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Número 816,

Saúde

Pesquisas

O jargão estatístico

por Riad Younes publicado 05/09/2014 19h13
Retrospectivo, prospectivo, duplo-cego. O senso comum ainda não diferencia os métodos por trás dos dados de pesquisas. Mas deveria
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Pesquisas

Na próxima vez que for sugerido um tratamento, pergunte se existe algum estudo duplo-cego que confirme a eficácia

Na semana passada, assisti a uma entrevista muito interessante de um médico cientista a respeito de novas perspectivas no tratamento de câncer de pulmão. Foi transmitida em canal de notícias internacionais de grande exposição. Os telespectadores que assistiriam certamente seriam leigos em relação à medicina, e muito provavelmente aos métodos científicos e seus detalhes. Notei que o professor cientista usava, com grande frequência, dados estatísticos para comprovar suas afirmações.

Uso os mesmos argumentos quando apresento uma palestra em congressos e simpósios científicos, debatendo suas nuances com colegas. Fiquei pensando, no entanto, sobre quantos dos leigos com os olhos fixos na tela entendem os palavrões de estatísticas que são jogados, inadvertidamente, presumo, nos ouvidos desacostumados.

Será que diferenciam as implicações de médias, comparadas com medianas? Ou distinguiriam a importância de um estudo prospectivo de um retrospectivo controlado? E a sobrevida estimada de cinco anos, o que exatamente quer dizer? Sei que todos já sabem isso, mas não custa refrescar a memória. Mais ainda tentar traduzir ao leigo o que realmente o médico está dizendo quando fala de probabilidades e de riscos.

Antigamente, a experiência médica resumia-se ao acúmulo de casos na cabeça de um determinado profissional. Quanto mais ele os via, e deles lembrava, mais ele conseguia transmitir ao cuidado do paciente. Não era raro, décadas atrás, os doentes preferirem doutores velhos e de cabelos brancos. Maior chance de ter visto caso semelhante alguma vez na vida.

Tendo em vista o viés natural do ser humano, médico ou não médico, de se lembrar muito mais dos casos de sucesso do que daqueles complicados ou sem sucesso, os resultados muitas vezes não correspondiam a realidade alguma. Mais a impressão que o fato.

Começaram os acadêmicos a sugerir estudos de casos. Compilam-se dados de pacientes com doença semelhante e observa-se a evolução deles com esse ou aquele tratamento. Descobriu-se que o viés do médico em escolher o tratamento para o paciente era gigante. Alguém introduziu os estudos controlados, onde um grupo de pacientes compilados recebia um tratamento, enquanto outro grupo semelhante recebia uma terapia diferente. Ambos comparados, era possível ter uma ideia sobre a eficácia de um tratamento em relação ao outro controle.

Mas o viés médico continua lá, pois a escolha do tratamento para um paciente era ditada pela opinião do médico. Ficava difícil saber se os resultados eram melhores porque o tratamento era superior ou porque a escolha selecionou os doentes melhores. Um estatístico sugeriu a realização de estudos prospectivos, em que os pacientes são sorteados, com a mesma chance de caírem em um grupo ou outro. Aí sim, o viés da escolha do doente foi eliminado.

Persistiu, porém, a possibilidade de o médico, sabendo a qual tratamento foi submetido determinado paciente, ter uma interpretação mais otimista dos resultados. Mesmo inconscientemente. Depois dessas dúvidas, criou-se o rei das pesquisas médicas. Os estudos prospectivos, aleatorizados, duplo-cegos, onde nem o médico nem o paciente sabem qual tratamento está sendo administrado, até a pesquisa ser completada. Esse tipo de estudo tem o maior valor em termos de confiabilidade nos resultados.

Na próxima vez que for sugerido um tratamento, pergunte se existe algum estudo duplo-cego que confirmou sua eficácia. Apesar de nem sempre ser possível sua realização, é o mais eficiente e oferece as melhores informações sobre cada opção de terapia. A escolha fica mais esclarecida e os resultados mais reprodutíveis.

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