou desmentido pelas urnas. Fora da órbita da TV Mirante, o instituto Exata, em parceria com a Federação das Indústrias, afere 56% para Dino e 27% para Lobão Filho. Segundo o Data M, o candidato do PCdoB soma 58,2%. Impressiona a diferença no total de eleitores indecisos entre os levantamentos. Seriam 18% do eleitorado, de acordo com o Ibope. E até três vezes menor, conforme os demais.

Os três principais partidos da coligação de Dino participaram do governo de Jackson Lago, eleito em 2006. Naquele ano, Dino tornou-se deputado federal pelo PCdoB, assim como o tucano Carlos Brandão, vice na atual chapa, e o pessebista Roberto Rocha, candidato ao Senado neste ano. A coligação atual, afirma Dino, começou a ser modelada quando o trio atuava na Câmara dos Deputados. Em 2009, o grupo sofreu uma derrota política após a cassação do mandato de Lago por abuso de poder econômico e político. Entre as denúncias, a compra de votos de quatro eleitoras por 100 reais chegou a ser posta em suspeição pelo magistrado do Tribunal Superior Eleitoral Marcelo Ribeiro, por terem as testemunhas assumido o crime de forma espontânea. Segunda colocada nas eleições de 2006, Roseana assumiu o cargo.

A passagem frustrada de Lago pelo Palácio dos Leões serve de alerta para o candidato do PCdoB. Nas últimas eleições, Dino amealhou quase 30% dos votos. No ano passado, seu grupo político passou a fazer encontros semanais com diversos representantes da sociedade civil. “Nossa expectativa é fazer parcerias com prefeituras, igrejas e sindicatos e criar uma rede de proteção e prevenir a capacidade de sabotagem mostrada pelo grupo de Sarney no mandato de Lago”, afirma.

Nestas eleições, Dino define-se como “síndico de condomínio”. Para manter a harmonia entre os integrantes da coligação, o candidato não declara voto a presidente, embora o PCdoB integre o governo Dilma Rousseff. Segundo Brandão, cada partido mobiliza-se de forma independente em defesa de seu presidenciável. “No início da campanha, surgiram alguns atritos nos palanques, pois um criticava a corrupção do PT, o outro atacava Eduardo Campos. Por isso, decidimos deixar a disputa presidencial em segundo plano.” Segundo a pesquisa Ibope/TV Mirante, Dilma é a preferida de 59% do eleitorado maranhense, mas o efeito Marina Silva não é desprezível. A candidata do PSB tem 25%. Aécio Neves alcança apenas 5%.

O trunfo de Lobão Filho na campanha é o apoio formal de Lula e Dilma, mas a adesão dos petistas locais à sua candidatura não é homogênea. Em 2010, o partido sofreu baixas após a direção nacional exigir o apoio à candidatura de Roseana. Neste ano, é nítido o movimento de alguns petistas em favor de Dino. O candidato a deputado federal Márcio Jardim usa um truque para mostrar ao eleitor sua opção. Nas urnas, seu número é 1365, uma combinação entre o 13 do PT e o 65 do PCdoB. O petista Chico Gonçalves, um dos mediadores entre a campanha de Dino e a de seu partido, afirma que derrotar o grupo de Sarney no Maranhão “não é uma questão política, mas humanitária”.

Já Lobão Filho se esforça para desvincular sua imagem do grupo de Sarney.  Seu programa de tevê exibe imagens de Lula, enquanto Roseana e o próprio pai ainda não deram as caras nas peças do partido. O candidato, que não atendeu aos pedidos de entrevista, fala abertamente em “renovar” o Maranhão. O mau desempenho na campanha deve ter estimulado a adoção da estratégia anticomunista. Em um panfleto distribuído em São Luís, o peemedebista é retratado como aquele que “tem fé em Deus” e acusa o outro lado de acreditar “no comunismo”. No verso do panfleto, há uma silhueta de Dino com a foice e o martelo estampados no peito. A campanha de Lobão Filho veiculou inserções na TV Mirante nas quais clama para os eleitores evitarem a transformação do Maranhão “no primeiro estado comunista do Brasil”. O canal de Fernando Sarney reforça a caçada. Entrevistadores da TV Mirante perguntaram a Dino se ele iria “implantar o comunismo”, caso eleito. Em resposta, o candidato do PCdoB reafirma sua religiosidade. No encontro com os empresários do Maranhão, chegou a citar a Bíblia em uma de suas intervenções.

Não bastassem os resultados negativos das pesquisas, Lobão Filho vê-se agora obrigado a rebater as acusações contra seu pai e a atual governadora, dois dos nomes citados por Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, na lista de supostos beneficiários de um esquema de propinas em contratos da estatal. No debate da quarta 10, o candidato fez uma promessa ousada. “Se ficar provado algo contra meu pai, eu renuncio na mesma hora.” A denúncia de Costa talvez tenha maior impacto nas eleições do Maranhão do que na corrida presidencial. Em 2010, um dos pilares da campanha de Roseana era a construção de uma refinaria da Petrobras no município de Bacabeira. A obra está paralisada, apenas com a terraplanagem concluída. Em abril deste ano, o Tribunal de Contas da União apontou irregularidades no projeto, que teriam causado um prejuízo de 84,9 milhões de reais à estatal.

Na terça 9, uma sessão da Assembleia Legislativa do Maranhão foi animada por ataques do deputado Rubens Pereira Júnior, do PCdoB, a Roseana e Lobão. O líder do governo na casa, Magno Bacelar, do PV, pediu aparte para lembrar que o PSB, aliado de Dino, também foi mencionado na denúncia. Em um momento cômico, Júnior parafraseou a canção Jorge Maravilha, de Chico Buarque, para tripudiar do colega. “O senhor não vota no Dino, mas sua filha vota.” As pesquisas internas do PCdoB apontam para uma adesão de 70% dos eleitores entre 16 e 34 anos.

*Reportagem publicada originalmente na edição 817 de CartaCapital, com o título "O 'comuna' no Sarneystão"