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Número 817,

Sociedade

Brasiliana

Coragem, por casamento gay e legalização das drogas

por Willian Vieira — publicado 15/09/2014 03h53, última modificação 15/09/2014 10h34
Maurício Moraes, candidato a deputado federal pelo PT, não está preocupado em ser eleito, mas em enfrentar o obscurantismo
Jonas Tucci
Maurício Moraes

O candidato em seu comitê em construção, na Rua Augusta

Em curiosa concordância com a típica assunção neopentecostal, o comitê político de Maurício Moraes fica às portas do Inferno. Mais especificamente no número 550 da Rua Augusta, São Paulo (em frente ao clube de nome sugestivo), onde gays e lésbicas, anarquistas e esquerdistas, prostitutas e boêmios têm seu lar: enclave ideal para o candidato a deputado que almeja representar todo o espectro de pesadelos do pastor Silas Malafaia e de Marco Feliciano (PSC), porta-vozes do conservadorismo que ele pretende enfrentar, e para quem “bichas e maconheiros” queimarão nas chamas do fogo eterno. Moraes não tem medo de inferno. “Estou pronto para peitar esses fundamentalistas”, diz o rapaz de 32 anos, os olhos verdes como os panfletos que entrega a quem passa. Ali está sua plataforma: pela descriminalização das drogas e o casamento homoafetivo.

As paredes de concreto aparente em parte cobertas por bandeiras arco-íris e da Jamaica, mostram as entranhas de uma candidatura em construção. Moraes nunca se candidatou. Decidiu tentar logo a vaga de deputado federal pelo PT entre 70 candidatos coligados. “A Câmara é o fórum correto”, diz. “E o PT ficou coxinha, precisa se oxigenar.” Enquanto o deputado Jean Wyllys, do PSOL, tornou-se o bastião solitário dos direitos LGBT e da descriminalização das drogas, o partido da presidenta Dilma Rousseff, graças às alianças com evangélicos no Congresso, diz , perdeu o protagonismo progressista. “Estava na hora de alguém fazer alguma coisa.”

Numa eleição definida por cifras, ele não tem nada a perder e solta o verbo. “É uma excrescência que uma candidatura como a do Andrés Sanchez gaste 15 milhões de reais, enquanto quem tem propostas de verdade não tenha 1 centavo.” Sua campanha custará 23 mil reais. “Quase tudo do meu bolso.” O PT pagou só os folhetos, diz. E houve o mecenas, um candidato a deputado petista (“teoricamente rival”) que lhe deu 10 mil reais. “Você toca em temas importantes que, infelizmente, não podemos mencionar por causa do público”, disse o político. Coube ao azarão os pepinos.

Com o dinheiro, Moraes alugou o espaço e pagou pelos vídeos que circulam nas redes sociais. “Eu fiz os roteiros.” Um deles começa assim: “Você daria remédio de maconha para a sua mãe?” É didático e provocativo. A campanha tenta mostrar, além da óbvia legalidade do casamento gay e dos benefícios da cannabis, o absurdo da legislação sobre drogas, que pune usuários e pequenos traficantes, superlotando cadeias e instaurando um ciclo dispendioso, econômica e socialmente. Seriedade e humor convivem. No material, cujo lema é #nareal, impera a gíria “4:20”, mundialmente conhecida entre maconheiros. “Eu queria sair como 13420, mas federal tem só quatro números”, brinca. “Aí ficou 1342 mesmo.”

O progressista veio “da roça”. Nasceu em Araçoiaba da Serra, interior paulista, onde se filiou ao PT em 2002. “Meus pais seguem na roça. Mas são  cabeça aberta.” Quando se assumiu gay, encontrou compreensão, assim como quando fez seu “outing político”. Há dois anos os levou para a Marcha da Maconha. “E foi de boa.”

Formado em jornalismo, Moraes trabalhou na Folha e no Estadão. Ninguém sabia que era petista. “Eu mantinha minha ação política localmente.” Foi ainda garçom em Londres (serviu até o primeiro-ministro Tony Blair) e assessor de imprensa, além de tentar ser diplomata. Na BBC, o destino bateu à porta: num evento, topou com o candidato petista ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha. Partilhou com ele seu anseio. E recebeu apoio à candidatura. A Executiva do PT acatou seu nome e suas propostas: o partido precisava de jovens progressistas. O apoio terminou aí.

Há algo de quixotesco na empreitada. Com apenas três apoiadores fixos, Moraes busca pessoalmente jovens nas portas das universidades, explica suas propostas, entrega folders, enquanto aposta nas redes sociais, com vídeos e pedidos de ajuda: mesmo assim, arrecadou só mil reais.

Sua campanha ilustra o status atual da política. Em um evento jovem repleto de gays, tomou o microfone e se apresentou. “A vaia se espalhou pela galeria”, conta. “Uma garota disse: ‘Sou fulana e você não me representa’.” Outros fizeram o mesmo. Moraes lamenta. “Essa intolerância mostra bem a criminalização da política.”

Mas rebateu: “Enquanto vocês jogam pedra na Geni, os evangélicos crescem 30%. Vamos perder tempo com esse tudo contra todos e deixá-los legislar sobre o nosso futuro?” Moraes suspira, seus olhos cansados a olhar os folders. “Eu sei que minha candidatura é incômoda e que a chance é pequena, mas ao menos sei que tentei e que deixei uma mensagem, uma marca.”

Por isso, quando sai às ruas ou faz reuniões, grava tudo com uma câmera, em um making off. Ao mostrar a dificuldade de vencer uma eleição só com propostas, a campanha se metamorfosearia em um libelo pela reforma política. Talvez já seja dividendo eleitoral útil o suficiente. “E sempre dá para voltar a Araçoiaba”, brinca.

*Reportagem publicada originalmente na edição 817 de CartaCapital, com o título Basta Coragem