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Número 816,

Sociedade

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Um passeio pelo maior evento de fitness na América Latina

por Willian Vieira — publicado 16/09/2014 04h42
Para um sedentário, a IHRSA é a visão do inferno. Em cada canto um grupo gasta mil calorias por hora com aparente prazer masoquista: sorrisos e gemidos coexistem
Debora Klempous
Feira fitness

Na moda de academia, o lema do setor: ficar saudável, sarado e rico

"Uhuuuu, não paraaa”, grita o instrutor, enquanto seu torso musculoso oscila da direita para a esquerda na parafernália que simula o esqui, mas lembra um aparelho de tortura medieval. Dez rapazes e moças brilhando de suor repetem o movimento, a sorrir. “Vocês nunca viram nada parecido”, diz a vendedora,  cuja barriga esculpida pelo ourives do sofrimento ziguezagueia entre as geringonças. “E é importado diretamente da Eslovênia!” A insondável relação do país com o mundo fitness atrai os curiosos. Fotografias do esfalfar alheio pipocam. Mas eles logo deixam o estande, trocando o Pro Ski Simulator pelas ninfetas a pular com mola nos pés feito cangurus ou as garotas em trajes de malha coloridos rebolando ao som da zumba. Num mundo de novidades tecnológicas e corpos esculturais, a atenção dura o tempo da sinapse.

Para um sedentário, a IHRSA, maior feira de “gestores de bem-estar” da América Latina, é a visão do inferno. Em cada canto um grupo gasta mil calorias por hora com aparente prazer masoquista: sorrisos e gemidos coexistem. É como se os donos das 22 mil academias de ginástica do Brasil, seus 2,8 milhões de alunos, centenas de milhares de instrutores e fornecedores do setor se concentrassem num único lugar para sorver o som ensurdecedor de dezenas de caixas com variações de house, e assim produzir suor, lágrimas e negócios – tudo ao mesmo tempo. Com tal cacofonia, qualquer um emagrece no grito. “A adrenalina acelera o metabolismo e queima gordura”, dizem os entendidos palestrantes, crachá no peito, enquanto bebericam amostras grátis de whey protein.

Aqui não é lugar de amadores. Pelos corredores do centro de convenções em São Paulo caminham gerentes atrás de aparelhos (como a estrutura para treino funcional a 14 mil reais), instrutores em busca de tendências (como os “circuitos aeróbicos” com cordas, alteres e paredes) e personal trainers querendo fazer a feira para faturar com os novos-ricos nos parques. “O funcional ao ar livre é a nova vibe”, crava Erick, braços de dureza metálica, olhos fixos em pesinhos com design de jujubas que fariam sucesso no Ibirapuera. “Ninguém mais aguenta o ambiente opressor da academia.”

E o que dizer do espaço dividido por duas empresas especializadas em rádio para academia? O volume é tamanho que a noção de equilíbrio desaparece – melhor segurar em um dos aparelhos de pilates do estande em frente e esperar. De ambos os lados do duelo, o bate-estacas, hegemônico nas academias, segue inclemente. “Temos várias programações, mas os gerentes em geral optam pelo pacote-padrão”, estertora a vendedora, pouco ciente, parece, de que a fonte do sofrimento de milhões é sua fonte de renda.

Para quem é do ramo, tudo parece plenamente normal. Esteiras e ergométricas são exibidas sobre um palco giratório quais objetos de desejo, enquanto três homens remam numa máquina que termina num contêiner de água e duas moças com calças prateadas seguem para a próxima sessão de exercícios em circuito, parando para ver as tendências da moda fitness: um festival de estampas de cobra e oncinha com laranjas e verdes radioativos saídos dos anos 90. Alheio à movimentação, um casal sobre molas passa ao lado, conversando sobre o calor do dia anterior.

“Chuta na cara!”, sugere o instrutor de Ladies Camp, treino para mulheres com alteres, barras, cordas e gritos trazido por ninguém menos que o Minotauro. E ele está ali, com o rosto marcado pelo MMA que decidiu converter em novo negócio no segundo mercado de academias do mundo. “Queremos trazer famílias inteiras para dentro da academia de artes marciais”, diz o peso pesado, 1,91 metro e 110 quilos. Ele tira fotos com fãs, faz ele mesmo o treino que tenta vender. E sorri. “É um mercado que dá dinheiro, né. E nós vamos lutar.”

Tanto afã se explica. O mercado nacional de fitness movimenta 5 bilhões de reais por ano e abriga, além de academias, fabricantes e vendedores de equipamentos, de roupas, suplementos e, claro, as boas e velhas subcelebridades. A imagem de Gracyanne Barbosa, o abdome parecido com um pacote de latas de cerveja, estampa um estande. São máquinas, afinal.

Um olhar atento revela a desconstrução cartesiana possível da academia. Num estande escolhe-se entre 16 cores para estofar os aparelhos; nos outros, variações intermináveis deles para braços, pernas, peito, tudo menos a cabeça. Há catracas, pisos e softwares;  e estruturas de ferro que vão de meio quilo a meia tonelada, de simples ergométricas à esteira que comporta cadeiras de rodas e sai por 100 mil reais (“É a Lamborghini das esteiras”, diz a vendedora), além dos apinhados estandes com bugigangas chinesas. No mais, a feira mostra o engenho humano para fazer os mesmos exercícios desde a Grécia Antiga com equipamentos, técnicas e preços distintos.

“Esse não é o dia mais feliz da sua vida?”, pergunta o professor de spinning, pedalando e falando sem pressa. Instrutores, aulas, técnicas – algumas inúteis, como o circuito com um skate que permite fazer todos os exercícios que se faria sem um skate –, para onde se olhe existe a vontade de ficar saudável, sarado ou rico. No fim do primeiro dia, o balanço é positivo. “Os chineses estão chegando”, informa o vendedor na fila da lanchonete. “Mas há espaço pra todos”, completa sua versão musculosa, o colega e voraz instrutor. “Bolo de chocolate, por favor.” É, ninguém é de ferro.

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