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Número 816,

Economia

Análise / Paul Krugman

A espiral descendente

por Paul Krugman — publicado 10/09/2014 04h36
Com o BCE como credor de última instância, uma depressão europeia assusta mais que a crise fiscal
ALAIN JOCARD / AFP
François Hollande

Onde estão as figuras políticas da esquerda europeia, como François Hollande, tomando posição contra as políticas desastrosas?

Tenho conversado com algumas pessoas que respeito sobre o destino do euro, e me parece que a questão-chave envolve avaliação de riscos. Pense nisso como Cila e Caríbdis. De um lado, existe o risco de ver as economias europeias atiradas contra os rochedos da crise da dívida e, do outro, o perigo de ver a Europa puxada para baixo em um redemoinho de deflação.

Nos últimos quatro anos, a política europeia foi dominada por uma avaliação completamente unilateral desses riscos: desastre iminente da dívida e nada para se preocupar com a austeridade – a Fadinha da Confiança cuidará disso. Existe uma posição mais sóbria que considera os rochedos da dívida um risco sério, e o redemoinho da deflação ainda não ameaçador demais.

Como você poderia supor, tenho uma opinião completamente diferente. Agora que o Banco Central Europeu (BCE) está disposto a fazer seu trabalho como credor de último recurso, a ameaça da dívida é muito menos premente do que se pintava antes – e tenho afirmado o tempo todo que para os países fora da Zona do Euro não representa qualquer ameaça. Enquanto isso, estou aterrorizado por esse redemoinho. A Europa ainda pode circundar o ralo lentamente, mas as expectativas de inflação se soltaram das amarras, a inflação real está caindo e a recuperação estagnou. Quando a espiral descendente se tornar inegável, poderá ser irreversível.
Eu posso estar errado? É claro que sim. Mas a política econômica sempre envolve sopesar os riscos, e acho que deveríamos ter muito mais medo de uma depressão europeia do que temos da crise fiscal.

Em uma coluna recente, não fui simpático com o presidente francês, François Hollande, que demonstrou tanta força na oposição aos austerianos quanto um lenço de papel molhado. Mas temos de admitir que ele não é o único nesse infortúnio. Onde estão as grandes figuras políticas da esquerda europeia tomando posição contra as políticas desastrosas? O Partido Trabalhista da Grã-Bretanha tem sido quase surrealmente contrário a desafiar as premissas básicas das políticas do primeiro-ministro David Cameron. Alguém está se saindo melhor?

Você pode se queixar – e o fiz muitas vezes – da indisposição do presidente Obama a seguir a retórica de apertar os cintos, dos anos que ele desperdiçou perseguindo uma Grande Barganha sobre o orçamento e assim por diante. Mas o governo Obama, embora não use a palavra “estímulo”, favorece a coisa em si, e em geral os liberais americanos assumiram uma posição muito mais franca contra o dinheiro duro, a ortodoxia do orçamento equilibrado, do que seus homólogos na Europa.

Os economistas, em particular, assumiram uma posição muito mais forte. Na Grã-Bretanha existem, é claro, algumas vozes proeminentes contra a austeridade – os economistas Martin Wolf, Jonathan Portes, Simon Wren-Lewis e outros que certamente me escapam. Mas eles não parecem ter nada parecido com o peso que Larry Summers, Alan Blinder e muitos outros têm no debate aqui nos Estados Unidos.

Por que essa diferença? Realmente não sei. Tenho algumas hipóteses. Uma é que a ecologia intelectual nos EUA parece muito mais flexível: aqui, economistas sérios com credenciais de pesquisas célebres também podem ser intelectuais públicos com grande número de seguidores, e até servir como autoridades públicas; e eles podem fornecer pelo menos algum contrapeso para as “pessoas muito sérias”. Pense em Summers, ex-secretário do Tesouro, mas também na presidente do Federal Reserve, Janet Yellen (e antes dela Ben Bernanke), e de maneira um tanto diferente neste que vos escreve. Essas pessoas não estão totalmente ausentes na Europa – Mervyn King, o ex-governador do Banco da Inglaterra, foi um banqueiro central acadêmico, e também de certa maneira o é Mario Draghi, o presidente do BCE. Mas há muito mais deles nos EUA.

Outra hipótese é de que os liberais americanos foram endurecidos pela loucura da direita, e em particular pela experiência dos anos Bush. Depois de ver as “pessoas muito sérias” leonizarem o presidente George W. Bush, uma figura fundamentalmente lúdica, e aplaudir uma guerra que foi obviamente cozida sob falsas premissas, os liberais americanos estão mais dispostos que os social-democratas europeus a acreditar que os homens de ternos caros não têm ideia do que estão falando. Oh, e a América tem uma rede de grupos de pensadores progressistas vastamente maior e mais eficaz que qualquer coisa na Europa.

Mas estou apenas fazendo sugestões aqui. O infortúnio da esquerda europeia ainda é algo que não compreendo totalmente.