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Número 816,

Cultura

Festival de Veneza

Giulio Andreotti, da política ao cinema

por Orlando Margarido — publicado 05/09/2014 18h54
Documentários contam como Giulio Andreotti foi incentivador e censor do cinema italiano. Por Orlando Margarido
Anne Joyce
Gina Lollobrigida e Rondi

Gina Lollobrigida e o crítico Rondi. O intelectual não compactuou com o desprezo político ao neorrealismo

Onipresente na segunda metade do século XX italiano, líder da Democracia-Cristã e presidente do conselho de ministros da República, Giulio Andreotti sobreviveu a todos os escândalos a que teve seu nome associado. Condenado em primeira e segunda instâncias pelo assassínio do jornalista Mino Pecorelli, em 1979, foi absolvido em definitivo pelo Supremo da Itália, então presidido pelo amigo Corrado Carnevale. No filme Il Divo, de 2009, Paolo Sorrentino lista inúmeros casos do gênero e sugere sua responsabilidade indireta pelo destino do colega de partido Aldo Moro, morto pelas Brigadas Vermelhas em 1978. Acusado de ligação com a máfia dos anos 1990, beneficiou-se da prescrição.

Ainda assim, o cinema do país reflete sobre o fato de que tal figura, ao repetir atitudes tomadas durante o fascismo, incentivou em alguma medida a indústria de filmes, por ter reaberto os estúdios da Cinecittà e criado uma lei de apoio à produção baseada em taxa sobre a dublagem no pós-Guerra. Como subsecretário da Presidência, foi, contudo, o responsável por condenar ao ostracismo obras-primas como Umberto D, de Vittorio De Sica, de 1952.

Conhecer essa relação do senador morto no ano passado com o cinema é a contribuição do documentário Giulio Andreotti – Il Cinema Visto da Vicino, exibido no 71° Festival de Veneza, mas não só. É o próprio quem nos conta em entrevista sua descoberta da tela e de como tratou mais tarde de vetar cenas de sexo e diálogos comprometedores ao governo. Em muito por não se imaginar aliado a esse princípio, o crítico e agitador cultural Gian Luigi Rondi recusou colaborar com o projeto quando convidado pelo próprio Andreotti. Segundo outro documentário exibido em Veneza, Gian Luigi Rondi – Vita, Cinema, Passione, de Giorgio Treves, o intelectual é apresentado como um contraponto às posições de Andreotti, ao apoiar de pronto o neorrealismo no jornal Il Tempo.

*Reportagem publicada originalmente na edição 816 de CartaCapital, com o título "Incentivador, censor"