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Número 816,

Sociedade

Brasiliana

Padre Beto, o excomungado casamenteiro

por Cristina Camargo — publicado 17/09/2014 05h07
Padre Beto, expulso da diocese de Bauru, interior paulista, tem agenda lotada até 2016
Arquivo Pessoal
Padre Beto

Padre Beto consagra homossexuais, divorciados e casais atraídos por seus sermões modernos

Excomungado pela Igreja Católica em abril de 2013, o ex-padre Roberto Francisco Daniel, o padre Beto, ignora a proibição de celebrar cerimônias religiosas e é hoje um casamenteiro com agenda cheia até 2016. Desde agosto de 2014, quando voltou a celebrar casamentos à revelia da Igreja, já realizou ao menos 50 cerimônias, três delas entre casais gays, que encontraram no religioso a única forma de concretizar o sonho de receber uma bênção católica à união. “São celebrações como as que eu fazia na igreja, mas agora com mais liberdade.” Em geral, as cerimônias são realizadas nos fins de semana em bufês, salões de festa, chácaras e fazendas.

Além de gays, padre Beto dá a bênção a divorciados, casais que dividem o mesmo teto há muito tempo, noivos que querem casar fora de um templo da Igreja Católica ou a quem aprecia o estilo mais liberal dos rituais conduzidos por ele. No mês passado, viajou mais de 2 mil quilômetros para celebrar o casamento do funcionário público Igor de Oliveira Zwicker, 34 anos, e do designer Arthur de Oliveira Zwicker, de 23. A dupla mora em Belém, no Pará, e o convidou para celebrar a união. “Sempre sonhamos com um casamento no qual tivéssemos uma bênção religiosa”, conta Igor. “Somos tementes a Deus e acreditamos em um Pai que não faz acepção de seus filhos.”

O casal chegou a procurar um padre de Belém, mas este se negou a celebrar a união por ser contrária aos dogmas católicos. Em uma pesquisa na internet, encontraram o padre Beto, fizeram contato e adiaram o casamento para conseguir um fim de semana na agenda do excomungado.

“Foi um momento lindo, mágico”, descreve Igor. Padre Beto leu uma epístola de João e falou sobre o amor, como costumava fazer em suas missas lotadas de jovens antes de ser expulso da Igreja. Segundo um dos noivos, depois da cerimônia todos os convidados quiseram cumprimentar o “padre” e tirar uma foto de recordação.

O mesmo ocorreu no casamento do empresário Bruno José Alves com a bancária Tatiana Feltrin Alves. Moradores de São Paulo, o casal marcou o casamento em uma fazenda em Jaú, no interior. Recorreram ao ex-padre pelo fato de ele aceitar celebrar cerimônias ao ar livre e também por conhecerem os sermões nos quais ele prega o amor e defende a tese de que Deus está nos corações dos indivíduos e não nos templos. “Todo mundo gostou, ele toca as pessoas”, afirma o noivo sobre a cerimônia, realizada em julho. “O fato de não fazer mais parte da Igreja não incomodou. Nós o escolhemos pelo que tem a dizer.”

Nas redes sociais, a repercussão não é tão positiva. O ex-padre publicou fotos de um dos casamentos gays em sua página no Facebook e recebeu dezenas de críticas e ofensas. Grupos católicos não aceitam a sua defesa de uma Igreja mais progressista. É a mesma polêmica da época da excomunhão, provocada pelos posicionamentos do ex-padre na defesa dos homossexuais e na contestação de princípios conservadores da religião.

Fora da Igreja, padre Beto dá aula em duas universidades de Bauru e continua a ser chamado para debates, palestras e entrevistas. Cobra 400 reais por casamento e é o responsável pelos pedidos de agendamento, que chegam por telefone, e-mail e redes sociais. “Ainda me sinto padre. Mas agora sou o padre que deveria ser”, diz sobre a liberdade de exercer a religiosidade sem censura. “Estou muito à vontade, mais do que antes, quando pisava em ovos.”

Ainda assim, padre Beto luta na Justiça para cancelar a excomunhão. Perdeu a ação em primeira instância e prepara um recurso ao Tribunal de Justiça de São Paulo. “Não podem fazer o que fizeram comigo. Que a justiça seja feita. Todo mundo tem direito à defesa e ninguém pode ser exposto como eu fui.”

A diocese de Bauru, de onde o ex-padre foi expulso, informou que não vai comentar o assunto. Informou também que o caso está no Vaticano, que ainda não se pronunciou sobre a excomunhão.

O comportamento do padre Beto preocupa a Igreja Católica. Noivos com cerimônias agendadas antes da excomunhão foram informados a respeito da “clandestinidade” desses casamentos. Segundo um integrante da diocese de Bauru, as cerimônias realizadas pelo ex-padre não têm validade religiosa, pois o casamento na igreja tem registro e, por norma, é realizado somente em templos. Pela agenda lotada de Beto, muitos fiéis não dão a mínima.

*Reportagem publicada originalmente na edição 816 de CartaCapital, com o título "O excomungado casamenteiro"

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