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Número 817,

Sociedade

Memória

Enzo Peri boicota a CNV

por Redação — publicado 13/09/2014 04h20
O comandante do Exército age contra a Comissão da Verdade
José Cruz / Agência Brasil

Não é de hoje, a Comissão Nacional da Verdade e o Ministério Público Federal encontram obstáculos para esclarecer os crimes da ditadura por conta do silêncio das Forças Armadas. Recentemente, o procurador da República Sérgio Suiama descobriu a razão. Em ofício datado de 25 de fevereiro, o comandante do Exército, general Enzo Peri, proibiu os quartéis de repassar qualquer informação sobre o período. Todos os pedidos devem ser encaminhados exclusivamente ao seu gabinete.

O ofício foi usado pelo subdiretor do Hospital Central do Exército, coronel Rogério Pedroti, para negar ao procurador o acesso ao prontuário médico do engenheiro Raul Amaro Ferreira, morto na unidade em 12 de agosto de 1971. O documento poderia comprovar a suspeita de que Raul, preso pelos militares dias antes, não teria resistido às sessões de tortura.

Por considerar a medida ilegal, o Ministério Público Federal vai pedir à Procuradoria-Geral da República que ingresse com representação contra Peri. Após o caso vir a público, vítimas da ditadura e entidades como o Grupo Tortura Nunca Mais encaminharam uma petição à presidenta Dilma Rousseff, na qual solicitam a dispensa do comandante, por ele zombar “do ordenamento jurídico e da luta por memória, verdade e justiça”.

Segundo o Centro de Comunicação Social do Exército, Peri pretendia apenas “padronizar procedimentos, contextualizar os fatos, evitar o fornecimento de informações incompletas e atender o mais rápido possível às demandas”. Mas as barreiras permanecem. Convocado no fim de agosto para depor, o oficial da reserva José Conegundes do Nascimento, que atuou na repressão à Guerrilha do Araguaia, recusou-se a comparecer à audiência. Devolveu o ofício com um recado escrito de próprio punho: “Não colaboro com o inimigo”.