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Número 817,

Cultura

Literatura

Joseph Conrad vira bela HQ de paisagens espectrais

por Rosane Pavam publicado 22/09/2014 03h48
Catherine Anyango e David Zane Mairowitz adaptam 'O Coração das Trevas'; escravidão também foi explorada por Marcelo D’Salete em 'Cumbe'
Reprodução
HQ

Marcelo d'Salete traça em claro-escuro a poética da escravidão

Joseph Conrad terá sido, para Jorge Luis Borges, o maior romancista. O livro do autor polonês O Coração das Trevas, publicado quando Conrad contava 45 anos, em 1902, duas décadas após aprender a falar inglês, é tido como obra-prima da língua. A qualidade narrativa, em que cabe o aprofundamento de descrições psicológicas, faz dele “o mais intenso dos relatos que a imaginação humana concebeu”, como Borges o sentiu.

É um romance de sinceridades brutais. O protagonista Marlow, navegador do Congo na trilha sangrenta do marfim, à moda do próprio Conrad, respira o espírito de dominação que infectou com eugenia os anos 1800. Ele não escamoteia o racismo, ele o vive, e em seu íntimo teme pela humanidade que habita as vítimas negras. Teria sido melhor para sua consciência que os homens tratados como animais pelo comerciante Kurtz, que abusa dos que o idolatram, fossem realmente animais.

Por essa razão, para adaptar Conrad contemporaneamente, como provou Francis Ford Coppola em Apocalypse Now (1979), é preciso ver as trevas como um estado permanente em nós. Porque para prosseguir diante do massacre cotidiano dos desprotegidos faz-se necessário, em qualquer tempo, apagar o coração. É belo o entendimento que têm a desenhista Catherine Anyango e o roteirista David Zane Mairowitz da sujeição, nesta graphic novel cujos rostos e paisagens são esfumaçados (mais do que sangrentos, como em Coppola) e espectrais.

A partir de documentos, a escravidão negra também foi explorada pelo roteirista, ilustrador e mestre em história da arte pela USP Marcelo D’Salete. Cumbe é seu compêndio de pequenas ocorrências reais transformadas pela ficção. Sinônimo de quilombo em alguns países americanos, cumbe tem também os sentidos de sol, dia, luz, fogo e força nas línguas congo e angola. O livro em claro-escuro faz a poética dessa servidão no Brasil. São HQs pungentes, todas em algum momento voltadas para a realidade de amar sob o medo e na escuridão.

Coração das Trevas
Conrad, Anyango e Mairowitz
Veneta, 128 págs., R$ 39,90

Cumbe
Marcelo D’Salete
Veneta, 176 págs., R$ 29,90